Um pouco da história das profissões

Há alguns anos, quando estava me preparando para ingressar no doutorado, escrevi o texto a seguir, que acabou não sendo utilizado na tese. Minha preocupação era entender quando as profissões surgiram e como elas eram ensinadas ao longo da história.

O trabalho manual e a educação profissional são objetos de muita controvérsia ao longo da história da humanidade.  No Brasil, muitos jovens ignoram a possibilidade de realizar um curso técnico, sonhando sempre em cursar uma universidade. No câmpus São José do IFSC observo meninos e meninas desdenhando a possibilidade de exercerem a profissão de técnico de ensino médio, para a qual estão sendo preparados. A preocupação parece ser o Exame Nacional do Ensino Médio. Nada errado em sonhar e em conquistar novos degraus na formação acadêmica. Penso que todos devem continuar estudando durante toda sua vida. E essa formação continuada pode ser formal ou informal. Há muitas formas de se aprender. O que não concordo é com o fato destes jovens excluírem de suas vidas a possibilidade de atuarem como técnicos. Parece-me mais um preconceito cultural do qual eles estão sendo vítimas. Em muitos países desenvolvidos, a profissão de técnico é respeitada  pela sociedade e possibilita ganhos financeiros compatíveis com outras profissões de ensino terciário. Um técnico bem formado pode ganhar muito mais que graduados mal preparados.

O “complexo de bacharel” muito presente no imaginário nacional ajuda a explicar a explosão da oferta de cursos superiores EAD de baixo custo que vem ocorrendo na última década. Muitos veem o diploma de ensino terciário como uma forma de ascensão social. Não é bem assim. Um diploma na parede sem uma boa formação não significa nada. Muitos ostentam o diploma, mas acabam desempregados por não saberem como transformar o conhecimento obtido em algo produtivo para a sociedade.

Infelizmente, o Brasil ainda pode ser considerado um um país de iletrados. Sabemos que já foi pior. Após a proclamação da República 90% dos brasileiros eram analfabetos. Atualmente, dos 141 milhões de eleitores, aproximadamente, 110 milhões não possuem o Ensino Médio completo. Apenas 15 milhões têm o diploma de Ensino Terciário. Estou falando Terciário ao invés de Ensino Superior. Toda educação é superior no meu entendimento.

Para entender um pouco mais sobre o porque de um suposto preconceito em relação à educação profissional procurei analisar um pouco mais a história. No Brasil, durante mais de 300 anos as atividades laborais eram consideradas atividades exclusivas de escravos, pobres e mestiços. Mas a desvalorização do trabalho manual é mais antiga do que se imagina.

O filósofo grego Aristóteles (2002), na obra “A Política” afirmou que em uma cidade modelo não havia espaço para os artesãos:

“Os cidadãos não devem exercer as artes mecânicas e nem as profissões mercantis, porque este gênero de vida tem qualquer coisa de vil, e é ao contrário à virtude. É preciso mesmo, para que sejam verdadeiros cidadãos, que eles não se façam lavradores, porque o descanso lhes é necessário para fazer nascer à virtude em sua alma e para executar os deveres civis” .

Platão afirmava que a escravidão era um fenômeno natural, o único sistema possível e que sua existência seria eterna. Segundo ele, certos homens nasciam para serem escravos e outros, dotados de qualidades superiores desde o berço nasciam para se dedicarem às atividades consideradas mais elevadas como a política.

Esse era o pensamento dominante no apogeu da cidade-estado de Atenas, em torno de 400 a.C. Mas nem sempre foi assim. Dois séculos antes, no período de Sólon, o trabalho manual era prestigiado.

A especialização profissional é resultado da necessidade humana de viver em sociedade. Os povos mais organizados prosperaram enquanto outros sucumbiram.

Jared Diamond (2012), no livro “Armas, Germes e Aço”, descreveu detalhes do aparecimento das primeiras civilizações, mostrando que a forma de interação do homem com o ambiente foi fator decisivo. A história seguiu diferentes rumos para os diferentes povos devido às diferenças entre os ambientes em que viviam e não devido a diferenças biológicas. Segundo Diamond (2012), há cerca de 13 mil anos, praticamente todas as civilizações possuíam níveis similares de domínio da natureza. Esse foi o período em que teve fim a última Era Glacial e onde todos os povos eram ainda caçadores-coletores de alimentos. Na Era Glacial, que teve início há 50 mil a.C. e durou 40 mil anos, a maior parte da água dos oceanos se encontrava a quase cem metros abaixo do nível atual. Isso permitiu o deslocamento e a dispersão de diversos grupos humanos entre os continentes.

