Alemanha e seu sistema de educação

A Alemanha tem um dos sistemas de educação profissional mais respeitados do mundo, conhecido como dual.

Sempre tive curiosidade de entender qual a relação entre a massificação da educação profissional e o desenvolvimento social e econômico alemão. Lendo Niveau fiquei mais fascinado ainda por esse assunto. Se outros países conseguiram, penso que nós também podemos.

Uma pergunta que sempre me fiz é: Como a Alemanha conseguiu se reconstruir tão rápido após a Segunda Guerra Mundial, tornando-se novamente uma potência mundial já no início da década de 70?  O Japão experimentou um caminho semelhante. Será que o plano de ajuda financeira que estes dois países receberam (Plano Marshall) permite explicar tudo?

Reportagem sobre Alemanha – SBT Repórter

Em 2014, o volume de exportações da Alemanha era 7 vezes superior ao do Brasil (Brasil = 152 bilhões de dólares). A força de trabalho do país era de 42 milhões. O Brasil contava com 104 milhões de trabalhadores. A renda per capita da Alemanha era de 44.000 dólares, 4 vezes maior que a do Brasil e menor que a dos EUA (50 mil dólares).  Os gastos com educação eram proporcionalmente iguais ao do Brasil  (em torno de 5% do PIB).  Havia 25% da população com mais de 60 anos na Alemanha. Organizei uma dezena de gráficos comparativos analisando PIB, crescimento demográfico, população, exportações, importações entre outros.

Na Figura a seguir mostramos a população da Alemanha e do Brasil de 2000 a 2013.

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Organizei no link a seguir um resumo de indicadores sobre a Alemanha:  comparativos finais

Pude visitar a Alemanha no ano de 2016. Conheci diversas cidades, entre elas Karlsruhe, que fica mais ao sul da Alemanha, perto de Estrasburgo (França). Karlsruhe tem uma das mais antigas Escolas de Educação Profissional do mundo (KIT, criada em 1825).

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Foto de castelo de Karlsruhe

As vezes, o índice IDH não é suficiente para se compreender como vive a população. Cada país tem um caminho histórico. A Alemanha, por exemplo, travou mais de uma dezena de guerras e isso custou algumas dezenas de milhões de vidas. Os alemães precisam conviver com as lembranças de seus erros históricos. Erraram muito, mas também deram grande contribuição para a humanidade.

Na área de educação profissional,  o Brasil está empreendendo a instalação dos Institutos de Inovação por meio dos  Institutos Federais e pelo Sistema S. Esses institutos estão sendo implantado com estreita cooperação com o governo da Alemanha, seguindo o modelo dos Institutos Fraunhofer.  A Alemanha possui mais de 60 institutos de inovação Fraunhofer, que são centros especializados de inovação em áreas específicas. Nesses institutos, pesquisadores públicos e privados atuam de forma integrada.

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Visita ao Instituto Fraunhofer de Freiburg – Mais importante centro de pesquisas em energias alternativas

O primeiro fato que me chamou a atenção foi a quantidade de bicicletas de todos os tipos e modelos, utilizadas por crianças, jovens e idosos.

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Foto de Bicicletas no câmpus da Universidade Tecnológica de Karlsruhe (ao fundo um virabrequim gigante) em homenagem ao inventor do automóvel Carl Benz (que estudou em Karlsruhe).

A mobilidade urbana na cidade de Karlsruhe e em diversas cidades na Alemanha é um exemplo que poderia ser estudado por muitos prefeitos. O país onde se inventou o automóvel não tem vergonha de usar a bicicleta em seu dia a dia para estudar, para lazer e trabalhar.  As bicicletas que estão em todos os cantos possíveis, sendo carregada dentro dos trens e até em salas de aula. Talvez isso explique porque não observei nenhum alemão obeso durante os 15 dias de viagem. Algo impensável nos EUA onde a obesidade é um problema nacional.  O interessante é que o uso da bicicleta é incentivado pelos desde cedo. Os bebês andam nas bicicletas sem pedais e nos carrinhos ligados às bicicletas dos pais.

