O setor de transportes e a cadeia da refrigeração

Nessa semana, mais uma vez o país sentiu a força do setor de transportes. Mais de 70% da frota de caminhões brasileiros pertence a empresas transportadoras. Os caminhoneiros autônomos correspondem a aproximadamente 25% do setor. A política de preços do diesel, as más condições das estradas, os pedágios e a falta de segurança estão por trás das reivindicações apresentadas há mais de seis meses ao governo.

Não podemos ignorar também o oportunismo dos grandes empresários do setor, que perceberam no governo impopular de Temer, um terreno fértil para ampliar suas margens de lucro.

Na crise há sempre uma oportunidade de reflexão. Em 1973, quando ocorreu o Choque do Petróleo, o Brasil reagiu criando o Programa Pró-Álcool. Recentemente o país avançou nas pesquisas no setor de biocombustível. Temos uma das maiores frotas de carros Flex do mundo. Quando houve o apagão da energia elétrica em 2001 foram criadas novas regras para o setor elétrico. Com a recente crise hídrica foram colocadas em funcionamento as usinas termoelétricas e ampliada a produção de energia eólica.

E agora vemos que a distribuição da maior parte da produção brasileira por meio de caminhões não parece ser estratégico. Ficamos reféns desse importante setor da economia. O que está acontecendo agora não é uma negociação. Uma negociação acontece quando os dois lados estão em nível de igualdade. Por mais que os transportadores autônomos tenham razão e direito constitucional de mobilização, penso que o que está acontecendo parece mais uma chantagem. Não entendo ser correto o bloqueio das estradas por nenhum tipo de organização. Se os caminhoneiros podem, porque o MST não pode? Ninguém pode.  Penso que se não houver uma solução negociada nos próximos dias a paciência da população com o atual presidente chegará ao fim. E isso pode levar a sua renúncia ou até mesmo a uma intervenção militar.

Muitos aeroportos que dependem de abastecimento por rodovias estão ficando sem combustíveis. As escoltas já estão sendo utilizadas para viabilizar o funcionamento do aeroporto de Brasília. Ao mesmo tempo vemos que os aeroportos paulistas de Guarulhos e Congonhas recebem combustível por meio de tubulação subterrânea. Mas como dependem de voos vindo de aeroportos de todo o país, o caos aéreo se aproxima. Lembrei-me do que aconteceu logo depois do acidente aéreo da Gol de 2006 – apagão aéreo. Fico imaginando as companhias americanas e europeias avaliando se vão manter suas escalas de voo para o Brasil, se há risco de não retorno de suas aeronaves.

Pois bem, espero que depois dessa crise seja possível se rediscutir com mais seriedade o modelo de distribuição de cargas do país. É preciso ampliar o transporte por meio ferroviário e hidroviário. É preciso garantir que hospitais e aeroportos sejam supridos por meio de tubulações. Precisamos tornar nosso sistema de distribuição menos vulnerável. E quando pensávamos que o cenário não podia piorar soube que os petroleiros pretendem entrar em greve na próxima semana. E agora vemos o oportunismo político e sindical se manifestando. É o cenário perfeito para radicalismos de esquerda e de direita. Vejam os aspectos econômicos do movimento.

O painel WW 07 – Economia refém da política: tem saída? 

Bom, mas o objetivo principal da postagem é falar um pouco sobre a relação dessa greve com a cadeia do frio.

A cadeia do frio se desenvolve a partir da colheita / produção, do resfriamento / congelamento, do transporte, do armazenamento, da distribuição para exportação / varejo até chegar ao consumidor final. O excesso de colheita e frutas e legumes pode ser armazenado em câmaras frias para uso durante períodos de entressafra, o que garante vantagens econômicas consideráveis, principalmente para os pequenos produtores.

Apesar de a cadeia do frio contribuir para a redução do desperdício, estima-se que no Brasil 30% dos alimentos acabem no lixo por falta de refrigeração ou por causa de refrigeração deficiente nas etapas de colheita, armazenamento, transporte e varejo.

O funcionamento de um sistema de refrigeração para transporte exige que o caminhão esteja com o motor ligado ou que o sistema seja ligado a uma tomada nos momentos de descanso. Por isso muitos frigoríficos catarinenses interromperam suas atividades no início da semana passada. Sem poder distribuir os frigoríficos deixam de abater os bovinos confinados. Mas não possuem estrutura para manter os animais bem alimentados. Não conseguem nem receber a ração para isso. Muitos produtores estão jogando fora o leite produzido. O problema é complexo.

Fiz uma pesquisa rápida das consequências da paralisação no setor de alimentos:

“A greve dos caminhoneiros autônomos trouxe efeito em cadeia nos principais setores produtivos de Santa Catarina. A falta de distribuição de comida nos supermercados deve se intensificar, podendo faltar frutas, legumes e verduras ainda nesta quinta-feira. Além disso, o bloqueio da chegada da ração no campo acendeu o alerta para produtores e empresários, que precisaram suspender atividades…Dificuldade em conseguir cumprir contratos de exportação, produção estocada nas próprias fábricas ou parada dentro de caminhões nos bloqueios das rodovias catarinenses. Essa é a realidade da maioria das indústrias catarinenses após o início da greve dos caminhoneiros autônomos. Ainda sem conseguir mensurar o custo do prejuízo no setor, o presidente da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), Glauco José Côrte, ressalta que, além dos prejuízos financeiros, a paralisação tira a credibilidade que o importador tem nas empresas catarinense.”  NSC – DC

‘Em relação às exportações de frutas frescas, a Associação Brasileira dos Produtores de Maçã (ABPM) informa que 20 toneladas de maçã estão paradas  m Santa Catarina, aguardando para serem exportadas para Europa e países da
Ásia.  Os frutos estão sendo mantidos em caminhões frigorificados. Com isso os custos para a manutenção da cadeia de frio das cargas reduz diretamente a margem de lucro do produtor. Há casos de não cumprimento dos prazos de entrega estabelecido nos contratos, o que resulta no descarte dos produtos devido
à impossibilidade de fornecer para o mercado interno. Cargas de manga de produtores-exportadores da região de Petrolina estão impossibilitadas de sair do município em direção aos portos, deixando os produtores sem alternativas…Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), há previsão de que, até a sexta-feira (25), mais de 90% da produção de proteína animal seja interrompida caso a situação não se normalize. São mais de 208 fábricas de diversos portes paradas no Brasil. Para a associação, os estabelecimentos menores e de cidades pequenas ou regiões metropolitanas – que mantêm um ciclo de entrega de produtos a cada dois dias – já estão com o abastecimento comprometido. Essa dificuldade pode atingir os grandes centros nos próximos dias.
Relatos de produtores apontam que existem caminhões transportando animais parados em bloqueios em todo o país. Há casos de animais que não são alimentados há mais de três dias. Também está travada em vários pontos a circulação de caminhões de ração, que levariam alimentos para as propriedades. A situação nas granjas
produtoras é gravíssima. Com falta de insumos, muitos animais podem chegar a óbito.” Impacto da greve no setor agropecuário

Vamos torcer para que o cenário melhore nos próximos dias. Nada é tão ruim que não possa piorar. Muitos pensam que estamos no fundo do poço e por isso tudo tende a melhorar. Mas não há nada que comprove essa afirmação.  Estamos escrevendo a história de nosso país nesse momento. E tudo pode acontecer.

Atenciosamente,

Prof. Jesué Graciliano da Silva

Saiba mais sobre:

Greve de 1999

Greve de 2003

Greve de 2012

 

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