Democratização do conhecimento e a tecnologia

No passado o conhecimento de um povo era transmitido pelos mais velhos através de estórias.
A transmissão do conhecimento através de lendas e narrativas acontece ainda hoje em algumas tribos indígenas brasileiras. As primeiras manifestações de registro da vida dos povos primitivos podem ser encontradas em cavernas através de ícones que representam o dia a dia do grupo.
Com a invenção da escrita há pouco mais de 4 mil anos antes de Cristo o conhecimento começou a  ser registrado. No entanto,  poucos tinham acesso aos livros, que eram reproduzidos manualmente pelos escribas e confinados aos membros do clero e da nobreza.
Com o aperfeiçoamento da imprensa por Johannes Gutenberg,  por volta de 1450, tivemos aumento gigantesco nas publicações. Mas não houve efetivamente a democratização do conhecimento, uma vez que a maioria da população era analfabeta. A nobreza e o clero tiveram mais acesso à publicações.  Com a Reforma Protestante e a tradução da Bíblia do latim para o alemão (por Lutero) mais pessoas foram alfabetizadas.

A internet, que começou a ser utilizada na década de 80 apenas por cientistas ligados a pesquisa sobre energia nuclear, vem fazendo hoje o que a imprensa fez no século XV. Mas com uma grande diferença. Houve uma redução drástica do analfabetismo. A configuração atual foi acordada no início da década de 90 com o estabelecimento do Protocolo de Internet (IP). Regras internacionais foram estabelecidas.

Lembro-me que, quando aluno da engenharia mecânica na UFSC, no ano de 1991 o prof. Prata viajou para a França e escreveu seu e-mail no quadro, caso quiséssemos falar com ele durante aquele mês. Foi a primeira vez que tive contato direto com essa possibilidade de comunicação à distância. No IF-SC – Campus São José pude ter meu primeiro endereço de e-mail no ano de 1997.

Com o aumento da cobertura da internet sem fio, o acesso à internet pode ser realizado em praticamente qualquer lugar. Hoje já se pode utilizar programas diretamente na nuvem (cloud).

Mas apesar de aumentar de forma vertiginosa, o acesso a conexões de banda larga ainda é restrito e desigual entre as regiões brasileiras. Mas a tendência é que daqui a alguns anos teremos acesso à internet tão rápida e tão fácil de utilizar quanto ligar uma televisão em nossas casas. Aliás, a televisão perdeu muito seu espaço para a internet (Netflix etc).

Se a internet rápida for disponibilizada com a mesma facilidade do sinal aberto de televisão, então daremos um grande passo rumo a democratização do conhecimento.

Até há alguns anos, colocar uma televisão em cada escola brasileira com um videocassete e uma parabólica era o projeto principal da Secretaria de EAD do MEC.

Quando falamos em tecnologia e democratização do conhecimento temos que considerar também a invenção do telefone, do telégrafo, do rádio e da televisão que também contribuíram historicamente para tanto. Todas essas tecnologias reunidas e combinadas permitem realização de cursos EAD de diversas formas. Quando o professor aprende a utilizar os recursos multimídia envolvidos na EAD ele transfere esse conhecimento na preparação das suas aulas presencias.

Os professores que têm essa possibilidade já podem obter conteúdos digitais de alta qualidade utilizando ferramentas como o Google, wikipédia, blogs, ambientes virtuais, videoconferências etc.
A maior parte, no entanto ainda tem sérias dificuldades de acesso.

Para ampliar o acesso dos docentes a bibliotecas digitais de qualidade, o MEC realizou iniciativas importantes nesse sentido. Durante alguns anos patrocinou o Portal e-Proinfo (repositório digital). Tem disponibilizado livros, teses no Domínio Público, Portal do Professor, Rived, Portal da EPT – Inter-Red etc. Há ainda grandes repositórios de produção científica que podem ser acessados na CAPES e CNPq.

Facilmente o professor conectado a banda larga já pode ter acesso a uma quantidade de informações nunca vista antes. Nem todas as cidades brasileiras têm boas bibliotecas, o que explica a importância dessas iniciativas de compartilhamento em escala nacional.

