Um ano das manifestações de junho de 2013

Caros colegas, é interessante pensar serenamente sobre os resultados efetivos das manifestações ocorridas no mês de junho de 2013.

Estou disponibilizando a seguir o link da avaliação realizada no calor no momento em junho de 2013.   É bom perceber como nossas opiniões se tornam menos confusas quando nos distanciamos dos fatos.

http://eticaegestao.ifsc.edu.br/ideias-e-reflexoes/mobilizacao-popular-e-a-melhoria-da-gestao-publica/

No início de junho de 2013 nenhum brasileiro (e nem o governo federal) poderia imaginar o que estava por vir. E muito se especulou sobre o que aconteceria durante a Copa do Mundo de 2014. Havia o receio de gigantescas manifestações, que não ocorreram e ao que tudo indica não voltarão a acontecer nesse ano.  Eventos como Diretas Já (1984) ,  Fora Collor (1992) e de junho 2013 são raros.  São necessárias condições especiais para ocorrerem. É como se houvesse um grande tanque de gasolina, que sozinho não apresenta risco, mas quando a gasolina entra em contato com uma fagulha e com oxigênio explode.  A paciência com a corrupção, com a baixa qualidade dos serviços públicos e com a  falta de ética na política chegou ao fim quando uma fagulha dos 20 centavos e da violência policial da polícia paulista entrou em cena.   Uma vez satisfeito o desejo de mostrar o sentimento de indignação e considerando algumas ações pontuais adotadas pelo Congresso e pelo governo federal houve o arrefecimento dos ânimos.  A presidente Dilma realizou pesquisas de opinião para identificar as expectativas da sociedade naquele momento delicado.  Coincidentemente nos meses seguintes o Programa Mais Médicos foi apresentado (programa excelente com a ressalva da forma de pagamento parcial aos médicos cubanos).  Houve prisão dos mensaleiros, deputado preso e depois cassado,  retirada da proposta de modificação da MP 37 e apresentação da proposta de plebiscito para realização da reforma política, que evidentemente não foi a frente.  Vamos continuar com mais de 20 partidos, que penso não contribuem para fortalecimento de nossa democracia.

De forma resumida, o que houve em junho de 2013 foi uma crise de representatividade. O que se ouviu nas ruas é que falta ética na política e que os serviços públicos são precários. Os manifestantes deixaram claro que não confiam nas estruturas partidárias e que classe política parece não representar os reais interesses da população. A sensação popular é que a sociedade paga muitos impostos e recebe pouco em troca. A insatisfação popular se mostrou difusa, mas ficou claro que não era direcionada exclusivamente ao poder executivo, legislativo ou ao judiciário. A responsabilidade por tamanha insatisfação pode ser creditada a todas as instâncias da república brasileira. A crise atingiu as prefeituras, câmaras de vereadores, os poderes executivos estaduais, as assembleias legislativas e a esfera federal. A população percebeu que também é responsável pelos destinos do país e que a omissão e a conivência são os combustíveis da corrupção. Não adianta cobrar o exemplo da classe política se cada um não fizer a sua parte.

O aprendizado da crise de 2013 pode ser absorvido em todos os níveis e instituições. A sociedade exige melhoria dos serviços públicos, mais eficiência na gestão dos recursos, mais transparência e ética. Quer ser ouvida pelos seus representantes. Nesse contexto, todos os Institutos Federais devem cumprir bem o papel que lhes cabe.  Pessoalmente, foram as manifestações de junho de 2013 que me motivaram a realizar o trabalho como Reitor interino do IFPR de 9 agosto de 2013 a janeiro de 2014 após deflagração da Operação Sinapse pela Polícia Federal. Durante a gestão interina procurei fazer minha parte contribuindo para ampliar os mecanismos de transparência e fortalecendo a gestão participativa com a instalação dos Colegiados CONSEPE, CONSAP e Colegiados dos câmpus.  Não adianta ficar reclamando da corrupção e falta de ética se quando a Polícia Federal faz sua parte lavamos nossas mãos.  Fiquei longe de minha família mas pude explicar para meus filhos que estava trabalhando para um país melhor.

