Encontros e desencontros

Há 25 anos iniciei minha carreira como professor da UnED São José da antiga Escola Técnica Federal. Havia sido aprovado nas últimas disciplinas do Curso de Engenharia Mecânica e aguardava a formatura, que ocorreria em agosto de 1993.

No dia 8 de junho de 1993, na Livraria de Convivência da UFSC, o amigo prof. Gilson me informou que havia uma vaga para professor substituto na área de Termodinâmica e de Desenho de Ar Condicionado na ETF-SC São José. A seguir mostro o livro que prof. Gilson comprou nesse dia. Recentemente ele me deu esse exemplar de presente como uma recordação desse encontro que mudou minha vida.

Conheci prof. Gilson três anos antes, quando fizemos a disciplina de Química Tecnológica juntos com o saudoso prof. Rodi Hickel.

Minha única experiência havia sido como monitor por dois anos nas áreas de Termodinâmica e de Transferência de Calor durante o curso de engenharia.

Naquela época o curso técnico de RAC era anual e as turmas estavam sem aulas de Termodinâmica e Desenho de Instalações de Ar Condicionado. O salário era baixo e os professores substitutos saíam quando arrumavam emprego melhor. Eu era o terceiro professor da turma naquele ano. Com a ajuda inicial dos prof. Hyppolito, Gilson, Rogério, Juarez, Marcos Leite, Joaquim e Marcelo Pereira pude encarar esse novo desafio em minha vida. Somente 10 anos antes, aos 13 anos, havia conquistado meu primeiro emprego como auxiliar de desenhista em um escritório de engenharia.

O início foi muito desafiador. Morava perto da UFSC e a distância atrapalhava. Não havia tanto trânsito mas eu dependia de dois ônibus. Sempre que possível abusava das caronas do prof. Hyppolito. Infelizmente, fiquei 3 meses sem receber o primeiro salário. Problemas burocráticos pelo que me disseram. Não é de hoje… E daí foi essencial a ajuda do grande amigo prof. Vilain.

E acabei tendo muita sorte ao passar no concurso para professor efetivo meses depois. Sorte porque por não ter dinheiro adiantei disciplinas e conclui a graduação meio ano antes do prazo normal. Sorte porque o concurso para professor efetivo abriu duas semanas depois que recebi o diploma. E mais sorte ainda porque prof. Felipe decidiu se aposentar e isso abriu mais uma vaga para contratação. Só havia duas vagas e eu acabei ficando em terceiro. Sei que fiz minha parte, mas é preciso também um pouco de sorte na vida. E tenho mais sorte ainda de trabalhar fazendo o que gosto.

Em 25 anos de docência, conheci milhares de estudantes. Convivi com pessoas extraordinárias. E vi a instituição se transformar muito ao longo do tempo. Novos nomes e novas institucionalidades…

Fiz dezenas de cursos de capacitação. Mas participei também de centenas de reuniões…

Conclui a especialização, o mestrado e o doutorado. E ao mesmo tempo, também compartilhei um pouco do que aprendi com os colegas e estudantes do IFSC, do IF-Farroupilha e do IFPR. Praticamente nunca deixei de ministrar aulas ao longo desse tempo. Mesmo atuando como reitor do IFPR, ministrava 6 aulas por semana às sextas-feira no câmpus São José. Briguei muitas vezes para que os coordenadores não deixassem de dar aulas para não perderem o contato com os estudantes.

Agora vivencio um momento diferente da carreira. Estou fazendo uma ponte entre a antiga e a nova geração de professores do câmpus. Vejo muitos colegas se aposentando e novos professores assumindo suas funções. E o câmpus segue em frente com novas ideias e novos projetos.

Guardo sempre boas recordações de cada um desses 25 anos. No início não era fácil ministrar aulas depois do prof. Hyppolito. Para compensar a inexperiência procurava preparar muito minhas aulas. Algo que faço até hoje. Das primeiras semanas me lembro de uma cena engraçada, quando preparava uma aula na sala de professores. Uma colega me disse: “quero ver você estar motivado assim daqui 10 anos…” Essa frase nunca saiu de minha cabeça.  Por isso, fazer sempre coisas novas e manter o espírito criativo é minha busca permanente.

Quando comecei, a gente ainda usava máquina de escrever. Os desenhos eram feitos em papel vegetal e à nanquim. Nada de CAD. Não havia disponível celular e nem a internet. Para fazer uma pesquisa era preciso usar a enciclopédia…Foi preciso se adaptar aos novos tempos…Evolução natural.

Tive muitas alegrias nesse período. Mas nada mais gratificante que encontrar os egressos e saber que fizemos alguma diferença em suas vidas. Estar dando aulas para os filhos de meus egressos também me enche de satisfação. Nada como chegar todos os dias no câmpus São José e saber que ajudei a colocar um tijolinho nessa obra coletiva. E que preparamos o terreno para os mais jovens estarem aqui hoje…

Nem tudo são flores, é claro. Mas as pedras no caminho são normais em toda profissão. Elas nos dão sempre uma nova oportunidade para continuar evoluindo.

Na educação também há desencontros. A docência é uma arte de lidar com conflitos. Ser um educador nem sempre é fazer o que os estudantes querem. E nem sempre acertamos. Por isso é preciso ter humildade para continuar refletindo sobre nossa prática docente. O bom é que a cada semestre temos uma nova oportunidade para começar de novo e para fazer melhor.

Agradeço a todos aqueles que compartilharam e que compartilham essa caminhada comigo: alunos, egressos, docentes e TAEs.  As dificuldades fortalecem e as facilidades enfraquecem. Por isso vamos em frente rumo a novas descobertas e a novos desafios.  Não estou pronto. Sou um professor que aprende.

Atenciosamente,

Prof. Jesue Graciliano da Silva

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