Meu primeiro contato com um computador pessoal se deu em 1983 quando atuava como auxiliar de desenhista. O computador era ligado a uma televisão e a um gravador. O engenheiro utilizava o equipamento para realização de cálculo estrutural das vigas contínuas. Na Universidade nosso contato com computadores era através do NPD – núcleo de processamento de dados e através de alguns poucos equipamentos utilizados nos laboratórios, utilizado principalmente pelos bolsistas.
Quando comecei como professor no CEFET-SC no ano de 1993, as cópias das apostilas eram de qualidade lamentável. Havia um setor de produção gráfica que fazia a digitação do material criado pelo professor em máquina de escrever elétrica.

O professor reproduzia ilustrações de qualidade duvidosa e faziam assim seus textos didáticos.
Naquela época eu fazia a preparação em próprio punho usando como referências alguns poucos livros que utilizei na universidade e que eram disponíveis na biblioteca. Em 1997 os primeiros computadores foram adquiridos e a partir daí pude ter todo meu material digitalizado e ilustrado com programas especializados.

Atualmente, quando uma nova disciplina me é repassada, o primeiro passo é procurar o que existe disponível na internet.  Com o uso do Portal wiki, todo link que é interessante e que possua material relacionado ao tema é rapidamente copiado e publicado na internet. Esse material completo já está a disposição do aluno a partir desse momento de construção. Os portais sociais tais como blogs e wikis têm permitido a construção coletiva. O aluno também contribui nesse processo. Utilizo videoaulas quando disponíveis. Quando não disponíveis organizamos a filmagem e edição no nosso laboratório LEDIS. Produzimos animações em flash. Construímos uma página da disciplina com links para os principais arquivos.

Quanta diferença dos meus primeiros dias de trabalho no CEFET-SC. Praticamente iniciei a trabalhar no CEFET-SC quando as novas tecnologias estavam começando a serem utilizadas, o que facilitou em muito minha caminhada, pois pude ir aprendendo a utilizar as ferramentas e novas tecnologias sem medo, gradualmente.

Essa estória reflete bem o desafio e as transformações por que passam as instituições de ensino. O Brasil é tão grande que coexistem diferentes níveis de acesso às tecnologias.

Hoje os professores podem ampliar cada vez mais seu raio de ação. Sabemos que há professores brilhantes que mereceriam ser vistos por mais alunos do que suas poucas turmas. Hoje é possível disponibilizar o acesso a estes verdadeiros mestres com uso de videoconferências. O uso de filmadoras digitais, gravadores digitais é essencial para documentar essas apresentações para a posteridade. O site youtube tem muito material de qualidade duvidosa, mas com paciência é possível encontrarmos material de excelente qualidade.

Na Rede Federal, atualmente professores de diferentes estados podem produzir juntos conteúdos digitais em áreas similares.  No passado, os principais cursos EAD eram ministrados pelo instituto Monitor e Instituto Universal Brasileiro – década de 40. Havia também iniciativas da década de 20 com cursos de corte e costura por correspondência e cursos via rádio. Os cursos do IUB e do IM possuíam apenas material impresso. Chamamos isso de primeira geração da EAD. Com o tempo tivemos acesso às fitas de videocassete, logo depois os DVDs, agora temos cursos EAD com aulas interativas on-line, Telecursos, videoconferências, apresentações e interações produzidas em flash, fóruns e chats. A interação cresceu como nunca. A internet tornou mais fácil o acesso aos cursos EAD.

O material em EAD pode ser disponibilizado facilmente com a internet e o aluno pode interagir com o curso de forma síncrona ou assíncrona.

Segundo dados do ENAD o estudante de EAD é preponderantemente casado, tem filhos, é menos branco, mais pobre, contribui mais para o sustento da família, e tem pais com menor escolaridade em relação ao aluno de cursos presenciais.