Fazemos parte de uma rede de Instituições de Educação, Ciência e Tecnologia. Atuamos dentro dos princípios constitucionais e temos o dever de prestar serviços de excelência para nossa sociedade. Essa, aliás, é uma preocupação que está explícita na missão do IFSC e de diversos outros institutos: “Desenvolver e difundir conhecimento científico e tecnológico, formando indivíduos capacitados para o exercício da cidadania e da profissão”.

Não basta formarmos bons profissionais. Eles devem ser educados para a cidadania. Não basta difundirmos conhecimento científico e tecnológico. Precisamos desenvolver o conhecimento e atuarmos como um centro de excelência. Para que a missão dos Institutos Federais seja alcançada, precisamos garantir a participação da comunidade interna e da externa.

O importante é aprendermos com os acontecimentos de junho de 2013 e com a lição da Copa do Mundo.  Enquanto muitos pensavam que a seleção brasileira faria sucesso em campo e que o país fracassaria fora de campo, o que ocorreu foi o contrário. E apesar dos 7 a 1, o resultado da Copa parece que foi bom para a auto estima do povo brasileiro.  Poderíamos ter vencido a Copa e ter feito um fiasco fora de campo.  Fizemos um grande evento, elogiado pelas mais diversas seleções e pela ampla maioria da imprensa.  Muitos turistas voltarão com suas famílias para visitar o país em suas férias. O Brasil recebe somente 5% de turistas por ano.  Os quase um milhão a mais de turistas representam 20% do volume de visitantes do ano.  Os novos estádios e os aeroportos reformados trouxeram mais conforto e orgulho aos brasileiros. Gosto de números e indicadores. Gostaria de saber realmente quanto faturamos financeiramente, sem manipulação.  Quanto a FIFA lucrou. Exatamente quantas obras prometidas não foram realmente concluídas.  Se as construtoras que fizeram os estádios são as mesmas que fizeram doações nas campanhas eleitorais.  Também tenho dúvidas se o volume de impostos recolhidos durante o evento compensou a queda nas vendas e na produção industrial.  Qual o impacto no PIB ?

http://www.ibope.com/pt-br/conhecimento/relatoriospesquisas/Lists/RelatoriosPesquisaEleitoral/Job%20110137%20-%20Paper%20Os%20Brasileiros%20x%20Copa%202014.pdf

http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2014/07/18/copa_do_mundo.pdf

Evidentemente precisamos concluir diversas obras e imagino que isso será feito na maioria dos casos.  Mas as obras que não ficaram prontas não trouxeram impacto negativo porque a população brasileira se uniu para acolher bem os cerca de 1 milhão de estrangeiros.  Evidentemente também desejo mais investimentos em hospitais, em escolas públicas, em presídios, em portos, ferrovias etc.  Mas o governo federal já demonstrou o quanto pequeno é o investimento realizado na COPA considerando-se o orçamento da educação e considerando-se o retorno de investimentos que são distribuídos em todo o país, decorrentes de novos negócios.

O mais engraçado é que a FIFA, que tanto criticou o Brasil e fez uma série de imposições para organização da Copa saiu do evento sob suspeitas de ser conivente com a venda ilegal de ingressos.  Após ler o livro “Jogo Sujo da FIFA”  não duvido de nada.

A lição foi aprendida dentro e fora de campo e pode ser muito útil para organização das Olimpíadas e Para-Olimpíadas do Rio em 2016.  Dizem que somos o país de futebol, mas como afirma Juca Kfuri, a média de público que frequenta os estádios no Brasil é menor que o da Liga americana e da segunda divisão da Inglaterra. Precisamos ter a humildade para reorganizar a estrutura do futebol brasileiro fazendo as modificações necessárias.  Não se trata de fazer terra arrasada em minha opinião. A vitória no futebol não depende somente do talento individual, nem tão pouco somente da organização fora de campo. São as duas coisas.

No campo político entendo que temos que ter a inteligência de usar o poder do voto para um país melhor.  Não é possível mudar o país somente com a mobilização se votarmos nos mesmos candidatos de sempre. Renovar é preciso. A alternância de poder é essencial na democracia. Política não deveria ser profissão, mas sim uma contribuição de homens e mulheres de bem para o país.

Jesué Graciliano da Silva

 

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