Impressões e comparações entre Brasil e Alemanha

Depois da Copa de 2014 percebo uma maior curiosidade dos brasileiros sobre a Alemanha. Tenho estudado há algum tempo o modelo de educação profissional deste país.

O meu objetivo tem sido compreender mais detalhes sobre qual é a relação da massificação da educação profissional com o desenvolvimento industrial alemão.  Será que podemos conseguir o mesmo com a expansão da rede federal?

Também sempre me intrigou saber como a Alemanha, que “supostamente” havia sido destruída na 2ª. Guerra Mundial,  tornou-se novamente uma potência mundial já no início da década de 70. O Japão experimentou um caminho semelhante. Será que o plano de ajuda financeira que estes dois países receberam (Plano Marshall) permite explicar tudo?

Reportagem sobre Alemanha – SBT Repórter

Alguns dados sobre a Alemanha podem ser obtidos na internet: 84% da população têm acesso à internet. O volume de exportações é 7 vezes superior ao do Brasil (Brasil = 152 bilhões de dólares). A força de trabalho do país é de 42 milhões. O Brasil conta com 104 milhões de trabalhadores. Os EUA contam com 158 milhões de trabalhadores. A renda per capita da Alemanha é de 44.000 dólares, 4 vezes maior que a do Brasil e menor que a dos EUA (50 mil dólares).  Os gastos com educação são praticamente iguais ao do Brasil  (em torno de 5% do PIB).  Há 25% da população com mais de 60 anos na Alemanha. No Brasil esse número é de 9%.  Organizei uma dezena de gráficos comparativos analisando PIB, crescimento demográfico, população, exportações, importações entre outros.

Na Figura a seguir mostramos a população da Alemanha e do Brasil de 2000 a 2013.

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Organizei no link a seguir um conjunto de indicadores que vale a pena ser analisado com cuidado:  comparativos finais

O rascunho deste texto foi escrito enquanto eu e minha esposa esperávamos o voo de retorno para o Brasil partindo de Frankfurt no início de agosto de 2013. Foi uma viagem de turismo em que aproveitei para aprender mais sobre o sistema educacional alemão.

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Avião pousando no aeroporto de Frankfurt (2013)

A cidade em que passei mais tempo chama-se Karlsruhe, que fica mais ao sul da Alemanha, perto de Estrasburgo (França).

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Castelo histórico de Karlsruhe

Essas anotações não têm valor acadêmico.  São apenas impressões que poderão ser corrigidas pelos colegas que têm mais experiência sobre o país visitado.  Estou escrevendo um texto acadêmico comparando o modelo de educação profissional do Brasil e da Alemanha.

Tenho consciência da grandeza e importância do Brasil no cenário mundial.

As vezes, o índice IDH não é suficiente para se compreender como vive a população. Cada país tem um caminho histórico. A Alemanha, por exemplo, travou mais de uma dezena de guerras e isso custou algumas dezenas de milhões de vidas.

O Brasil é um país especial, mesmo com todos seus problemas que conhecemos bem (saúde, educação e segurança).  Estamos desde 1870 sem nenhum conflito armado com nossos vizinhos.  Somos a sexta economia do mundo e temos um grande potencial de crescimento sustentável, dentro do que chamamos de “economia verde”. Tenho confiança de que vamos tirar bom proveito dos recursos que serão advindos da extração do pré-sal para investir em infra-estrutura, em educação, em saúde  e em segurança.

As comparações que pretendo realizar tem por objetivo compreender melhor quais são as “boas práticas” dos alemães.  O que podemos aprender com elas?

Na área de educação profissional o Brasil está empreendendo a instalação dos Institutos de Inovação por meio dos  Institutos Federais e pelo Sistema S. Esses institutos estão sendo implantado com estreita cooperação com o governo da Alemanha, seguindo o modelo dos Institutos Fraunhofer.  A Alemanha possui mais de 60 institutos de inovação Fraunhofer, que são centros especializados de inovação em áreas específicas. Nesses institutos atuam de forma integrada pesquisadores públicos e privados.

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Visita ao Instituto Fraunhofer de Freiburg – Mais importante centro de pesquisas em energias alternativas

O IFSC está empreendendo esforços para aplicar o modelo dual nos câmpus da cidade de Jaraguá do Sul, onde a aproximação com a indústria é mais próxima. Trata-se de uma excelente experiência piloto.   Os estudantes terão parte das aulas dentro das indústrias e isso faz toda a diferença na formação profissional.

O primeiro fato que me chamou a atenção foi a quantidade de bicicletas de todos os tipos e modelos, utilizadas por crianças, jovens e idosos. Não dá para ficar distraído nas calçadas, que tem indicação de onde os pedestres devem caminhar.

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Bicicletas no câmpus da Universidade Tecnológica de Karlsruhe (ao fundo um virabrequim gigante) em homenagem ao inventor do automóvel Carl Benz.

