Professor Cláudio Melo, um pesquisador empreendedor

A importância da interação entre as universidades, empresas e governo foi objeto de estudos de Etzkowitz e Leydesdorff (2000), que propuseram o modelo da “Tríplice Hélice”. Nos EUA tem-se o exemplo de interação entre a Universidade de Stanford, as empresas de alta tecnologia do Vale do Silício e o governo norte-americano (Nasa + FBI).

Na Alemanha, os Institutos Fraunhofer são responsáveis por promover a articulação entre as indústrias e as universidades na pesquisa e desenvolvimento de soluções tecnológicas de interesse  da sociedade.

Recentemente, o Brasil se inspirou nesse modelo por meio da implantação de dezenas de polos de inovação e incubadoras. Para organizar o sistema de inovação brasileiro foi criada a EMBRAPII.

O IFSC foi contemplado em 2017 com um polo EMBRAPI (PEIFSC), na área de inovação em sistemas inteligentes de energia. Os polos da Embrapii atuam por meio da cooperação com instituições de pesquisa científica e tecnológica, públicas ou privadas, tendo como foco as demandas empresariais e o compartilhamento de risco na fase pré-competitiva da inovação.

A UFSC – Engenharia Mecânica conta com o POLO, credenciado em 2014 pela EMBRAPII com o objetivo de desenvolver projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação em refrigeração e termofísica.

Penso que essa integração entre a universidade / instituto federal (representados pelo pesquisador empreendedor), a  EMBRAPII e o setor produtivo é o que precisamos para fortalecer a economia regional.

É preciso aumentar a articulação entre os câmpus dos Institutos Federais e das Universidades com suas comunidades com o objetivo de se desenvolver soluções tecnológicas que reduzam custos de produção, aumentem a eficiência de processos e a competitividade dos produtos brasileiros. Precisamos gerar inovação para gerar empregos de qualidade dentro do país.

Nesse sentido, o estado catarinense vem se destacando há muitos anos. E isso se explica em parte pelas diversos projetos desenvolvidos em comum pelas universidades e o setor privado. Um exemplo bem sucedido é a parceria que se estabeleceu há mais de 32 anos entre o Grupo de Pesquisas em Refrigeração do Curso de Engenharia Mecânica da UFSC (antigo NRVA e atual Polo) e a EMBRACO.

A EMBRACO é a maior fabricante de compressores para refrigeração do mundo, com unidades espalhadas em vários países como México, Eslováquia, China e Estados Unidos.

O Polo vinha sendo liderado há muitos anos pelo prof. Cláudio Melo, que faleceu no dia 28 de maio aos 64 anos, vítima de câncer. Uma perda irreparável para a pesquisa aplicada em refrigeração.

 

Ao longo de sua vida professor Cláudio Melo deu uma verdadeira aula prática de como promover uma efetiva articulação com o setor produtivo. Sua atitude empreendedora o tornou uma figura respeitada e admirada em todo mundo. Reza a lenda que Prof. Melo era temido por parte dos alunos, mas era respeitado por todos.

Muitos não sabem, mas ele também foi professor da Escola Técnica Federal de Santa Catarina no início de sua carreira.

Fui seu aluno em 4 disciplinas – “Refrigeração” na Engenharia Mecânica, “Ventilação” na Especialização em Segurança do Trabalho, “Refrigeração” e “Condicionamento de ar” no Mestrado. E muito do que ensino hoje no Curso Técnico de Refrigeração é fruto do que aprendi em suas aulas. Seus ensinamentos me inspiraram a escrever um livro didático na área.

