O valor de um copo de água no deserto

Dos 10 aos 13 anos trabalhei meio período no bar de minha família, que ficava na frente de casa.  Além de atender e servir os clientes também limpava o chão, lavava os copos, organizava o balcão e verificava os estoques de refrigerantes, cigarros e cervejas. Quando sobrava tempo desenhava estórias em quadrinhos. Minha carreira na engenharia começou porque o gerente do banco Itaú me observou desenhando o Batman e me indicou para trabalhar em um escritório de engenharia. Além de aprender na prática os malefícios do álcool, do cigarro e do jogo, também foi no bar que aprendi as primeiras lições de educação financeira. Desse período lembro-me de meu pai me chamando de gerente, dos bêbados de final de noite e de um cliente que me fez uma pergunta intrigante: “Qual o valor de um copo de água no deserto?” Nessa época eu não entendia a diferença entre valor e preço. Isso se deu no ano de 1983, quando a inflação assombrava o país.  Os preços subiam semanalmente e era preciso remarcar os produtos para não perder dinheiro. O cliente me ensinou que um copo de água podia não valer muito na cidade, mas no deserto uma pessoa com sede pagaria o que pudesse para não morrer. O preço é orientado pela escassez do produto.

Essa ideia nunca me saiu da cabeça. O valor de um produto depende da utilidade que tem para uma pessoa. Eu não fazia ideia, mas um dos primeiros economistas a pensar sobre o conceito de valor foi Adam Smith, que publicou o livro “A riqueza das nações” no ano de 1776. Adam Smith fez uma comparação interessante entre o valor de um copo de água e de um diamante.  A esse respeito ele escreveu:

“Importa observar que a palavra VALOR tem dois significados: às vezes designa a utilidade de um determinado objeto, e outras vezes o poder de compra que o referido objeto possui, em relação a outras mercadorias. O primeiro pode chamar-se “valor de uso”, e o segundo, “valor de troca”. As coisas que têm o mais alto valor de uso freqüentemente têm pouco ou nenhum valor de troca; vice-versa, os bens que têm o mais alto valor de troca muitas vezes têm pouco ou nenhum valor de uso. Nada é mais útil que a água, e no entanto dificilmente se comprará alguma coisa com ela, ou seja,
dificilmente se conseguirá trocar água por alguma outra coisa. Ao contrário, um diamante dificilmente possui algum valor de uso, mas por ele se pode, muitas vezes, trocar uma quantidade muito grande de outros bens”.

À época ele não poderia antever o valor de uso dos diamantes na extração de petróleo, mineração entre outras aplicações.

Recentemente me lembrei dessa pergunta quando visitamos o Museu da Mercedes Benz em Stuttgart. Tomamos um ônibus seguindo as indicações do mapa, mas a comunicação com o motorista não fluiu muito bem. Acabamos descendo no ponto errado e o jeito foi andar até o museu. A distância que percorremos deve ter sido de, aproximadamente, 2 quilômetros, mas a temperatura era de 35 graus Celsius. Para piorar, não havíamos levado água e parecia que íamos desmaiar de tanto calor. Como resultado pagamos 5 euros por uma garrafinha de menos de meio litro de água. Em um supermercado ela teria sido comprada por menos de 0,50 euros. Nessa hora é que entendemos bem o conceito de valor. Aquele quiosque estava estrategicamente posicionado na frente do Museu e nos oportunizou um espaço para descanso, onde pudemos nos refrescar com um copo de água gelada. E apesar de caro, isso não tem preço. Aquela água teve utilidade.

Os especialistas dizem que preço é o que você paga em dinheiro, mas o valor é aquilo que você leva para casa. Por isso muitos amantes do futebol pagam R$ 500,00 por uma chuteira assinada pelo Messi, que não parece ser tão diferente de tantas outras. Para uma pessoa que não gosta de futebol esse preço é difícil de ser explicado.

O que a publicidade faz com maestria é adicionar valor aos produtos. Uma xícara de café pode custar mais de R$ 220 reais dependendo da localidade. As empresas dizem que estão vendendo “experiências” e não mais produtos.

O gênio do design e da tecnologia Steve Jobs fez isso como ninguém. Suas apresentações do ipod, do iphone e do ipad são memoráveis.

Ainda no ramo dos esportes há o exemplo o Novo Basquete Brasil (NBB), que tem ajudado a aumentar a presença do público nos ginásios por meio de uma configuração inspirada na expertise dos norte-americanos. Não gosto muito de basquete e de futebol norte-americano, mas tenho que admitir que eles são especialistas na organização de espetáculos grandiosos. Um jogo de basquete é um acontecimento nacional e rende milhões em bilheteria e publicidade.

Quando falamos em educação financeira para crianças e jovens não podemos esquecer de ensinar o conceito de valor. Muitas vezes pagamos caro demais por produtos que não valem tanto assim. Para mostrar a diferença entre preço e valor há uma experiência interessante: anote os itens de uma cesta básica e peça para um adolescente escrever quanto ele acha que custa cada produto. Depois peça para que ele encontre o preço real na internet. Isso pode ensinar muito.

Atenciosamente,

Prof. Jesué Graciliano da Silva

Saiba mais:

https://brasil.elpais.com/brasil/2015/08/28/fotorrelato/1440753523_077521.html#foto_gal_2

http://www.marketingstartup.com.mx/starbucks-vende-cafe-caro-la-gente-lo-compra

http://www.vitacestabasica.com/blog/itens-da-cesta-basica

A riqueza das nações

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