Sobre poder e liderança…

Tenho acompanhado com atenção o processo eleitoral dos Estados Unidos da América, principalmente a partir do surgimento do fenômeno Barack Obama em um memorável discurso realizado na Convenção Democrata de 2004. Nesse dia Obama pavimentou seu caminho para a Casa Branca. Inscrevi-me no seu site de campanha em 2008 e desde então recebo informações sobre os acontecimentos que cercam o Partido dos Democratas. Tenho clareza de que não há santos em política e que o processo democrático norte-americano é bastante complexo. Mas confesso que seu discurso de vitória em Chicago me foi inspirador.

Sejam democratas ou republicanos eles defendem seus interesses e nada mais. Sendo simplista, a diferença é que os democratas parecem ser menos intervencionistas no campo militar, mas isso não os tornam menos danosos do ponto de vista econômico. Cada país deveria defender seus interesses nas negociações internacionais. Mas os americanos se passam porque usam de métodos pouco inocentes para alcançar seus objetivos.  O livro Assassinos econômicos conta um pouco dessa história.

 

Sei que temos problemas bem mais complexos para entender na política brasileira, não é mesmo?

Mas, Obama disse em seu pronunciamente ao povo cubano que  “todos somos americanos” . Então sinto me à vontade para comentar esse momento inusitado que os EUA vivem. Minha brincadeira é que deveríamos votar para presidente dos EUA, porque eles têm o poder de influenciar o que acontece em nossas vidas.

Com uma retórica invejável e grande carisma, Obama cumpriu seu papel de presidente da maior potência militar e econômica do mundo. Determinou o uso e abuso da tecnologia da informação, mandou invadir nossos e-mails, espionar seus amigos presidentes e decretou o uso de drones para eliminar seus alvos. Algumas vezes se desculpou pelos seus erros.  O que não traz as vidas de volta… Além disso, foi o fiador de um pacote de 700 bilhões de dólares  para salvar bancos e corporações. Bancos que agiram de forma irresponsável. Na hora de lucrar sem limites vale a máxima de não regulação da economia. Mas na hora da crise é preciso socializar os prejuízos. A população dos EUA pagou pelos erros e pela ganância dos “lobos de Wall Street“. O filme “Inside Job” conta um pouco dessa história.

Mas Obama será também lembrado pelos avanços sociais, pela inclusão de 20 milhões de norte-americanos aos Planos de Saúde, pela criação de novos empregos e pelos investimentos em energia limpa. Sua política externa foi marcada pelo compromisso de campanha de retirada das tropas norte-americanas do Iraque e do Afeganistão. Mas o resultado do vácuo de poder foi o surgimento do Estado Islâmico. Para aqueles que defendem a auto-determinação dos povos os EUA nem deveriam ter invadido o Iraque e Afeganistão. Uma vez destituídos os detentores do poder concentrado nesses países, milícias tomaram o controle. Mas não sejamos ingênuos. Antes também havia a tirania sob controle de algumas poucas famílias.  Não existe vácuo de poder

Mesmo sendo o primeiro presidente afro-americano, a tensão racial nos EUA não foi reduzida.  Seu exemplo e o de Michelle foram importantes, mas não suficientes para eliminar a ainda existente segregação racial. Nos EUA é possível reconhecer claramente três tipos de bairros separados: brancos, hispânicos e negros. No filme A 13a emenda isso fica bem claro. Nunca se prendeu tantos negros.

A liderança do agora cidadão do mundo Barack Obama só tende a crescer nos próximos anos, porque deixou o cargo aparentemente sem escândalos  tão comuns nos governos norte-americanos.

Apesar de ter clareza que Obama não é santo, seu substituto parece um trapalhão. E fico triste em perceber isso porque, apesar de quase metade da população norte-americana ter um nível de compreensão do mundo similar ao Homer Simpson, há milhões de norte-americanos bem educados, que não acreditam no exercício do poder por meio da força e da violência.

Os fundadores da República Americana estão revirando em seus túmulos. A eleição do TRAMPOLIM – um mistura de TRAMP com Chapolim Colorado é um daqueles momentos críticos. Dizem que o poder corrompe e que o poder absoluto corrompe absolutamente. Então devemos nos preparar para o pior.

Sua presença na Casa Branca mostra com clareza a diferença entre poder e liderança.

Peter Drucker dizia que “Liderança é a capacidade de influenciar e inspirar as pessoas”.

Mas é claro. Temos que reconhecer que TRAMPOLIM é uma liderança para milhões de americanos. No entanto, agora ele é presidente de todos os norte-americanos e não apenas de seus eleitores. E mais, os EUA criaram a bomba atômica e por isso têm responsabilidade para com o mundo civilizado.  Mas nada pior do que exercer o poder usando a força. Como grande empresário que é, TRAMPOLIM deveria se lembrar que uma boa negociação é aquela em que ambos os lados saem ganhando.