As escolas brasileiras vêm se adaptando gradualmente para permitir o acesso à internet. O ritmo é desigual. Há no país escolas particulares com salas de aula em que cada aluno tem uma carteira digital e há as escolas onde as salas de aula são ao ar livre ainda. Esse quadro tem implicado em baixo rendimento dos alunos, elevada repetência e um elevado número de alunos semi-alfabetizados – os analfabetos funcionais.

Penso que a tecnologia utilizada em larga escala pode contribuir para a melhoria desse quadro.
Em um cenário ideal, professores bem pagos têm condições de adquirir computadores pessoais, bons DVD, bons livros. Escolas conectadas à internet de banda larga possibilitam acesso a conteúdos digitais de alta qualidade e que seus docentes se capacitem em cursos EAD espalhados pelo país.

Professores bem preparados podem utilizar de maior diversidade de recursos e estímulos pedagógicos para promover a formação de seus alunos. Alunos podem acessar conteúdos das aulas de forma fácil nos portais wiki e ambientes virtuais. Tablets, canetas e cadernos especiais permitem que as anotações passem diretamente para a memória instalada na carteira. Um pen-drive permite que o aluno leve para casa esse material ou que simplesmente o disponibilize on-line em seu blog. Nesse cenário os conteúdos estão disponíveis e são de fácil acesso tanto aos docentes quanto para os alunos.

O docente assume um novo papel. Ele não é mais o detentor sozinho da informação. O seu aluno também tem acesso às informações. No entanto, o aluno encontra-se diante de infinitas possibilidades de construir seu conhecimento. Mas nem sempre tem o discernimento de separar o conteúdo bom do conteúdo ruim.

O professor bem preparado pode orientar seus alunos a navegar em sites previamente selecionados. Auxilia o aluno a compreender o que é essencial dentro das centenas de informações recebidas ao se acionar o motor de busca do Google. O professor faz a seleção do que realmente é informação útil para o aluno.

Gostaria de fazer uma breve distinção entre informação e conhecimento. Podemos compreender que conhecimento é oriunda da informação contextualizada. Quando isso acontece é possível a compreensão e a ação.

Quando temos uma tabela temos apenas dados. Um gráfico mostrando uma tendência passa a ser uma informação. Mas os resultados apresentados no gráfico analisados no contexto da instituição podem levar ao estabelecimento de ações concretas para melhoria do processo em análise. Nesse exemplo simples relacionamos um dado, uma informação e o conhecimento. Se percebermos graficamente que ao longo dos meses, a taxa de evasão está associada à falta de um programa de assistência ao educando então é possível agir para corrigir o problema.

Quando contextualizamos dado, informação e conhecimento, não podemos deixar de falar sobre Gestão do Conhecimento. A gestão do conhecimento pode ser compreendida como um processo que ajuda as organizações a identificar, selecionar, organizar, disseminar, transferir e aplicar informações e experiências importantes que fazem parte da memória da organização e que normalmente encontram-se dentro da organização de uma maneira desorganizada.
Sua origem está associada à própria evolução da sociedade que vivemos. Passamos pela revolução agrícola, revolução industrial e agora vivemos a revolução da informação, detectada por Alvin Toffler na década de 70. Observamos que algumas instituições já utilizam com sucesso quadro interativo, canetas eletrônicas, votador, tablets, projetores, painéis na carteira.

Podemos aumentar o uso de computadores na formação dos alunos. As escolas têm que investir mais na informatização de suas salas de aula. O aluno aprende a utilizar o equipamento na escola. Os pais adquirem o equipamento para seus filhos e também aprendem a utilizá-lo.

Todos já concordam que a ideia de se formar em uma faculdade e trabalhar o resto da vida com aqueles conhecimentos obtidos é coisa do passado. As novas tecnologias e mais particularmente a internet de alta velocidade possibilitam o aprendizado contínuo.

Ficção e realidade já não são tão simples de se distinguir atualmente… Somos limitados pela nossa própria imaginação. Você duvidaria que a conexão de nosso cérebro com um computador para transferência de informações é possível um dia?

Jesué Graciliano da Silva

Texto escrito em 2007 para uma palestra apresentada em Seminário de Educação.