Rufino e Emiliana- brasileiros de coragem

Ontem meu pai faria 90 anos se estivesse vivo. Minha mãe completou em julho 86 anos. Para homenageá-los estou republicando uma matéria escrita pelo Eng. Civil Roberto Monteiro, de Marília-SP para o jornal Diário de Marília.

“O MEU DOUTOR!”
Dias destes, ao passar pela Avenida República, fui recordando de que nas proximidades da Secretaria Municipal de Obras, um pouco para frente, havia um comércio que era administrado por uma família, os Graciliano da Silva. Dona Emiliana, hoje com 84 anos, e seu Rufino (in memoriam) nasceram na Bahia. Quando seu Rufino tinha 23 anos e dona Emiliana 18 resolveram se casar e, como muitos brasileiros daquela região, decidiram por migrar para as terras do Sul. Optaram não pelos grandes centros urbanos, que concentram as principais migrações do Nordeste, como São Paulo e Rio de Janeiro, mas sim pelas terras do Interior paulista e do Estado do Paraná. Por coincidência, dois Estados produtores de café e, como os imigrantes italianos, que no final do Século 19, assumiram a lida nos cafezais paulistas e paranaenses, os então jovens Rufino e Emiliana encontraram nas fileiras de café do Sul e Sudeste brasileiros, campo fértil para o trabalho e, naturalmente, o caminho para o florescimento da família. Trabalharam nas lavouras do Paraná, mas foi nos cafezais paulistas, mais propriamente aqui em Marília, que estabeleceram morada. Aqui nasceram seus oito filhos. Seu Rufino e dona Emiliana nunca frequentaram a escola. Rufino sabia da importância da leitura, da escrita e dos cálculos. Por isso, pediu ajuda a um primo e, com seu esforço natural, conheceu todas as letras do alfabeto, juntou as palavras e conseguia ler as embalagens, os rótulos dos produtos na mercearia e o que saía nos jornais da época. Descobriu ser rápido nos cálculos de matemática. Tinha consciência do poder do estudo. Na medida em que os filhos cresciam, cresciam também as recomendações de seu Rufino quanto aos estudos. Incentivava-os continuamente. No começo de dezembro do ano de 1969 nascia seu filho caçula, o garoto Jesué Graciliano da Silva. O menino tinha muita habilidade mental e demonstrava gosto pelas disciplinas, pelas aulas nas escolas da cidade. Foi alfabetizado na escola estadual Antônio de Baptista, onde concluiu a 4ª série do Ensino Fundamental. Passou para a escola Antônio Reginato, onde concluiu o Ensino Médio – chamado de 2º Grau na época. Sempre se destacava pela excelência nas notas, pelo comportamento exemplar e pela boa carga de leitura. Realmente gostava de ler este Jesué – talvez por influência de seu nome do meio, Graciliano, que remete ao grande escritor Graciliano Ramos, autor dos romances ‘Vidas Secas’ e ‘Angústia’. Desempenho excepcional em disciplinas complicadas, como redação, matemática e até mesmo em desenhos, onde apreciava fazer HQs. Professores incentivavam o estudo de Jesué, como Agenor Perinetti, Joacir e Tereza, que lecionava Língua Portuguesa. Ajudava em casa, este menino. Seu Rufino e dona Emiliana tinham outros 7 filhos e o jovem Jesué, muito habilidoso e caprichoso, encontrou no desenho uma fonte de renda para auxiliar o sustento da família, que nesta época contava com um pequeno estabelecimento comercial, onde também ajudava no balcão. Foi quando conheci este talento em pessoa. Jesué prestava serviços na área de desenho de plantas  aos colegas engenheiros Zezé Crulhas e Guelder Muller, que o recomendaram. Pronto, nascia aí a amizade e admiração. Convivi um bom tempo com Jesué que sempre ressaltava a importância dele continuar os estudos, cursar uma universidade, se especializar na área. Jesué prestou vestibular, passou em Engenharia Mecânica na Universidade Federal de Santa Catarina, considerado o melhor curso de mecânica do Brasil e um dos mais concorridos. Concluiu o curso em 1993 e, logo em seguida, foi aprovado no concurso público para professor do Centro Federal de Educação Tecnológica de Santa Catarina, o CEFET-SC. Seguiu os estudos. Especializou-se em Engenharia de Segurança do Trabalho e em Elaboração de Políticas Públicas. Continuou se aperfeiçoando. Encarou o mestrado. Concluiu sua tese na área de Ciências Térmicas, ramo dentro da Engenharia Mecânica. Publicou os livros ‘Introdução à Tecnologia da Refrigeração e da Climatização’, depois ‘Do discurso à ação: uma experiência de gestão participativa na escola pública’. Sua competência e dedicação frutificaram no convite para ocupar o cargo de reitor pró-tempore, auxiliando no processo de transição de gestão escolar. Lá na infância e adolescência, seu Rufino, ao se dirigir ao caçula sempre dedicado aos estudos, bradava: ‘O MEU DOUTOR!’. Pois, num é que a sabedoria de Rufino se confirmou: Jesué Graciliano da Silva, o desenhista talentoso que prestou serviços para vários engenheiros de Marília, o menino simples e estudioso que cursou rede pública de ensino, concluiu seu doutorado, sagrando-se doutor de direito e de fato, cumprindo a profecia sábia do pai. Exemplos assim nos enchem de entusiasmo e esperança, pois comprova que todo esforço é recompensado, ainda mais quando este esforço vem acompanhado de muito estudo e aprendizado. Fica o exemplo  de que : “A EDUCAÇÃO É O ALIMENTO QUE NÃO PODE FALTAR NA MESA DO BRASILEIRO”.

No texto ficou parecendo que meu pai e minha mãe decidiram migrar para a região Sudeste por escolha. Não é bem assim. A migração se deu principalmente pela luta pela sobrevivência, como ocorre até hoje.

Sei que sou o resultado do esforço desses dois brasileiros corajosos, que enfrentaram os desafios da mudança em busca de uma vida melhor para seus filhos. A primeira mudança foi fugindo da seca do sertão da Bahia. A segunda se deu em 1976, após a geada de 1975 que destruiu as plantações de café do interior paulista. A mudança para Marília me oportunizou estudar em escolas públicas de melhor qualidade. O exemplo de meus pais me inspira a cada dia. E a minha mudança para Florianópolis também se deveu a busca de educação de alto nível. A vida é um ciclo infinito de mudanças.

Atenciosamente,

Prof. Jesué Graciliano da Silva

 

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