Educação profissional na Alemanha

Em linhas gerais, na Alemanha há uma parceria e compromisso de formação conjunta dos trabalhadores pelas escolas e pelas indústrias e demais empresas, em todos os seus níveis. Mesmo as escolas que não são consideradas profissionalizantes oportunizam desde cedo a visita dos estudantes às empresas conveniadas e incentivam a realização de estágios. As indústrias são organizadas de tal forma a garantir a inserção dos estudantes em seu dia a dia sem riscos a sua integridade física e à produtividade. Esse modelo é conhecido no mundo todo como modelo dual. Os estudantes passam uma parte da semana na indústria ou nas empresas e a outra parte do tempo nas escolas profissionalizantes. Pode ser semanalmente, como por exemplo, uma vez por semana na escola e quatro vezes por semana no trabalho ou em blocos, tais como algumas semanas no trabalho e outras semanas do mês na escola. Isso vai depender da área profissional.

Não há uma única forma de se organizar a educação profissional na Alemanha. É preciso lembrar que o país passou recentemente pelo processo de reunificação e isso tem efeitos sobre todas as áreas, inclusive na educação. Existe a coexistência de modelos distintos, alguns ainda originários da formação da antiga República Democrática Alemã, ou antiga Alemanha Oriental, que tinha forte influência da União Soviética.

As Universidades Tecnológicas e as Fachschules (equivalentes às escolas técnicas brasileiras) são respeitadas como centros de excelência na formação profissional. No KIT – Instituto de Tecnologia de Karlruhe estudaram engenheiros e cientistas tais como Carl Benz – o inventor do automóvel, Heinrich Hertz – que demonstrou a existência da radiação eletromagnética, Wilhelm Nusselt – que desenvolveu estudos na área de transferência de calor entre outros.

A produtividade alemã é reconhecida mundialmente, sendo fruto da disciplina, da formação  profissional, do uso de ferramentas adequadas para o trabalho e dos procedimentos mais ergonômicos. Os 40 milhões de trabalhadores que compõem a força produtiva do país são responsáveis pela geração de um PIB – Produto Interno Bruto -seis vezes superior ao PIB brasileiro, gerado por 105 milhões de trabalhadores.  Algumas empresas alemãs são referências mundiais tais como: Siemens, Liebherr, Hertz, BMW, Volkswagem, Bayer, Bosch e Mercedes Benz.

A educação profissional é fortemente influenciada pelo história de formação do estado alemão. A Alemanha foi um dos países de industrialização tardia, convivendo ainda com traços feudais enquanto a Inglaterra, Holanda, França e Estados Unidos se industrializavam. Até 1871, quando ocorreu o processo de unificação a Alemanha era composta por cerca de 180 ducados, que mantinham relações políticas e comerciais, mas atuavam de forma praticamente independente. A partir da unificação o ensino básico foi tornado universal para todas as crianças e teve início ao processo de industrialização, ancorada na chamada revolução técnico- científica, ou segunda revolução industrial, que teve como principais impulsionadores os avanços científicos ocorridos em quatro campos: eletricidade, aço, petróleo e motor a explosão.

Apesar da forte industrialização, tradições e costumes da Idade Média estão ainda presentes na legislação educacional alemã. As antigas guildas – também conhecidas como corporações de ofícios, hoje se apresentam com outra estrutura, reconhecidas pelo direito público como câmaras da agricultura, indústria, comércio e órgãos ligados às profissões liberais. Essas entidades supervisionam a aprendizagem e o exercício profissional nos respectivos campos, dificultando o exercício profissional de pessoas não qualificadas.

Segundo Candido Alberto da Costa Gomes (2008), no livro: “Tendências da educação e formação profissional do hemisfério norte”,  a Alemanha tem seguido uma via diferente do estatismo francês e do liberalismo anglo-saxônico, constituindo com eles um dos três modelos clássicos, que, segundo Greinert (2005), foram as matrizes da expansão da educação e da formação de profissionais em grande escala no século XIX e na primeira metade do século XX.

Há algumas diferenças entre a formação profissional da Alemanha, da Grã-Bretanha e da França, conforme ilustrado na Tabela 1.

