Comparação de diferentes modelos de educação profissional

Recentemente venho pesquisando as diferenças entre os modelos de educação profissional de alguns países selecionados: Alemanha, Portugal, Canadá, Chile, Estados Unidos da América e Coréia do Sul.  Também tenho procurado fazer comparações com o modelo brasileiro. Já visitei algumas escolas desses países, com exceção do Chile e da Coréia do Sul, onde tenho contatos com alguns professores. A partir de relatórios da OCDE, dos sites institucionais dos Ministérios da Educação destes países, dissertações, livros e artigos, bem como a partir de entrevistas e depoimentos coletados tem sido possível traçar um quadro comparativo.

Há algumas semelhanças entre os sistemas de educação profissional dos países analisados. Em alguns deles, a educação profissional é organizada principalmente em nível superior. Já alguns países oferecem a oportunidade de profissionalização já a partir do ensino secundário.

 

Tabela com características dos países analisados

País População

(milhões)

PIB per capita

(poder de compra Int. $)

2014

IDH Caraterística principal
Brasil 204 15.893 0,755 Educação profissional integrada a partir dos 14 anos e cursos subsequentes:

SENAI, SENAC, FATEC, CEFETs, UTFPR, Institutos Federais

Chile 17 22.071 0,832 Educação profissional superior:

Centros de Formação Técnica, Institutos Politécnicos

Canadá 36 45.066 0,913 Educação profissional superior

Colleges, CEGÉPs, Institutos Tecnológicos

Estados Unidos da América 320 54.630 0,915 Educação profissional superior

Community Colleges

Portugal 11 28.760 0,830 Educação profissional superior

Institutos Politécnicos

Alemanha 83 46.401 0,916 Educação profissional integrada a partir de 10 a 12 anos

Hauptschule, Berufsakademie e Fachhochschulen

Coréia do Sul 50 33.395 0,898 Educação profissional superior

Junior Colleges, Institutos Politécnicos.

 

O sistema de educação profissional dual organizado na Alemanha tem sido uma referência para vários países do mundo. A formação profissional de estudantes a partir de 10 a 12 anos é uma característica marcante do modelo alemão. A avaliação das notas / aptidão das crianças e sua “segregação” em cursos profissionais nessa idade é motivo de críticas de diversos autores. Esse processo faz parte da cultura alemã. Apesar da aparente falta de flexibilidade, os estudantes podem traçar diferentes itinerários formativos ao longo de sua vida, desde que cumpram os requisitos legais. De todos os países analisados a Alemanha é o único onde não é visível o estigma em relação ao trabalho de técnico. Os técnicos alemães são valorizados financeiramente e respeitados pela sua elevada competência profissional. A diferença de salários entre técnicos e engenheiros não é grande. Há um forte processo de fiscalização pelas câmaras especializadas do exercício profissional por pessoas não qualificadas.

 

ept alemanha 2

Modelo de educação profissional da Alemanha

Nas últimas décadas, tanto nos EUA, Canadá, Chile, Coréia do Sul e Portugal a educação profissional vem sendo introduzida nos currículos já a partir do ensino secundário. Especificamente no Brasil, houve a separação do Ensino Médio e do Ensino Profissional a partir do Decreto 2.208/1997. Posteriormente, em 2005, houve sua reintegração. No entanto, a  proporção de estudantes que realizam essa formação é baixa se comparada com o quantitativo de estudantes que cursam o curso secundário ou ensino médio propedêutico – acadêmico. Pode-se inferir que nestes países analisados os cursos técnicos não são valorizados adequadamente. Parece que os estudantes são incentivados culturalmente a ter como meta a educação universitária, chamada de “superior”. Essa é também chamada de cultura do bacharel. Não é comum ver um menino dizendo que quando ele crescer quer ser técnico em refrigeração por exemplo.