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Foto – a bicicleta dos pais alemães.

A confiança de que a pessoa fará o que é certo é também uma característica que chama a atenção. Normalmente não aprece ninguém para conferir o ticket de passagem do trem urbano e do trem que circula entre as cidades / países. Os fiscais existem, mas não de forma ostensiva. As pessoas confiam uma nas outras e isso tem relação direta com o sentimento de coletividade.

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Foto – Trem urbano elétrico circulando no centro de Karlsruhe, dividindo espaços com pedestres, carros e bicicletas.

Ao final da 2ª Guerra Mundial as mulheres eram maioria da população e assumiram o papel de reconstrução do país ocupando posições até então dos homens.

“Os bombardeios às cidades alemãs haviam deixado 20 milhões de desabrigados no país. Quatrocentos milhões de metros cúbicos de entulho tinham de ser removidos. Um comparativo para demonstrar a situação: dos 750 mil habitantes de Colônia antes da guerra, haviam restado 40 mil” Fonte: http://www.dw.de/a-dura-vida-dos-alem%C3%A3es-logo-depois-da-guerra/a-1573308

Não tenho informações sobre a proporção exata da população da Alemanha em 1945, mas posso supor que muitas crianças foram educadas sem a presença masculina.

Nas calçadas em frente de muitas casas observei que há pequenas placas de bronze com nomes e datas. Essas placas indicam o nome das pessoas que foram levadas para os campos de concentração. Não eram somente judeus, mas também ciganos, homossexuais e portadores de necessidades especiais. Não há como as novas gerações esquecerem-se desse passado tão duro.

a marca de bronze nazistas

Foto – Placa de bronze fixada na calçada de uma residência com o nome da pessoa que foi levada para um campo de concentração nazista.

Alguns campos de concentração começaram a funcionar em 1933, quando as pessoas eram usadas como mão de obra escrava para, por exemplo, extrair minério das minas para mover a máquina de guerra alemã.

Nesse período foram construídas obras de infraestrutura que ainda são muito importantes para a Alemanha na atualidade: as auto-estradas e o sistema de ferrovias. Essas obras empregaram muitos trabalhadores que perderam seus empregos durante a Crise de 1929. Com a construção de grandes obras, o governo nazista resgatou o sentimento de autoestima do povo alemão.

Posteriormente, durante a Segunda Grande Guerra Mundial, as ferrovias e estradas de alta velocidade foram decisivas para o  deslocamento de tropas e de suprimentos. Ainda hoje a Alemanha se beneficia da facilidade de escoamento da produção e de seu sistema de integração nacional.

Trens de alta velocidade fazem a interligação entre as cidades alemãs e a interligação com outros países. Na mesma estação é possível pegar um ônibus local, um metrô, um trem de alta velocidade regional e internacional. As estações são limpas, bem sinalizadas e informatizadas, o que facilita o deslocamento dos usuários.

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Foto da estação de trem da cidade de Karlsruhe.

A explicação para a reconstrução tão rápida do país está associada, em parte, ao Plano de recuperação econômica empreendido pelos EUA (Plano Marshall). Parte dos recursos emprestados ainda está sendo pago pelo governo alemão.

Penso que a alta qualificação e a disciplina do trabalhador alemão também foi um fator decisivo para a reconstrução. O povo alemão tem orgulho de fazer bem feito seu trabalho. Para todas as profissões há formação especializada e há impedimento de exercício dos que não têm a qualificação apropriada. A sociedade alemã tem elevado nível de exigência na qualidade dos serviços e produtos. Essa é uma obsessão nacional. A produtividade alemã se baseia em qualificação profissional e no uso das melhores ferramentas para cada tipo de serviço.

As escolas profissionalizantes (Fachschule) e universidades profissionalizantes (Fachhochshules) mantêm laços estreitos com a indústria. Diversos centros de pesquisa são financiados com apoio das empresas, que estão em busca da inovação permanente. A atuação em sintonia com o setor produtivo é a regra do sistema de educação profissional.