A mobilidade urbana na cidade de Karlsruhe e em diversas cidades que visitamos na Alemanha é um exemplo que poderia ser estudado por muitos prefeitos. O país onde se inventou o automóvel não tem vergonha de usar a bicicleta em seu dia a dia para estudar, para lazer e trabalhar.  As bicicletas que estão em todos os cantos possíveis, sendo carregada dentro dos trens e até em salas de aula. Talvez isso explique porque não observei nenhum alemão obeso durante os 15 dias de viagem. Algo impensável nos EUA onde a obesidade é visível e um problema nacional.   O interessante é que o uso da bicicleta é incentivado pelos pais desde cedo. As crianças andam desde os primeiros anos nas bicicletas sem pedais e nos carrinhos ligados às bicicletas dos pais quando ainda são bebês.

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Foto – a bicicleta dos pais alemães.

A confiança de que a pessoa fará o que é certo é também visível. Em diversas situações não vai aparecer ninguém para conferir o ticket de passagem do trem urbano e do trem que circula entre as cidades / países. Os fiscais existem, mas não de forma ostensiva. Não há um cobrador para verificar se o passageiro tem ou não o ticket.

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Trem urbano elétrico circulando no centro de Karlsruhe, dividindo espaços com pedestres, carros e bicicletas.

Ao final da 2ª Guerra Mundial as mulheres eram maioria da população e assumiram o papel de reconstrução do país ocupando posições até então dos homens.

Os bombardeios às cidades alemãs haviam deixado 20 milhões de desabrigados no país. Quatrocentos milhões de metros cúbicos de entulho tinham de ser removidos. Um comparativo para demonstrar a situação: dos 750 mil habitantes de Colônia antes da guerra, haviam restado 40 mil” Fonte: http://www.dw.de/a-dura-vida-dos-alem%C3%A3es-logo-depois-da-guerra/a-1573308

Não tenho informações sobre a proporção exata da população da Alemanha em 1945, mas posso supor que milhões de crianças foram educadas sem a presença masculina. Isso deve ter contribuído para que na sociedade alemã atual a mulher tenha papel tão destacado. Muito mais do que a chefe do governo alemão, Angela Merkel, a mulher comum alemã tem papel social relevante.

Em frente de algumas casas observei que há pequenas placas de metal com nomes e datas nas calçadas. Essas placas indicam o nome das pessoas que foram levadas para os campos de concentração. Não eram somente judeus, mas também ciganos, homossexuais e portadores de necessidades especiais. Não há como as novas gerações esquecerem-se desse passado tão duro.

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Placa de bronze fixada na calçada de uma residência com o nome da pessoa que foi levada para um campo de concentração nazista.

Alguns campos de concentração não foram utilizados apenas durante a 2ª. GM, mas sim desde 1933, quando o regime nazista produziu e acumulou armamento e produziu melhorias na infraestrutura do país, construindo auto-estradas de alta velocidade e reorganizando o sistema de ferrovias. As pessoas levadas para os campos de concentração eram usadas como mão de obra escrava para os trabalhos mais diversos e degradantes, como a extração de carvão das minas.

Com a construção de grandes obras, o governo nazista resgatou o sentimento de autoestima do povo alemão  e empregou milhões de trabalhadores. Muitos haviam perdido seus empregos em decorrência da crise de 1929. As ferrovias e estradas de alta velocidade foram decisivas para o rápido deslocamento de tropas e de suprimentos durante a guerra. Estradas sem pedágios e sem limites de velocidades são orgulho nacional até os dias atuais.

O sistema ferroviário é orgulho nacional. Trens de alta velocidade fazem a interligação entre as cidades e a interligação com outros países. Na mesma estação é possível pegar um ônibus para a cidade, um metrô, um trem de alta velocidade regional e internacional. As estações são limpas, bem sinalizadas e informatizadas, o que facilita o deslocamento dos usuários.

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Foto da estação de trem da cidade de Karlsruhe.

A explicação para a reconstrução tão rápida do país está associada em parte ao Plano de recuperação econômica empreendido pelos EUA (Plano Marshall). Parte dos recursos emprestados ainda está sendo pago pelo governo alemão. Penso que a qualificação e disciplina do trabalhador alemão também foi decisivo para a reconstrução se dar em tão pouco tempo. O alemão tem orgulho de fazer bem feito seu trabalho. Para todas as profissões há formação especializada e há impedimento de exercício dos que não têm a qualificação apropriada. A sociedade alemã tem elevado nível de exigência na qualidade dos serviços e produtos. Essa é uma obsessão nacional.  O uso de ferramentas como guindastes é algo fora do comum. Tudo em nome da eficiência e da velocidade.

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Foto de uma obra para construção de um estacionamento subterrâneo na cidade de Stuttgart

As escolas profissionalizantes (Fachschule) e universidades profissionalizantes (Fachhochshules) mantêm laços estreitos com a indústria. Diversos centros de pesquisa e parte de seus pesquisadores são mantidos com apoio das indústrias, que estão em busca da inovação permanente. Atuar em sintonia com o meio produtivo não é vergonha ou crime, como algumas pessoas fazem parecer. 

