E agora José…

A política brasileira é cheia de surpresas. Nesse ano teremos eleições para presidente, governador e deputados federais e estaduais. Sei que muitas pessoas nem querem mais pensar sobre esse assunto. Mas não tem jeito. O processo eleitoral vai acontecer e teremos que votar em algum  candidato que estará no cardápio apresentado pelos partidos políticos. Como já relatei anteriormente os partidos têm donos. Soube de uma personalidade que recebeu um bom dinheiro para não se candidatar e abrir mão para outro. Dito isso é preciso saber que nesse ano teremos uma campanha mais curta (de 35 dias) e o tempo de aparição no horário obrigatório de televisão será decisivo.

Infelizmente, a maioria dos eleitores brasileiros é presa fácil dos profissionais de marketing, especializados em manipular os sentimentos mais profundos dos eleitores como o medo e a esperança. Aproximadamente 100 milhões dos 140 milhões de eleitores não possuem o Ensino Médio completo. A manipulação não atinge somente os menos escolarizados.

Candidatos falam o que muitos eleitores querem ouvir e pronto. A confusão estão feita. Até porque não há soluções simples para assuntos complexos. Acabar com a pobreza, reduzir a violência, ampliar vagas nas escolas e universidades, ampliar o crédito, reduzir os impostos, construir novos presídios, gerar empregos, ampliar os programas sociais e acabar com a corrupção será algumas das promessas de alguns candidatos.

A maioria não se pergunta é DE QUE FORMA EXATAMENTE ISSO SERÁ REALIZADO? COMO VAI SE LIDAR COM A INSATISFAÇÃO DOS GRUPOS CONTRARIADOS? QUEM VAI PAGAR PELA CAMPANHA?  O QUE OS FINANCIADORES QUEREM EXATAMENTE EM TROCA? COMO GARANTIR QUE PROJETOS DE INTERESSE DO PAÍS SEJAM VOTADOS NO CONGRESSO QUANDO NÃO SE TEM MAIORIA?

Acessem os dados atualizados  das Eleições de 2018 no site do Tribunal Superior Eleitoral. Aliás,  vejam também a prestação de contas das campanhas dos deputados e senadores. Penso que é bem suspeito um deputado receber doação para sua campanha de bancos e seguradoras interessadas na reforma da previdência (o negócio do século?) e depois assumir a relatoria do tema. E por ai vai….

Há pesquisas que mostram que existe uma correlação forte entre tempo de exposição do candidato na televisão e seu número de votos. Considerando essas duas informações e não subestimando o poder das fake news / internet penso que a televisão ainda tem um grande poder de fogo. Um candidato com um tempo pequeno de exposição dificilmente vencerá a eleição. Lembro-me sempre do falecido médico Éneas – candidato à presidente do Brasil em 1989 – que tinha apenas 30 segundos para se apresentar.

A “esquerda” (entre aspas porque o conceito de esquerda é histórico e depende muito da referência) tem um grande dilema: apoiar um candidato único – Ciro Gomes por exemplo – ou apresentar candidaturas avulsas? O deputado Jair Bolsonaro está tentando construir uma frente de centro-direita para ampliar seu tempo de televisão. Mas me parece que ele não tem um perfil agregador e por isso terá dificuldades nessa empreitada. Muitas nem sabem o nome de seu partido. E sem deputados não se tem verbas do fundo eleitoral e nem tempo de televisão. Muitos analistas avaliam que sua candidatura poderia se fortalecer em uma eventual e pouco provável polarização com o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. O PSDB vem sendo reduzido a cinzas por conta dos erros de suas lideranças e dos escândalos envolvendo o senador Aécio (neto do ex-presidente Tancredo Neves).  Por isso, o atual governador Geraldo Alkcmin tem tido dificuldades para construir alianças que viabilizem sua candidatura. Sem o apoio de partidos como o PSD, MDB, PPS e DEM não terá muito tempo de exposição no horário eleitoral. Penso que se o governador Geraldo Alkcmin não fosse filiado ao PSDB sua situação provavelmente estaria melhor nas pesquisas eleitorais. Parece ser muito cedo, mas não é. A hora de aparecer nas pesquisas de intenção é agora quando as coligações são realizadas. O presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia (filho de César Maia do RJ) tem se esforçado para construir uma forte aliança entre o DEM e o MDB. O senador Alvaro Dias (PODEMOS) tem corrido por fora e conquistado muitos eleitores mais moderados. A questão é verificar o quanto ele pode crescer nas próximas pesquisas eleitorais. A seu favor tem o fato de ser o autor da lei que acaba com o foro privilegiado, que dificilmente será aprovada nos moldes necessários.