O domínio da técnica de cultivo da terra mudou o destino da humanidade.

Segundo Standage (2010), é provável que o domínio do cultivo da terra tenha surgido independentemente em diferentes lugares do mundo entre 10 e 12 mil anos atrás, no período histórico conhecido como “pedra polida”.

Antes do advento da agricultura um caçador-coletor necessitava de área equivalente a 25 km²para prover sua necessidade calórica. Com o advento da agricultura e domesticação de animais a necessidade de área passou para 2 km². Esse fato teve consequências irreversíveis na forma de organização das sociedades antigas. Os povos primitivos, antes caçadores-coletores nômades passaram a se fixar em assentamentos dedicando-se à agricultura e à caça.

Entre os anos 11.000 a.C. e o início da era Cristã, diferentes ritmos de desenvolvimento nos vários continentes resultaram em desigualdades tecnológicas e políticas. Os motivos disso ainda não são totalmente conhecidos. Alguns povos, casualmente ou deliberadamente, se fixaram em regiões geograficamente mais favoráveis ao cultivo da agricultura, à domesticação dos animais e ao comércio. Esse fato possibilitou a geração de excedentes alimentares que podiam ser comercializados com outros povos.

A organização das prioridades e necessidades dos primeiros agrupamentos humanos contribuiu para a organização das primeiras formas de governos. Sem a preocupação imediata com a alimentação, alguns indivíduos puderam se especializar na construção de objetos, no comércio, na produção de armas e de roupas, na proteção do depósito de grãos, na organização dos rituais místicos, no artesanato, na construção dos templos e residências e no registro contábil dos estoques.

No início da era Cristã diversos povos já haviam dominado a siderurgia. Entre eles encontram-se os chineses, egípcios, gregos, romanos e os persas. Os materiais derretidos eram aqueles que apresentavam menor temperatura de fundição tais como ouro e o cobre. Com a fusão do estanho junto com o cobre alguns povos passaram a fabricar o bronze, que deu origem à “era do bronze”.

O desenvolvimento de novas técnicas de fundição e o uso de fornos mais potentes permitiu a obtenção de ligas mais resistentes e flexíveis. Durante séculos os ferreiros moldaram os metais e descobriram formas de fortalecer as lâminas das espadas. Os samurais japoneses transformaram a siderurgia em uma arte milenar.

Segundo Diamond (2012), os egípcios, babilônicos e hebreus foram os primeiros povos a construírem monumentos arquitetônicos. Para isso foram necessários conhecimentos básicos de geometria, matemática e estabilidade das construções pelos arquitetos. Estes primeiros monumentos foram construídos próximos aos rios Nilo, Tigre e Eufrates e Jordão. Essa região era chamada de “crescente fértil do oriente” e possuía grande quantidade de terras férteis e de animais para domesticação. O uso dos animais para arar a terra deu a esses povos uma grande vantagem competitiva na produção dos alimentos, garantindo o necessário para consumo e excedentes para comercialização. Além disso, a criação de ovelhas e a tecelagem da lã também garantia melhor proteção contra o frio. Os teares manuais eram muito difundidos no mundo antigo, não sendo possível afirmar com exatidão sua origem.

O cultivo de grãos como o trigo, centeio e a cevada garantia uma colheita anual, o que exigia o adequado armazenamento e organização dos estoques de comida. A proteção dos armazéns contra saques era responsabilidade de grupos armados, que formaram os primeiros exércitos.

O excedente de produção era comercializado por meio de camelos. As primeiras rotas de comércio foram estabelecidas no Golfo Pérsico, articulando-se em uma complexa rede com os primeiros portos. No encontro dessas rotas surgiram diversas cidades. A primeira aglomeração humana que se tem registro ocorreu na antiga mesopotâmia, onde hoje fica o Iraque. Um dos assentamentos sumérios, chamado de Uruk, era formado por cerca de 50 mil pessoas. A cidade de Babilônia tornou-se um importante centro comercial e cultural. O código de Hamurabi, considerado o primeiro conjunto de regras de convivência social, é um legado dessa civilização. Outras civilizações também antigas, como a chinesa, permaneceram pouco conhecidas do Ocidente durante séculos em virtude da barreira natural formada pelas altas montanhas do Himalaia.