Nos EUA os Colleges são uma opção de formação superior profissionalizante. Para ingresso nessas instituições não é necessário realizar o SAT (Vestibular americano).  Os estudantes podem receber uma certificação intermediária (Associate Degree) de 2 anos ou continuar seus estudos nos próprios Colleges ou se transferir para uma Universidade para realização dos outros 2 anos para obtenção do título de graduação. Por isso, os mais de 1200 Community Colleges funcionam como degraus intermediários para as Universidades. Apesar de existir certo preconceito das universidades em relação aos Colleges, eles são responsáveis por metade dos graduados no ensino superior americano. No Brasil, os cursos chamados de subsequentes são parecidos com os oferecidos nos dois anos dos Community Colleges. No entanto, seus créditos não são aceitos nas universidades para fins de continuidade dos estudos. As Faculdades Juniors da Coréia do Sul (Junior Colleges), os Centros de Formação Tecnológica do Chile e os Colleges canadenses são derivações do modelo americano.

O Canadá tem uma população estimada em 36 milhões de habitantes. A educação no país é uma responsabilidade provincial, o que traz diversos desafios para o reconhecimento de cursos e mobilidade de trabalhadores. Na maioria das regiões os alunos concluem a formação secundária (high school) após 12 anos de estudos. A partir de então podem escolher entre a formação vocacional ou acadêmica. A educação profissional de nível superior no Canadá é organizada por meio de 131 instituições públicas (com diversos campi) e outras 60 instituições privadas com padrões próprios de admissão. Ao todo há aproximadamente 1 milhão e 500 mil estudantes matriculados em cursos profissionais de nível superior de 2 anos (grau de Associado) ou 4 anos (graduação). Segundo Tom Romer, há grande interação entre o setor produtivo e as Escolas Profissionais. Existem  Conselhos Consultivos aos Cursos (Program Advisory Committees) que atestam a relevância do currículo. Também há eventos como “Dia de Portas Abertas” e “Feiras de Carreiras”. Convidamos representantes da indústria para se reunir com alunos e graduados. Também realizam projetos de pesquisa aplicada em parceria com a indústria. Os professores participam de conferencias, exibições e feiras comerciais. O Conselho de Governadores tem representantes da indústria, que oferecem bolsas e agem como patrocinadores dos estudantes durante a graduação. Os professores, apesar de possuírem graus avançados, não são acadêmicos. São “practitioners” (praticantes) com grande experiência profissional e isso contribui para garantir um relacionamento mais próximo com o setor produtivo.

Portugal, que fez sua reforma educacional após a Revolução de abril de 1974, construiu um modelo binário onde os estudantes podem realizar seus estudos de nível superior em Universidades ou Institutos Politécnicos. Como há vagas em quantidade suficiente no ensino “terciário”, poucos estudantes têm procurado a formação nos cursos técnicos de 2 anos. Segundo alguns depoimentos de professores portugueses, o nível elevado de desemprego no país parece que tem desmotivado a continuidade dos estudos tanto nas Universidades quanto nos Institutos Politécnicos. O número de inscritos nas universidades e institutos politécnicos vem se estagnando ao longo dos últimos anos. Muitos estudantes acabam migrando para outros países da Europa.

A formação nas universidades é mais conceitual que a oferecida nos Institutos Politécnicos. As maiores universidades portuguesas em número de matrículas são Universidade de Lisboa (48 mil estudantes), Universidade do Porto (32 mil estudantes) e Universidade de Coimbra (23 mil estudantes). Destes, aproximadamente 3 mil são brasileiros. Além das 15 universidades públicas há ainda outras 32 universidades privadas atuando em Portugal. Existem 15 Institutos Politécnicos públicos no país, onde estudavam em 2013 aproximadamente 116 mil estudantes. O sistema politécnico passou a ofertar ensino superior ainda na década de 1980, após as antigas escolas industriais e comerciais terem sido convertidas em escolas de ensino superior de engenharia e administração. Somam-se a esse conjunto mais 33 instituições politécnicas privadas. Diferente das universidades, os Institutos Politécnicos não podem conferir o grau de doutoramento, apesar de ser comum que seus professores atuem como co-orientadores de estudantes matriculados nas Universidades.