Um nome novo pode surgir a partir do eventual não aceite da inscrição do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva pelo TSE. Haveria ainda a possibilidade de Luciano Huck ser apresentado como uma alternativa aos políticos de sempre. Há alguns dias ele declinou dessa possibilidade, aparentemente contrariado. E ainda temos Marina Silva e talvez até quem sabe Joaquim Barbosa…Em Santa Catarina soube que o professor da UFSC – Nildo Ouriques – está se apresentando como opção para o PSOL.

Para dar mais emoção a esse momento, uma série da Netflix tem tudo para provocar grandes discussões.

O cineasta José Padilha, diretor de Tropa de Elite e Narcos, está liderando a produção de “O MECANISMO”, que tem estréia mundial prevista para 23 de março de 2018. Ao que parece o diretor mostrará de forma bem didática (como fez em seus filmes anteriores) como a política brasileira vem funcionando há décadas. Com isso ficará bem claro que o Partido dos Trabalhadores não inventou a corrupção. Isso não tira sua responsabilidade de ter tirado proveito eleitoral dos esquemas existentes como uma forma de se manter no poder.

Em uma coluna José Padilha afirmou:

‘Se o petista terminar na cadeia, quem em sã consciência vai querer dar salvo-conduto para Aécios, Serras e Temeres? Há algum tempo escrevi um artigo intitulado “A cabeça do Lula.” Nele, defendi a tese de que o futuro da Lava-Jato, a possibilidade de que a operação terminasse modificando as práticas odiosas de nossa política de forma substancial, dependia do destino de Lula. Se Lula fosse condenado e preso, dizia eu, a esquerda ia passar a exigir a condenação e a prisão dos políticos de direita que (também) tivessem cometido crimes de formação de quadrilha e de corrupção — em vez de se opor à Lava-Jato por definição. Nesse caso, teríamos a quase totalidade da opinião pública e da opinião publicada (Churchill dizia que só existe a opinião publicada) apoiando a turma de Curitiba. Os partidos políticos tradicionais sucumbiriam, e o mecanismo poderia ser derrotado. A minha tese se baseava em uma observação simples: sempre que eu forçava os meus amigos petistas e psolistas a encarar as fartas evidências levantadas contra Lula, tanto no caso do mensalão quanto no caso do petrolão, eles se esquivavam acusando Aécio, Serra e Fernando Henrique de também serem corruptos. (Não mencionavam Temer, posto que, àquela altura, Temer ainda era aliado de Lula.) Ou seja: admitiam que Lula era corrupto, mas argumentavam que a Lava-Jato era seletiva e, por isso, injusta. Bradavam (literalmente): ou a Lava-Jato prende todo mundo ou não prende ninguém!”

Penso que o seriado vai ser objeto de muitas discussões. Recentemente José Padilha deu uma entrevista em que enumerou 27 enunciados para provar que a Operação Lava Jato é uma oportunidade de desmontar o mecanismo que vem prejudicando o país há décadas.

A seguir apresento um extrato de suas ideias:

1- Na base do sistema político há quadrilhas formadas por fornecedores do estado;

2- Esse mecanismo opera em todas as esferas do setor público;

3- No executivo opera superfaturando obras e serviços prestados;

4-  No Legislativo o mecanismo opera via formulação de leis que dão vantagens indevidas a determinados grupos;

5- O mecanismo existe à revelia da ideologia;

6- O mecanismo viabilizou eleição de todos os governos desde as eleições diretas;

7-Foi  mecanismo que elegeu PMDB, DEM, PSDB e o PT;

8- No sistema político brasileiro, a ideologia é limitada pelo mecanismo – somente políticas públicas que não interferem no funcionamento do esquema são permitidas;

9- O mecanismo seleciona os políticos. Aqueles que não aderem não tem recursos para as campanhas;

10- Políticos que tem valores incompatíveis com a corrupção são eliminados do sistema;

11- O mecanismo impede a entrada de pessoas inteligentes e honestas;

12- A maioria dos políticos tem baixos padrões éticos e morais;

13- A administração pública se constitui a partir de acordos para repartição dos recursos desviados;

E por ai vai. O texto completo está disponível no link. 

