Novas tecnologias na educação

Quando a internet se popularizou muitos diziam que ela substituiria os professores e as escolas.

Penso que o impacto da internet pode ser comparado à criação da imprensa de tipos móveis por Gutenberg.

Martinho Lutero utilizou essa tecnologia para disseminar a Bíblia traduzida para o alemão. E professou que todas as crianças deviam ser ensinadas a ler, para que pudessem conhecer as escrituras sagradas. Para Lutero não era necessária a mediação da Igreja para se comunicar com o Criador. A tecnologia desenvolvida por Gutenberg possibilitou que a educação básica fosse universalizada na Alemanha. Um ganho indireto da imprensa.

A quantidade de informações de origem duvidosa disponibilizada na internet faz com que o professor tenha um importante papel na mediação do conhecimento. Informação há demais, mas a transformação dessas informações desorganizadas em conhecimento não é tão simples. É preciso saber priorizar.

Para aqueles que desejam estudar sozinhos pela internet, é preciso lembrar que as universidades e escolas ainda detém o monopólio da concessão de títulos acadêmicos. Por isso, a existência dessas instituições ainda se torna indispensável. Muitas têm se organizado para validação de competências.

Quando ouço alguém dizer que as escolas vão desaparecer por causa das novas tecnologias me lembro que as universidades europeias criadas no século XIII já passaram por guerras e revoluções. E em quase 1.000 anos vêm se reinventando, introduzindo gradualmente as novas tecnologias.

Há alguns anos, muitas dessas renomadas instituições disponibilizaram cursos livres em grande escala. Os MOOCs (Massive Open Online Courses) são cursos abertos online e, geralmente gratuitos, destinados ao público geral. Como exemplo temos o Coursera, Udacity, Veduca entre outros. Os alunos podem receber certificados pelos cursos realizados.

As novas tecnologias da informação e da comunicação deram novo impulso para a educação a distância. No Canadá, por exemplo,  há uma universidade em que os estudantes podem escolher se preferem cursar as disciplinas na modalidade presencial ou a distância. A qualidade da educação é garantida nas duas opções. A UnESP de São Paulo tem organizado cursos semi-presenciais de Engenharia utilizando-se da UNIVESPTV.

Na atualidade, boa parte da tecnologia EAD é baseada em Ambientes Virtuais de Aprendizagem. O Moodle é um dos ambientes mais utilizados em todo mundo. As aulas EAD podem ser síncronas – via internet ou satélite – ou assíncronas – aulas gravadas. Os alunos leem os textos explicativo, assistem videoaulas e realizam as atividades recomendadas. Normalmente as provas são realizadas em um polo presencial. Há muitos modelos de EAD e não é objetivo dessa reflexão discutir o assunto.

A EAD vem tirando proveito da disponibilidade de aplicativos, celulares e internet  de banda larga. Mas penso que o mesmo não pode ser dito da educação presencial. No Brasil, penso que não houve ainda uma mudança significativa nos modelos de salas de aulas e nas metodologias de ensino. Há alguns anos o objetivo do MEC e do PNE era instalar energia elétrica em 17 mil escolas públicas brasileiras.

Os livros didáticos viraram e-books, o quadro negro transformou-se no Youtube e houve massificação da oferta por meio dos MOOCs. Mas há pouca inovação nesse processo. Salvo raras exceções, as aulas ainda acontecem em salas onde há um quadro e carteiras enfileiradas ou organizadas em “U”.  As aulas de informática são dadas em laboratórios específicos. Em 2005 criamos a Sala de Aula Interativa no câmpus São José, como forma de estudar novos modelos.  Em alguns casos são criados cursos extracurriculares de robótica e programação de jogos para que os alunos vivenciem as novas tecnologias. Um projetor multimídia tornou-se um objeto comum em muitas escolas, principalmente particulares. A promessa de um computador por aluno não se consolidou. Recentemente o MEC distribuiu 600 mil tablets de qualidade duvidosa para professores brasileiros. Os resultados ainda precisam ser avaliados.

Só para se ter uma ideia de como as tecnologias educacionais evoluíram, há três décadas, ser um professor moderno era utilizar bem um retroprojetor. Em 1997, quando foi implantada a internet em minha escola, comecei a inserir os conteúdos básicos da área de refrigeração em um site. Essa ação foi a semente da criação do primeiro curso EAD do IFSC. E todo material desenvolvido tornou-se material de apoio ao ensino presencial

Aos poucos, a disseminação da internet de banda larga facilitou o acesso a animações didáticas (objetos de aprendizagem) e a vídeos do Youtube (criado em 2005).  Desde 2006 organizamos um portal Wiki no câmpus São José, onde compartilhamos nossas aulas e hiperlinks.