Tabela 1- Modelos clássicos de ensino e formação profissional

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Conforme ilustrado na Figura 1, ao fim da educação primária, chamada de “grundshule”, os alunos podem escolher entre os diversos caminhos para dar continuidade aos seus estudos. Essa escolha ocorre na idade de 10 a 12 anos de idade e depende do histórico escolar, de testes de aptidão que são aplicados pelos estabelecimentos onde os alunos pretendem estudar. Os estudantes podem cursar o “gymnasium” ou ginásio, ou ingressar nas Realschules ou nas Hauptschules.  O gymnasium oferece educação geral propedêutica, onde ao final, geralmente aos 19 anos, os estudantes alcançam o “abitur” ou diploma, que dá o direito de ingresso na Universidade.  No Hauptschule os estudantes recebem uma formação geral até os 16 anos, quando ingressam em um ciclo de educação profissional, onde a maior parte do aprendizado acontece nas empresas. Ao final os estudantes recebem o diploma de profissional, em geral aos 19 anos. Esse diploma não dá acesso às Universidades. Com ele eles podem ingressar na Faculdade Profissional – Berufsakademie, que oferece cursos profissionalizantes de 2 anos de duração. Ao cursar esse curso os estudantes podem também ingressar na Escola Politécnica – Fachhochschule ou nas Universidades Tecnológicas – Hochschule. Os estudantes podem optar também pela Realschule, que é considerada uma escola secundária e que dá acesso à educação profissional no ensino superior.

 

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Figura 1- Modelo simplificado do sistema educacional alemão.

Uma das possibilidades do sistema dual compreende quatro períodos semanais de educação geral e oito períodos de educação profissional voltados para determinada ocupação (não necessariamente simultâneos), associados com a aprendizagem na empresa. A duração é de três anos, exceto para algumas ocupações, que levam dois anos. Ao longo desse período, em geral os aprendizes passam de três a quatro dias por semana na empresa e dois na escola.        Cabe também assinalar que, fora das escolas e da aprendizagem, se faz capacitação profissional em serviço na indústria, comércio, serviços públicos e profissões independentes, sempre com a supervisão das câmaras correspondentes às diversas ocupações.

Na educação superior, além das clássicas universidades, existem outras instituições dedicadas à educação profissional. As Fachhochschulen (Fach – especialização, hoch – superior, Schulen – escolas) são institutos de tecnologia caracterizados pela orientação aplicada e pelas exigências da prática profissional. Seus cursos duram cerca de oito semestres, variando consideravelmente conforme os perfis profissional e regional. Já as Berufsakademien, ou academias profissionais, oferecem a formação profissional científica e prática segundo o princípio do sistema dual, isto é, numa escola e na empresa alternadamente.

O modelo de educação profissional alemão, apesar de ser considerado fonte de inspiração de muitos sistemas ao redor do mundo não se aclimata a  qualquer lugar, porque os seus pressupostos nem sempre se verificam a não ser parcialmente em outras circunstâncias histórico-sociais. Existem questões culturais que não podem ser reproduzidas.  Existe uma cooperação entre o  Estado e a sociedade para solução dos problemas. A educação não é uma questão de Estado, mas sim de toda a sociedade. O sistema dual de capacitação profissional é em grande parte independente do sistema educacional, tem a empresa como lugar por excelência para a aprendizagem e é custeado predominantemente por ela.

A reconhecida elevada produtividade da força de trabalho alemã é fruto de uma parceria bem sucedida entre o Estado e as empresas, que assumiram desde o início da industrialização, as responsabilidades pela profissionalização dos trabalhadores. A formação dos estudantes, que em parte do tempo ocorre diretamente nos postos de trabalho, se torna mais fácil com a apreensão das competências necessárias para o exercício profissional.

A Alemanha criou um sistema de educação profissional orientado para a solução dos problemas da sociedade. Segundo prof. Guimarães, ex-presidente do CNPq, em fala no REDITEC 2011, um estudante alemão candidato ao doutorado deve fazer antes uma incursão de seis meses no meio produtivo para ser capaz de escolher um tema de tese que possibilite a solução de um problema concreto.

 

 

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