Tite para presidente? A liderança no futebol…

O primeiro capitão da seleção brasileira a levantar a taça da Copa do Mundo de Futebol foi Belini (falecido em 2014). Seu gesto foi seguido posteriormente por Mauro em 1962 (falecido em 2002), Carlos Alberto Torres (falecido em 2016) em 1970, Dunga em 1994 e por Cafu em 2002.

Quando eu era criança o capitão que mais exerceu influência em meu processo de formação foi Sócrates, capitão e camisa 8 da seleção de 1982, uma das mais talentosas de todos os tempos. Ainda estudante de medicina, Sócrates começou a jogar futebol no interior de São Paulo. Sua excelente formação acadêmica e liderança ajudaram a criar a famosa “democracia corinthiana”. Em 1980, o Brasil estava vivendo um regime de exceção, quando Sócrates e seus companheiros de time (Biro-Biro, Wladimir, Casagrande entre outros) chamaram a atenção para a necessidade da democracia em um dos times mais populares do país. Sócrates participou ativamente da campanha das “Diretas Já”, que ocorreu entre os anos de 1984 e 1985.

Cada liderança tem seu estilo de atuação. Alguns são mais calmos, outros mais explosivos. Diferentes estilos podem ser vencedores.

Todos concordamos que o futebol é uma grande paixão nacional.

Penso que o clima de união que toma conta dos brasileiros durante a Copa do Mundo seria bem vindo entre uma copa e outra.

E se a seleção brasileira é o que nos une, o que podemos aprender com ela?

Essa é uma boa reflexão em um momento oportuno em que há carência de lideranças nacionais capazes de construir um novo pacto de governabilidade.

Um exemplo recente de falta de liderança na seleção ocorreu em 2014. Quando Tiago Silva chorou antes da cobrança de penalidades ficou evidente que o peso da braçadeira de capitão era muito grande para ele. Compreendi sua explicação na entrevista coletiva. A pressão emocional sobre os jogadores era extraordinária.

Muito diferente do que fez Didi na Copa de 1958. Após a seleção brasileira sofrer o primeiro gol na final aos 4 minutos, Didi foi até o fundo da rede, pegou a bola e caminhou calmamente até o meio do campo falando palavras de incentivo aos jogadores. O resultado foi uma virada espetacular contra a Suécia e a consagração do Rei Pelé aos 17 anos. Didi não era o capitão, mas era uma liderança em campo.

Fácil é falar do nosso sofá, mas é difícil saber exatamente a pressão que os atletas sofreram. Há um filme sobre a derrota de 1950 que me impressionou muito.  O capitão daquela copa (Augusto) sonhou por décadas seguintes que estava levantando a taça.  Todos ficaram marcados até serem libertados pela morte. O filme Dossiê 50 – comício a favor dos náufragos ajuda a entender essa responsabilidade.

A conduta esperada de Tiago Silva é que ele tivesse sido forte para motivar seus colegas. Esse trabalho foi realizado pelo jogador Paulinho.

Penso que fora do campo o treinador Felipe Scolari demonstrou falta de liderança ao não agir diante da situação inusitada.  Após o segundo gol, o técnico deveria ter acalmado o time. Poderia ter adotado uma postura mais defensiva para aguardar o segundo tempo para tentar virar o jogo.  Um líder tem que saber a hora certa de agir e a hora certa para deixar de agir.

Após a Copa de 2014 a seleção voltou a ser comandada por Dunga, o grande capitão de 1994. Mas seu fracasso na Copa da Africa do Sul em 2010 trouxe um clima de desconfiança. Esse é um exemplo de que uma grande liderança dentro de campo pode não ser um grande treinador.

Felizmente, em 2016 o destino colocou a seleção sob a liderança de Tite, que é quase uma unanimidade nacional. Sua liderança estilo “coach paizão” criou um ambiente de confiança entre os jogadores.

E o treinador inovou ao implantar o sistema de liderança rotativa. Com isso todos os jogadores acabam dividindo o peso da responsabilidade ao longo dos jogos. É também uma forma interessante de formação de novas lideranças. Todos acabam sendo co-responsáveis ao longo dos jogos. Todos são lideranças em potencial.

Esse rodízio me lembrou algumas aves, que voam em formato de V. Nessa formação os pássaros conservam energia pela redução da resistência do ar. Ao se revezarem na liderança as aves que ficam cansadas se deslocam para trás.  A natureza ensina…

Se a seleção brasileira vencer a Copa de 2018 vou lançar Tite para presidente do Brasil. É uma brincadeira, é claro. Mas considerando o que temos em Brasília eu preferia mil vezes o Tite. Você não?

Vivemos um apagão de liderança no país. O atual Governo não tem o respeito da população. O Congresso parece um balcão de negócios e o Supremo Tribunal Federal uma fogueira de vaidades. Nesse cenário estamos à mercê de soluções extravagantes.

A Copa da Rússia vem chegando ao fim e daqui alguns dias vamos voltar a ver no noticiário nossa triste realidade: novas denúncias de corrupção, candidato preso, esquerda, centro e direita negociando acordos sombrios para aumentar o tempo de propaganda na televisão, disparada do valor do dólar, discussão sobre o fim da prisão em segunda instância, aumento no preço da gasolina, violência sem limites… Salve se quem puder…

Observando o Tite lembro-me que precisamos de lideranças que sejam capazes de costurar um grande pacto de conciliação nacional. Precisamos começar a nos entender, mesmo discordando. Qualquer um dos atuais postulantes ao cargo de presidente terá que construir grandes alianças em nome da governabilidade.  E nenhum deles parece ter autoridade moral e liderança para isso.

A imprensa vai repetir dia e noite que a solução para os problemas do país surgirá das urnas. O problema é que o cardápio será o mesmo. Uma grande mentira, que será descoberta nas primeiras semanas de 2019. A realidade é dura. A solução passa pela mudança de atitude de cada um de nós. Sem política não há saída. Com ela parece que também não…

Quem viver verá.

Atenciosamente,

Prof. Jesué Graciliano da Silva

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