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Foto – Visita à escola técnica de Heidelberg

Muito se fala do modelo de educação dual alemão. Em linhas gerais esse modelo garante a integração entre a indústria e as escolas em todos os seus níveis. Mesmo as escolas que não são consideradas profissionalizantes oportunizam desde cedo a visita dos estudantes às empresas conveniadas e incentivam a realização de estágios. As indústrias são organizadas de tal forma a garantir a inserção dos estudantes em seu dia a dia sem riscos a sua integridade física e à produtividade.

A indústria complementa a formação dos estudantes. Em alguns currículos os estudantes passam 2 dias na indústria e 3 dias nas escolas profissionalizantes.

Alguns estados possuem mais independência que outros. O país ainda está consolidando o processo de unificação territorial (queda do muro de Berlim em 1989). Por isso os sistemas educacionais são bem diversos, que não parece ser um problema para os alemães. As universidades tecnológicas e as Fachschule (equivalente às escolas técnicas brasileiras) são respeitadas como centros de excelência na formação profissional.  No KIT estudaram personalidades como Carl Benz, Hertz, Nusselt entre outros.

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Foto – Fachada do prédio histórico da Universidade Tecnológica de Karlsruhe (1825)

Penso que a elevada produtividade do povo alemão se baseia em um traço cultural que valoriza a disciplina, a formação profissional, o uso das melhores ferramentas  e as melhores técnicas. Algumas empresas alemãs são também orgulho de seu povo: Siemens, Liebherr , Hertz, BMW,Volkswagem, Bayer, Bosch e Mercedes Benz por exemplo. Mas nada é perfeito. Lembro-me que no ano passado foi revelado um grande escândalo da Volkswagem, que fraudou o sistema de emissão de poluentes de seus carros.

Conheci a Universidade Tecnológica onde estudou o inventor do automóvel (1896). Carl Benz estudou no KIT – Karlsruhe Institute of Tecnology. O primeiro automóvel foi construído a partir de minucioso projeto de cada componente antes da montagem.

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Foto – Homenagem à primeira mulher que testou o automóvel – Museu do automóvel

O livro: “A máquina que mudou o mundo” descreve como que, por muitos anos esse foi o padrão de fabricação dos automóveis. Isso mudou a partir de 1914 com a instalação da primeira linha de produção em série por Henry Ford nos Estados Unidos. Quando se fala em automóvel, muita gente se lembra de Ford, que implantou a produção em série.

Na atualidade, a indústria de carros sobre medida ainda existe para atender clientes seletos que desejam adquirir carros únicos e customizados.

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Foto  Detalhes de uma réplica do primeiro automóvel inventado por Carl Benz – Museu da Mercedes Benz – Stuttgart

Um detalhe interessante que poucos se lembram é que a Alemanha só existe como país a partir de janeiro de 1871 com a unificação liderada pelo exército prussiano. Até 1871 existiam quase duas centenas de ducados que foram unificados sob a liderança da Prússia. A posse do imperador Guilherme ocorreu no Palácio de Versalhes em Paris. Seu exército recém tinha obtido uma esmagadora vitória sobre o exército francês liderado por Napoleão 3º em 1870.

Na Universidade Tecnológica de Karlsruhe há uma placa em homenagem a estudantes que foram mortos na guerra franco-prussiana que ocorreu em 1870. Muitas batalhas ocorreram na fronteira entre a Alemanha e França, onde houve disputa da região hoje pertencente à França. Estrasburgo já pertenceu à Alemanha de 1871 a 1919 e é uma região rica em carvão e minério de ferro, necessárias para a industrialização. A cidade de Karlsruhe fica a pouco mais de uma hora da fronteira com a França.