Atualmente todas minhas aulas estão disponíveis online nesse blog, onde publico textos, links e videoaulas – produzidas no mesmo modelo popularizado por Salman Khan (Khan Academy). Nas aulas de projetos, por exemplo, que são desenvolvidas no laboratório de CAD, o blog tornou-se espaço de interação. Nenhuma impressão é realizada. A princípio, não há nada de novo.

Penso que a novidade é que, mesmo sem uma formação específica em TI, sou capaz de gerenciar sozinho o blog e de produzir videoaulas simples que contribuem sobremaneira para a complementação da formação dos estudantes. E isso quer dizer que as novas tecnologias permitem que o docente seja um criador de conteúdos digitais. Tudo isso porque há aplicativos fáceis de usar como Educreations e Explain Everything.

As novas tecnologias nem sempre trazem os resultados que esperamos. Em 2007 realizei uma apresentação sobre novas tecnologias em um Seminário.

Na época se apostava muito em votadores eletrônicos e em salas de aulas inteligentes. Os votadores permitiriam que os alunos apresentassem respostas objetivas para perguntas formuladas pelo professor em tempo real. Relatórios instantâneos de erros e acertos permitiriam que o docente fosse dosando a gradação dos conteúdos dentro do ritmo dos estudantes. A avaliação se tornaria continua. Atualmente, há iniciativas pontuais, mas que permitem inserir o celular em sala de aula.

Atualmente tenho ouvido falar muito de gameficação da educação. Nos filmes Avatar e Matrix as aplicações da realidade virtual foram mostradas como ficção.  Mas o Kinect do Xbox trouxe os avatares para dentro de nossas casas. As crianças jogam com o corpo. Algumas escolas já inseriram o Kinect em alguns cursos. Investimentos vêm sendo realizados por grandes empresas para transferir essas tecnologias para a educação. Não é simples um professor desenvolver essas ferramentas. Mas pode aprender bem como  utilizá-las. No entanto, vejo como temerário pensar que todos os conteúdos devam ser ensinados na forma de jogos. É preciso cuidar para que as novas gerações não percam o prazer da leitura e a capacidade de pensar criticamente.

Recentemente alguns modelos de celulares passaram a incluir “óculos 3D”. Com eles é possível simular experiências sensoriais. É o mundo da realidade virtual (VR).  Uma pessoa pode visualizar um campo magnético, por exemplo, e com isso entender melhor os complexos conceitos da física. Há um mercado bilionário se abrindo.

Pensando na integração dos óculos 3D com os avatares do Kinect, imagino meus alunos executando virtualmente os procedimentos práticos de instalação de um equipamento de climatização antes das aulas práticas em laboratório. Penso que essa possibilidade contribuiria para maior proficiência nas aulas práticas realizadas em bancadas reais.

Há um universo de possibilidades a serem exploradas, principalmente quando inserimos nesse cenário os Laboratórios Remotos.  O potencial dos laboratórios remotos é muito grande, principalmente porque a maioria das escolas brasileiras não possui laboratório de ciências. Ha diversas iniciativas sendo exploradas como a realidade aumentada e os simuladores virtuais.

Simulador virtual para aulas de saúde – UNOESTE

A presença de designer instrucional se faz cada vez mais necessário nas escolas.  Para o designer Antonio Sérgio Alves de Oliveira da Unoeste: “A ideia é unir a tecnologia e a didática, fazendo com que essa ferramenta possa ser utilizada como reforço à aula presencial, pois são assuntos delicados e a aula, muitas vezes, não é suficiente para esclarecer todas as dúvidas”,

Mas para que as novas tecnologias possam trazer benefícios é preciso uma atitude pró-ativa dos docentes e dos estudantes. O aluno tem a possibilidade de estudar os conteúdos antes das aulas e tornar a sala de aula um espaço para discussão e reflexão. Todos os conteúdos estão disponíveis no blog. Mas muitos estudam apenas antes das provas. Os estudantes precisam desenvolver uma atitude de maior autonomia. Devem assumir o protagonismo de sua formação porque depois da formatura estarão sozinhos na árdua tarefa de aprender continuamente.

Os professores não podem ficar esperando a Direção organizar programas de capacitação para começarem a experimentar as novas tecnologias. É preciso aprender fazendo e ir corrigindo os erros no caminho. É um mundo novo. Quem viver verá…

Atenciosamente,

Prof. Jesué Graciliano da Silva

Saiba mais:

https://br.udacity.com/blog/post/usos-realidade-virtual

https://insper.blackboard.com/bbcswebdav/institution/DEA/manuais/Clickers/iniciar-votacao-eletronica-em-sala/#preparar-apresentacao-votadores-mobile

https://silabe.com.br/blog/10-ferramentas-online-para-facilitar-vida-dos-professores/

Sobre a origem do Coursera

Sobre como usar o celular para promover votações online em sala de aula.

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