Os primeiros “engenheiros” e “arquitetos” da antiguidade projetaram e construíram grandes templos e pirâmides. Essas obras somente foram possíveis a partir de uma produção agrícola consolidada, capaz de alimentar milhares de pessoas, entre homens livres e escravos, e permitir que, parte delas fosse alocada para extrair e transportar calcário.

Segundo Manacorda (1990), na antiguidade a educação das crianças e jovens ocorria de variadas formas nas diferentes sociedades. Em Roma Antiga, a educação era responsabilidade de cada família. Era muito comum que os jovens patrícios fossem educados por escravos-professores, homens bem instruídos, mas que perderam a liberdade. Entre os homens livres não-patrícios, era comum que o aprendizado sobre os ofícios fosse ensinado “de pai para filho” ou no sistema de “mestre e aprendiz”. Diversas associações de ofícios já eram organizadas, sujeitas à aprovação do governo romano, tais como as dos flautistas, ourives, lenhadores, marceneiros, tintureiros, sapateiros, coureiros e curtidores, cobreadores e paneleiros. Já o ofício da guerra era aprendido de forma diferente.

No livro “Cartas de Júlio César na Gália” (2010) há precisão de detalhes sobre como eram organizados os acampamentos das legiões romanas. Nessas fortificações havia espaço reservado para a formação dos soldados em técnicas de luta corporal e em estratégias militares.

Séculos mais tarde, com a disseminação do Islamismo (622 d.C.) ocorreu a unificação religiosa dos árabes, que passaram a dominar o comércio na Europa e na Ásia por meio de caravanas de camelos como meio de transporte. As rotas comerciais contribuíram para a disseminação de diversas inovações, tais como os algarismos arábicos e a pólvora desenvolvida pelos alquimistas chineses. O conhecimento compartilhado entre os diferentes povos era transmitido de uma geração para outra sem a existência de estruturas formais de ensino organizadas pelos Estados.
Entre os séculos XI e XII, a Europa passou por intensas mudanças socioeconômicas com o aparecimento dos burgos. Além de representarem o processo de reurbanização europeu, a criação desses espaços esteve intimamente ligada ao desenvolvimento de atividades produtivas e ao reaquecimento do comércio em geral.

As primeiras universidades europeias foram fundadas a partir do século XII e se dedicavam ao ensino da filosofia. Não havia escolas profissionais, sendo que os conhecimentos necessários para o exercício dos ofícios eram repassados de “pai para filho” e pelo sistema dos “mestres e aprendizes”. Os mestres orientavam seus aprendizes, em média entre 7 a 12 anos.

Segundo Manacorda (1990), a partir do século XII surgiram as Corporações de Ofícios, que tinham entre seus objetivos a organização do exercício profissional, com definição de regras escritas sobre como deveria se dar a relação entre os mestres e os aprendizes. As Corporações de Ofício em geral eram compostas de três classes: os mestres, os oficiais (também chamados de companheiros ou jornaleiros) e os aprendizes. Os mestres eram os donos da oficina, que acolhiam os oficiais, e eram, também, responsáveis pela formação dos aprendizes.

Após o término do aprendizado, o aprendiz tornava-se jornaleiro ou oficial e depois mestre. Com o avanço da Idade Média se tornou cada vez mais difícil um jornaleiro se tornar um mestre. Isso acontecia em virtude do domínio que os membros mais ricos passaram a ter sobre as corporações, reduzidas quase que exclusivamente aos seus familiares. A prova pela qual o oficial era submetido para tornar-se mestre ficou mais rigorosa e, por fim, a taxa em dinheiro que era paga para alcançar a posição de mestre foi elevada.

Segundo Franco Jr (2001) em geral, as Corporações de Ofícios reuniam os comerciantes e artesãos que se envolviam na fabricação e venda de um mesmo tipo de produto. Com o objetivo de ampliar o ganho de seus integrantes, uma corporação tinha poderes para tabelar os preços referentes à mão de obra e a matéria-prima empregada em um determinado processo de fabricação. Também proibiam que pessoas não associadas à determinada corporação tivessem autonomia para realizar a fabricação de um mesmo produto fora de suas exigências.