Antes da unificação, os ducados contavam com governos independentes, mas falavam praticamente um mesmo idioma, com pequenas variações. Foi Martinho Lutero o responsável pela reforma protestante (1517) e pela integração do idioma alemão. Lutero traduziu a Bíblia para o alemão e afirmou a tese de que todo homem deveria ler a Bíblia. Houve a massificação da educação básica independente de classe social.

Pude visitar a cidade onde nasceu Gutemberg (Mainz). Esse alemão deu uma grande contribuição ao mundo ao aperfeiçoar os tipos móveis para impressão. A imprensa tornou acessível os livros, principalmente a Bíblia.

No filme “Lutero” é possível perceber como a reforma protestante livrou os príncipes de diversas províncias alemãs da influência do papa e do envio de dinheiro (contribuições e impostos) para Roma. A Bíblia traduzida por Lutero para o alemão contribuiu para a unificação do idioma.

O alemão Karl Marx, considerado um dos maiores intelectuais do século XIX, contribuiu para a compreensão de como se dá a relação entre capital e trabalho. Segundo Marx, a “mais valia” é a base da acumulação. Seu pensamento inspirou diversas revoluções, que também deram origem às “contra-revoluções capitalistas”. O Plano Marshall, o estado de bem estar social, o socialismo democrático, as jornadas de trabalho menos extenuantes foram algumas das formas de se evitar a expansão do comunismo na Europa.

Comparado com Inglaterra, França e Estados Unidos da América, a Alemanha iniciou sua industrialização tardiamente, mas soube aproveitar os ciclos de desenvolvimento econômicos decorrentes da segunda fase da revolução industrial (vapor, eletricidade e química).

A utilização e percepção da importância do conhecimento científico e tecnológico para tornar a indústria mais competitiva tem sido decisiva na Alemanha. Braverman chamou esse processo de Revolução Técnico-Científica em seu livro Capital Monopolista.

A Alemanha criou um sistema de educação profissional orientado para a solução dos problemas da sociedade. Em uma palestra recente, o então presidente do CNPq explicou que um estudante alemão interessado em cursar o doutorado precisa fazer antes uma incursão na indústria com o objetivo de compreender os problemas reais. Esse fato faz com que o país tenha um elevado índice de inovação.

Uma rede de distribuição da produção eficiente, elevada densidade populacional, pequena distância dos países consumidores, elevado nível de mobilidade urbana, educação profissional integrada ao mundo produtivo, disciplina, inovação e eficiência fazem a diferença na elevada produtividade do país.

Como no Brasil, o sul da Alemanha tem algumas diferenças em relação ao norte. Do norte escoa boa parte da produção européia para o mundo pelo porto de Hamburgo. Ao sul é muito forte a integração com os outros países por meio dos eficientes sistemas ferroviários e auto-estradas. A religião protestante é mais forte no norte do país, mais distante de Roma.

A maioria das pessoas com quem falei tem o inglês como segunda língua e aprendem efetivamente o idioma na escola regular.

Percebi também a forte preocupação com a “economia verde”. Em muitos lugares é possível visualizar telhados fotovoltaicos, geradores eólicos e carros elétricos. Pude visitar o Instituto Fraunhofer dedicado exclusivamente à pesquisa como energia solar na cidade de Freiburg.

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Foto – Equipamento para teste de coletores solares no Instituto Fraunhofer – Freiburg – ISE

A cidade de Karlsruhe chamou minha atenção principalmente pelo planejamento urbano que privilegia o transporte público e a bicicleta. Há respeito e conservação dos monumentos históricos. Há acessibilidade para os idosos, que se movimentam com desenvoltura pela cidade. Em Karlsruhe foi desenvolvido o primeiro sistema de controle de tráfego do mundo. Tudo isso é fruto da influência do KIT, que é uma referência nacional no ensino, pesquisa e extensão. A Biblioteca do KIT tem oito andares e um acervo invejável.

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Enfim, motivos não faltam para conhecermos melhor as boas práticas do sistema educacional alemão.

Atenciosamente,

Prof. Jesué Graciliano da Silva

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