Pois bem, dentro desse contexto todo, nessa semana foi divulgado o Acórdão  do recurso impetrado pela defesa do ex-presidente no TR4 de Porto Alegre contra a decisão de primeira instância. Penso que é importante cada um ler e interpretar por si os fatos narrados na sentença.  O ex-presidente contratou agora um ex-ministro do STF para defendê-lo nas altas cortes do país. Será um duelo de Titãs.

Em minha humilde opinião já está mais do que na hora do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva vir a público assumir seus erros. Outros já o fizeram. Admitir que essa foi a única maneira que encontrou de obter apoio das grandes corporações em sua trajetória para chegar ao Palácio do Planalto parece ser o mais digno a se fazer nesse momento. Parece claro, e isso não justifica os erros cometidos, que a participação nesse “mecanismo sombrio” foi o preço pago para que diversas políticas públicas fossem implementadas em benefícios dos brasileiros como expansão da rede federal EPCT, expansão das universidades públicas, PROUNI, expansão do crédito estudantil, Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Transposição do Rio São  Francisco, entre outras ações.

E agora José….

P.S. Só para lembrar – esse conluio entre Estado e empreiteiras é mais antigo do que muitos imaginam. Quem tiver interesse sugiro pesquisar como se deu a mudança da capital federal do Rio de Janeiro para Brasília. Que construtoras estiveram envolvidas na construção da capital? Como a construção foi paga? Como os deputados foram motivados a votar a favor da mudança?

P.S. Em 1989 veio a vitória de Collor na eleição. Muitos queriam ver brilhar uma estrela como presidente não é mesmo? Pois bem, ficamos frustados e naquela época – como estudante da engenharia – decidi seguir em frente e nunca deixar que um presidente pudesse ter mais poder sobre minha vida do que eu mesmo. Presidentes vem e vão. O que não muda é a esperança das pessoas mais simples de que um presidente seja o redentor do país. Não vai acontecer isso. Essa lição trago comigo até hoje. Muitos diziam que o mundo ia acabar com TRAMPOLIM presidente.  Haverá retrocesso em muitas questões, mas tenho forte convicção de que não acaba não. Os avanços sociais são pendulares. Para aliviar a pressão social dos menos favorecidos algumas concessões são realizadas de tempos em tempos. Algum tempo depois essas concessões são retiradas em função das crises econômicas. E com isso tudo continua igual.  A desigualdade segue sempre  aumentando. Somente as guerras e catástrofes produzem transformações profundas.  Independente de quem vencer a eleição não haverá solução fácil para o que está acontecendo. O novo presidente vai precisar fazer alianças antes, durante a eleição e depois de tomar posse. O novo presidente terá que custear viagens de jatinho por todas as regiões. Terá que gravar programas. Contratar marqueteiros. E quem vai pagar isso tudo? Essas pessoas não vão querer nada em troca? Não vamos nos iludir. Tem muito dinheiro grande envolvido. A Petrobrás, por exemplo, pode estar hoje no vermelho mas ainda tem muita capacidade de produzir riquezas. É muito provável que a maioria do Congresso continue nas mãos de partidos como MDB, PSDB, DEM, PP, PDT, PSB, PSD e PT. Alguém duvida? E qualquer mudança profunda mesmo tem que se votada. E só será votada a partir da liberação de emendas parlamentares. Isso não vai mudar. Então é isso. Não fará diferença. Parece pessimismo. Mas na prática quero dizer de forma bem otimista que é muito provável que a gente sobreviva ao próximo presidente seja ele de qual espectro político for.

Para conhecer mais sobre o assunto:

https://www.revistas.ufg.br/fchf/article/download/6903/4958

http://www.scielo.br/pdf/op/v23n3/1807-0191-op-23-3-0754.pdf

http://www.scielo.br/pdf/rae/v32n4/a05v32n4.pdf

http://bibliotecadigital.tse.jus.br/xmlui/bitstream/handle/bdtse/3415/estrat%C3%A9gias_persuas%C3%A3o_eleitoral_figueiredo.pdf?sequence=1

https://www.brasil247.com/pt/247/brasilia247/177927/Bras%C3%ADlia-JK-e-a-corrup%C3%A7%C3%A3o-nunca-comprovada.htm

Atenciosamente,

Prof. Jesué Graciliano da Silva

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