Não há diálogo possível com uma pessoa estúpida. Logo viveremos um momento onde cada um será por si… Barreiras e novas tarifas surgirão como forma de proteção dos mercados. Cada país vai se proteger como puder. A imposição do muro na fronteira do México sem diálogo com o presidente mexicano é uma afronta.

Como bem disse o fictício Frank Underwood “Vale sempre a pena repetir: vencedores constroem pontes. Perdedores, paredes”….

Quando foi necessário milhões de mexicanos foram chamados para trabalhar nas fábricas americanas durante o esforço da Segunda Guerra Mundial.  Não são os mexicanos que estão prejudicando a economia norte-americana. É a ganância de alguns poucos, que nunca foram tão ricos. A concentração de riqueza nos EUA vem ocorrendo desde os Barões Ladrões que tomaram o poder do país no final do século XIX. O deslocamento das fábricas norte-americanas para países vizinhos e outros países pobres foi uma decisão calculada desses grandes empresários que tinham por objetivo reduzir os custos de fabricação, explorando mão de obra mais barata e contando com isenção de impostos. Como resultado diversos produtos norte-americanos se tornaram mais acessíveis. Os lucros se concentraram nas mãos de um grupo seleto de empresários. Mas os empregos foram criados em outros países e os norte-americanos que não têm um nível de formação mais elevada perderam seus empregos. Outros empregos foram criados mas eles não estão preparados para eles. E isso em parte explica o ressentimento e a eleição do TRAMPOLIM, que se elegeu prometendo resgatar a autoestima desse povo: “Vamos tornar os EUA grandes novamente” !.   Nunca a desigualdade foi tão grande dentro dos EUA. 

O grande Geógrafo Milton Santos já afirmava com precisão na década de 1990 que os países ricos querem um mundo globalizado onde circulam livremente mercadorias e capital financeiro. Mas não desejam a circulação das pessoas. Assim é fácil não?

A criação de uma taxa de 20% para produtos importados do México sem respeitar os acordos de livre comércio existentes é uma afronta ao direito internacional. Mas ele pode, alguns vão dizer. Eu digo que ele pode fazer muitas coisas, mas não deve fazer a maioria das coisas que deseja. Cada ação gera uma reação. E ações impensadas levam a reações impensadas.

Será mesmo que os trabalhadores americanos vão aceitar contratos de trabalho ganhando menos e ainda pagar mais pelos produtos que vão produzir?  Durante muitos anos os empregos com baixos salários eram repassados para os latinos e outros estrangeiros. Aliás, o sonho americano é o combustível da exploração de milhões de trabalhadores ilegais dentro dos EUA. Pela primeira vez na história o nível de renda médio dos norte-americanos é menor que o da geração anterior. Sinal dos tempos.

O que será que vai acontecer quando TRAMPOLIM decidir que o “Mar da China” deve ter maior presença dos norte-americanos. Será que os chineses assistirão tudo pacificamente? Ou estamos próximos de uma nova Guerra Fria? Muito provável. Alguns dizem que TRAMPOLIM é tão estúpido, apesar de muito esperto nos negócios, que não concluirá o mandato. Não tenho bola de cristal. Se ele não contrariar os grandes grupos econômicos que dominam o país entendo que teremos que conviver com sua presença diária nos noticiários. Aliás, ele é especialista em marketing.

Penso que a forte reação de uma boa parte da  população norte-americana vai torná-lo mais prudente ao longo das próximas semanas. Cabe ao povo americano resolver esse problema – um elefante laranja – que  eles mesmos colocaram na Casa Branca…

Vamos aguardar o agora cidadão Obama voltar das férias…

Obama provavelmente organizará a reação do Partido Democratas com o objetivo de recuperar  cadeiras para o Congresso nas eleições que acontecerão daqui 2 anos.  O próprio Obama perdeu a maioria ainda em 2010. Aliás, que bom foi ver que um presidente pode sim pedir desculpas ao país. Talvez ele próprio e talvez Michelle sejam candidatos e com certeza seriam eleitos para o Senado.

Seria uma forma de exercer uma liderança positiva mais forte contra a tirania. Aliás eu votaria na Michelle para Presidente do Brasil !   Vamos começar uma campanha para o casal se mudar para o Brasil ?

A seguir tem um stand-up de TRAMPOLIM. Deleitem-se com seu narcisismo. “Acho que podemos fazer coisas grandes com esse blog”. A vida imita a arte…Se você achava Frank Underwood malvado

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/09/videos/1447072040_802912.html?rel=mas

Atenciosamente,

Prof. Jesué Graciliano da Silva