A Coréia do Sul tem o sistema educacional mais competitivo de todos os países estudados. Os alunos são incentivados a estudar até a exaustão física para vencer o vestibular (SATC) e alcançar as melhores universidades. Os cursos profissionais, organizados no secundário ou em nível superior não parecem ser a primeira escolha dos estudantes. Há mais de uma centena de Institutos Politécnicos e Faculdades Juniors (Junior Colleges) espalhados pelo país e que garantem a profissionalização. Um diferencial da Coréia do Sul é que as grandes empresas são responsáveis por algumas Universidades e Faculdades Juniors. Toda empresa com mais de 150 empregados é obrigada a oferecer cursos de formação profissional. Também chama a atenção o fato de que na Coréia do Sul há predomínio dos cursos superiores e profissionalizantes privados. A educação primária e secundária é em sua maioria de alta qualidade e mantida com recursos públicos.

Em 2015, havia no Chile aproximadamente 1,15 milhão  de estudantes matriculados no Ensino Superior. Os 58 Centros de Formação Técnica atendiam 141 mil alunos.  A maioria dos cursos ofertados pelos Centros de Formação Técnica têm duração de 4 a 6 semestres e carga horária  mínima de 1.600 horas. Os Institutos Profissionais, que são responsáveis por programas de quatro a cinco anos de duração, atendiam 367 mil estudantes em 2015. Mas não podem atuar na pós-graduação e em áreas como Direito, Medicina, Engenharia e em outras especialidades reservadas por lei às universidades. Por sua vez, estas últimas não podem oferecer certos programas privativos dos Institutos. Apesar de considerado como uma referência na educação, principalmente infantil, atualmente o Governo do Chile tem sofrido grande pressão social para a realização de uma nova reforma do ensino superior. O ensino superior e profissional oferecido no Chile é em sua maioria privado.

coreia

Rede de Institutos Politécnicos da Coréia do Sul

O mecanismo de interação como o setor produtivo é diverso. Em países como Portugal e Alemanha há presença forte de Incubadoras Tecnológicas e Institutos de Inovação para transferência de conhecimento. Os pesquisadores dos Institutos Politécnicos e Universidades trabalham juntos com pesquisadores contratados pelos próprios Institutos de Inovação na investigação de soluções para os problemas concretos de interesse das indústrias. Na Alemanha estes Institutos são conhecidos como Fraunhofer, uma referência para diversos países, como o Brasil e EUA. Em Portugal há o Instituto Pedro Nunes de Coimbra, premiado como o melhor instituto de inovação do mundo. No Canadá e  EUA os Colleges organizam conselhos consultivos para ouvir as demandas da região, determinantes para a definição dos cursos e das vagas oferecidas. Na Alamo Colleges, por exemplo, tem-se o Workforce Development, onde empresários e dirigentes definem conjuntamente os cursos e o número de vagas que deverão ser ofertadas a cada 4 período de 4 anos.

No Brasil, as unidades do SENAI e do SENAC, por exemplo, são organizadas para atendimento das necessidades diretas do setor industrial e de serviços respectivamente. Já os campi dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia tem seus cursos organizados principalmente para atendimento dos Arranjos Produtivos Locais e demandas trazidas nas audiências públicas e nas pesquisas de demanda. Apesar de seus cursos atenderem geralmente às demandas regionais, em algumas regiões ainda é incipiente a transferência de conhecimento por meio da pesquisa e da extensão com o setor produtivo, conforme relatório de auditoria recente do TCU (2012).

Este é um dos grandes desafios que a Rede Federal tem para os próximos anos. Por esse motivo tenho proposto que em cada mesorregião sejam criados os Conselhos de Desenvolvimento Regional, onde egressos, empregadores, dirigentes da rede de educação profissional do SENAI, SENAC, Institutos Federais e secretários da educação e do desenvolvimento dos municípios possam conversar e estabelecer juntos pactos para o desenvolvimento integrado.

Atenciosamente,

Prof. Jesué Graciliano da Silva

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