No ano passado, quando estava fazendo a revisão da terceira edição, procurei prof. Melo para que ele escrevesse o prefácio, o que para mim era uma grande honra. Não sabia de seu estado de saúde naquele momento. Semanas depois recebi uma mensagem:

“A área de refrigeração e condicionamento de ar é uma das mais fascinantes do campo da engenharia mecânica. Aplicações podem ser encontradas em todos os segmentos da sociedade, desde um simples refrigerador doméstico até o resfriamento de concreto para a construção de barragens. Aplicações para conforto térmico são hoje quase que uma exigência do público em geral. Exemplos de outras aplicações, não perceptíveis pela sociedade, são igualmente importantes. Os telefones celulares, por exemplo, exigem centrais de comutação devidamente climatizadas para o seu bom funcionamento. Apesar da sua importância convém lembrar que a área em questão é relativamente nova, já que a 200 anos atrás o homem ainda dependia de blocos de gelo extraídos da natureza para a produção de frio. O primeiro refrigerador doméstico, por exemplo, surgiu na década de 30 e o primeiro ar condicionado de janela na década de 50.

É, portanto, com grande prazer que recebo o livro Introdução à Tecnologia da Refrigeração e da Climatização, de autoria do professor Jesué Graciliano da Silva, com a certeza que este em muito contribuirá para a formação de técnicos e engenheiros com foco nessa área maravilhosa da engenharia mecânica. O livro é escrito em uma linguagem didaticamente amigável, que prende a atenção do leitor do princípio ao fim. Adicione-se a isso um conjunto de exemplos práticos, figuras e diagramas ilustrativos que facilitam a compreensão do leitor.

Ao longo do livro podem ser encontradas informações tanto de natureza fundamental como aplicada, sempre com a profundidade necessária. Profissionais mais experientes podem fazer uso de capítulos específicos, sem a necessidade de seguir capítulo por capítulo, o que torna esse livro particularmente interessante e, em última análise, uma ferramenta de engenharia.

Conheço o professor Jesué há muitos anos, como aluno de graduação e de pós-graduação e também como professor do IFSc. Ainda como aluno ele se preocupava em organizar de maneira didática o material das aulas que assistia, repassando esse material para alunos de fases subsequentes. Parte desse material ainda pode ser encontrado entre os alunos do curso de Graduação em Engenharia Mecânica da UFSC. Nada mais natural então do que a redação de um livro, ao assumir a posição de professor.

Tenho a certeza que esse livro será bem recebido pela comunidade de refrigeração e condicionamento de ar, tanto por aqueles que se dedicam a atividades de ensino como por aqueles que realizam projetos na área. Aproveito a oportunidade para cumprimentar o professor Jesué pela perseverança e dedicação na redação desse livro e deixo aqui registrado o meu orgulho em tê-lo entre os meus inúmeros ex-alunos.

Florianópolis, 14 de Outubro de 2018

Prof. Cláudio Melo, Ph.D”

No último dia 7 de maio procurei-o novamente para entregar uma cópia do livro impresso com uma dedicatória de gratidão. Foi nosso último encontro. Na oportunidade ele estava ciente da gravidade da doença, mas estava motivado. Disse-me que queria trabalhar até o fim de suas forças. Disse-me que iria solicitar um remédio para não sentir dores durante as aulas. Ele começaria a ministrar uma disciplina de Refrigeração na pós-graduação da Engenharia Mecânica na semana seguinte. Enviei-lhe uma mensagem dizendo que, se ele me autorizasse, queria assistir suas aulas e gravá-las. Mesmo bem debilitado ele se deu o trabalho de me responder dizendo que a disciplina havia sido cancelada e que ele estava internado no hospital. Segundo os amigos que o visitaram na segunda-feira ele estava lúcido e preocupado ainda com diversas questões relativas ao Polo. Ele cumpriu o que me disse – dedicou-se até o fim ao projeto de uma vida – a pesquisa aplicada na área de refrigeração.

Amado por muitos, temido por alguns, mas respeitado por todos. Seu nome será sempre uma lenda na Engenharia Mecânica e no setor de refrigeração mundo afora. Controvérsias a parte, o fato é que perdemos um grande pesquisador brasileiro.

Atenciosamente,

Prof. Jesué Graciliano da Silva

 

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