Corrupção no Brasil – realismo fantástico

A recente crise política e econômica do Brasil tem tido episódios dignos de realismo fantástico.

Os vídeos em que os delatores aparecem com tanta tranquilidade e até sendo irônicos ao relatar como ocorriam os repasses “não contabilizados” às campanhas eleitorais mostram que o cinismo não tem limites. Aliás, o cinismo é também de todos os que estão cansados de saber como o sistema eleitoral funciona e agora ficam fazendo-se de surpresos.

Ouvi diversos áudios na íntegra para não ficar repetindo o discurso manipulado de diversos “jornalistas” pagos por um lado ou outro. Faço minhas reflexões com muita tranquilidade de saber que nunca precisei transgredir os ensinamentos que recebi de meus pais para alcançar meus objetivos na vida.  Sou filho de bóias-frias – trabalhadores rurais – retirantes da seca do Nordeste. Trabalhei desde criança, estudava à noite e consegui com muito esforço uma vaga na Engenharia Mecânica da UFSC em um período onde não havia cotas. Graduei-me em 4 anos e meio com uma das melhores notas da turma. Fruto de muito esforço. Nunca encontrei facilidades na minha vida e nunca usei meu passado pobre como desculpa para flexibilizar meus valores morais e éticos.

Entendo que não estão certos os que roubam em nome do combate à pobreza. É um discurso hipócrita.  O combate à pobreza e a melhoria da vida das pessoas não pode ser usado como desculpa se roubar dinheiro público. Todos os que se apropriam de dinheiro público devem ser julgados e pagar pelos seus erros. Mas isso não invalida as boas ações realizadas durante as gestões dos Governos Lula e Dilma. Entre elas tem-se a expansão da rede federal de educação profissional, científica e tecnológica e das universidades federais. Tem-se o Programa Minha Casa Minha Vida e o PROUNI. Apenas para dar alguns poucos exemplos.

Somos um país com uma debilidade educacional histórica e isso tem um custo político grande. Dos 141 milhões de eleitores, 108 milhões não possuem o Ensino Médio Completo. Quanto maior o grau de escolaridade, mais difícil é a manipulação por parte da classe política.

Os fins não justificam os meios. O que tenho observado é a flexibilização moral das pessoas a minha volta. O discurso corrente é: Todos roubam, pelo menos eles roubaram para ajudar os mais pobres. Quando se critica o mau feito dizem assim: Então você prefere o PSDB?  Devemos ser ousados e sonhar com o impossível.  Sonho com governos decentes de homens e mulheres que sejam intocáveis. Thomas Morus sonhava com a UTOPIA, que significa “lugar nenhum”.  Tem gente que quer mudar o mundo mas não arruma seu próprio quarto. No livro Dr. Corrupção ficou mais claro que a nossa sociedade está seriamente doente. Ninguém confia em mais ninguém. Se uma pessoa está bem de vida, alguém já diz: deve ter roubado. Porque não se concebe mais que alguém possa vencer na vida sem usar de métodos espúrios. Quanto será que custa essa falta de confiança?

Será que alguém acha que existe algo de republicano quando uma empresa doa 300 milhões de reais em uma campanha eleitoral? Não existe almoço grátis. Como dizia Marlon Reis, que escreveu o livro O NOBRE DEPUTADO, doação eleitoral é investimento bem rentável.

Essas grandes construtoras tem um poder desproporcional nas campanhas. Já há algum tempo que é sabido que para conquistar as grandes massas é preciso usar de uma estratégia bem construída. Campanhas vencedoras custam caro. O candidato que consegue arrecadar mais tem capacidade de contratar os melhores profissionais do mercado e arregimentar mais cabos eleitorais. Então podemos dizer que essas construtoras já vem há décadas influenciando de maneira decisiva nos resultados das eleições.

Nessa semana acabei de ler o livro de James West Davidson – Uma breve história dos Estados Unidos. Nele há uma passagem interessante que mostra a luta para reduzir o poder dos grandes grupos econômicos organizados em trustes. Sabemos hoje que essa é uma batalha perdida. Mas a passagem me mostrou que não há nenhuma novidade nesse processo. A apropriação do Estado é o objetivo dos grandes grupos econômicos. Afinal o poder econômico está de mãos dadas ao poder político.

Ao estudar como se deu a transferência da Capital Federal do Rio de Janeiro para Brasília fiquei com leve impressão de que muito dinheiro foi utilizado para convencer os deputados a votarem a favor da transferência e que as construtoras devem ter estabelecido uma relação especial com Juscelino Kubitschek. Mas é claro que a história o absolveu. O Brasil não é para principiantes.

 

Atenciosamente,

Prof. Jesué Graciliano da Silva

 

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