No século XVIII, o aparecimento das primeiras fábricas na Inglaterra fez com que a produção dos artesãos entrasse em declínio. A Revolução Industrial promoveu profundas alterações nas relações de produção e capital e também na organização do aprendizado e exercício das profissões:

Para Marx “O comum e bastante imperfeito fole do ferreiro ainda é, na Inglaterra, ocasionalmente transformado, mediante a simples conexão de seu braço com uma máquina a vapor, em bomba de ar mecânica. A própria máquina a vapor, como foi inventada no final do século XVII, durante o período manufatureiro, e continuou a existir até o começo dos anos 80 do século XVIII, não acarretou nenhuma revolução industrial. Ocorreu o contrário: foi a criação das máquinas-ferramentas que tornou necessária a máquina a vapor revolucionada. Quando o homem, em vez de atuar com a ferramenta sobre o objeto de trabalho, atua apenas como força motriz de uma máquina-ferramenta, torna-se casual a força motriz revestir-se de músculos humanos e o vento, a água, o vapor etc. podem tomar seu lugar”

Segundo Manacorda (1995), com a revolução industrial o trabalhador deveria saber unicamente o domínio de seu ofício e ter disposição para trabalhar. Em outras palavras, o trabalhador não deveria ser detentor de conhecimentos que a ele possibilitassem entender o mundo e com isso lutar pela sua transformação:

Escolas de agricultura, escolas de comércio, escolas de artes e ofícios, sociedades de estímulo em favor da indústria e das artes manuais, se instituem e se multiplicam, demonstrando que a mão-de-obra precisava ser capaz de atender à demanda emergente, ou seja, de servir à maior produção de bens para o consumo. Entretanto, para muitos donos dos meios de produção da época, a escolarização operária se tornou um problema, pois muitos desses “patrões” entendiam que era supérfluo e até perigoso ensinar a ler, escrever e, especialmente, fazer contas aos operários, já que na visão deles, possivelmente, se os operários fossem instruídos, poderiam promover uma revolução, ou seja, poderiam exigir aquilo que lhes era devido: salário justo, salubridade dos postos de trabalho, carga de trabalho compatível com sua condição de humanos. (MANACORDA, 1995).

Napoleão Bonaparte criou um sistema de escolas secundárias, conhecidas como Liceus (Lycées). Também fundou a Escola Normal e a Escola Politécnica no ano de 1808. Em 1811 fundou a Universidade da França.

Segundo Ruy Gama (1987), o sistema francês de ensino sempre teve grande importância na Europa:

“Os franceses, nos três e meio séculos que vão de 1500 a 1850, desenvolveram todas, ou quase todas as formas básicas da educação técnica moderna. E ao longo do tempo, todos os países, até a Rússia, através da Europa Oriental, e dos Estados Unidos até o Japão, todos eles modelaram suas escolas técnicas segundo as da França. Seguindo o modelo francês, na Prússia, diversas escolas profissionais foram criadas no início do século XVIII. Mas foi somente a partir da constituição do Estado-Nação alemão em 1871, que ocorreu a massificação da oferta da educação básica e profissional, influenciando a forma como as profissões são ensinadas em todo o mundo desde então.”

A Escola Politécnica francesa serviu de modelo para diversos países europeus ao longo das décadas seguintes, principalmente para a Prússia, que criou suas primeiras Universidades Tecnológicas no início do século XIX. Entre elas tem-se a Universidade Tecnológica de Karlsruhe, onde realizei visita técnica em 2013. Ela se originou como uma Escola Politécnica, em 1825. Nessa instituição estudaram grandes cientistas e inventores como Karl Benz (1844–1929), o inventor do automóvel; Fritz Haber (1868–1934), que desenvolveu a síntese em alta pressão da amônia; Heinrich Rudolf Hertz (1857–1894), que descobriu as ondas eletromagnéticas e Wilhelm Nusselt (1882–1957), que desenvolveu importantes estudos na área de Termodinâmica e  Transferência de Calor.

A educação profissional na Alemanha é dual, onde os estudantes estudam uma parte da semana e trabalham na outra parte. A formação profissional é um orgulho nacional uma vez que um técnico tem uma renda equivalente a 60% do salário de um médico, o que é impensável no Brasil.

Para saber mais sobre o modelo de educação profissional alemão disponibilizo o link a seguir:

https://jesuegraciliano.wordpress.com/reflexoes/educacao-profissional-na-alemanha/

Enfim, para entender nosso presente é preciso entender um pouco do caminho que percorremos para chegar até aqui. Em breve vou mostrar um pouco mais sobre a história da educação profissional no Brasil.

Atenciosamente,

Prof. Jesué Graciliano da Silva

Para saber mais:

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/18992-pnad-continua-2016-51-da-populacao-com-25-anos-ou-mais-do-brasil-possuiam-no-maximo-o-ensino-fundamental-completo

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