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Foto – Visita à escola técnica de Heidelberg

Muito se fala do modelo de educação dual alemão. Em linhas gerais esse modelo garante a integração entre a indústria e as escolas em todos os seus níveis. Mesmo as escolas que não são consideradas profissionalizantes oportunizam desde cedo a visita dos estudantes às empresas conveniadas e incentivam a realização de estágios. As indústrias são organizadas de tal forma a garantir a inserção dos estudantes em seu dia a dia sem riscos a sua integridade física e à produtividade.

A indústria complementa a formação dos estudantes. Em alguns currículos os estudantes passam 2 dias na indústria e 3 dias nas escolas profissionalizantes.

Não há uma única forma de se organizar a educação profissional na Alemanha. Alguns estados possuem mais independência que outros. O país ainda está consolidando o processo de unificação territorial (queda do muro de Berlim em 1989) e os sistemas educacionais. A diversidade de caminhos não parece ser um problema para os alemães. As universidades tecnológicas e as fachschule (equivalente às escolas técnicas brasileiras) são respeitadas como centros de excelência na formação profissional.  No KIT estudou personalidades como Carl Benz, Hertz, Nusselt entre outros. 

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Fachada do prédio histórico da Universidade Tecnológica de Karlsruhe (1825)

A produtividade do povo alemão se baseia em um traço cultural que valoriza a disciplina, a formação profissional, o uso das melhores ferramentas  e as melhores técnicas disponíveis. Algumas empresas alemãs são também orgulho de seu povo: Siemens, Liebherr , Hertz, BMW, Volkswagem, Bayer, Bosch e Mercedes Benz por exemplo.

Conheci a Universidade Tecnológica onde estudou o inventor do automóvel (1896). Carl Benz estudou no KIT – Karlsruhe Institute of Tecnology. O primeiro automóvel foi construído a partir de minucioso projeto de cada componente antes da montagem.

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Foto – Homenagem à primeira mulher a testar o automóvel – Museu do automóvel

O livro: “A máquina que mudou o mundo” descreve como que, por muitos anos esse foi o padrão de fabricação dos automóveis. Isso mudou a partir de 1914 com a instalação da primeira linha de produção em série por Henry Ford. Hoje a indústria de carros sobre medida ainda existe para atender clientes seletos que desejam adquirir carros únicos e customizados.

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Detalhes de uma réplica do primeiro automóvel inventado por Carl Benz – Museu da Mercedes Benz – Stuttgart

Um detalhe interessante que poucos se lembram é que a Alemanha só existe como país a partir de janeiro de 1871 com a unificação liderada pelo exército de 30 mil homens da Prússia. A posse do imperador Guilherme ocorreu no Palácio de Versalhes. Esse exército recém tinha obtido vitória sobre o exército francês liderado por Napoleão 3º em 1870.

Na Universidade Tecnológica de Karlsruhe há uma placa em homenagem a estudantes que foram mortos na guerra franco-prussiana que ocorreu em 1870. Muitas batalhas ocorreram na fronteira entre a Alemanha e França, onde houve disputa da região hoje pertencente à França. Estrasburgo já pertenceu à Alemanha de 1871 a 1919 e é uma região rica em carvão e minério de ferro, necessárias para a industrialização. A cidade de Karlsruhe fica a pouco mais de uma hora da fronteira com a França. Até 1871 existiam quase duas centenas de ducados que foram unificados sob a liderança da Prússia.

Nesses ducados havia governos independentes, mas que falavam praticamente um mesmo idioma, com pequenas variações. Foi Martinho Lutero o responsável pela reforma protestante (1517) e pela integração do idioma alemão. Lutero traduziu a bíblia para o alemão e reforçou que todo homem deveria ler a bíblia. Talvez isso explique o índice de analfabetismo nulo.

Pude visitar a cidade onde nasceu Gutenberg, que por volta do ano de 1440 aperfeiçoou os tipos móveis e produziu a imprensa moderna, o que contribuiu para disseminar a produção de livros – principalmente a bíblia.

No filme “Lutero” é possível perceber como a reforma protestante livrou os príncipes de diversas províncias alemãs da influência do papa e do envio de dinheiro (contribuições e impostos) para Roma. A bíblia traduzida para o alemão passou a ser lida pela população e contribuiu para a unificação do idioma.

O alemão Karl Marx é considerado um dos maiores intelectuais do século XIX e contribuiu para a compreensão de como se dá a relação entre capital e trabalho na produção. Segundo Marx a mais valia é a base da acumulação. Seu pensamento inspirou diversas revoluções que deram origem às “contra-revoluções capitalistas”. O Plano Marshall, o estado de bem estar social, o socialismo democrático, jornadas de trabalho menos extenuantes foram algumas das formas de se evitar a expansão do comunismo na Alemanha ao longo do século XX.

Comparado com Inglaterra, França e Estados Unidos da América, a Alemanha iniciou sua industrialização tardiamente, mas soube aproveitar os ciclos de desenvolvimento econômicos decorrentes da segunda fase da revolução industrial (vapor, eletricidade, química).

A utilização e percepção da importância do conhecimento científico e tecnológico para tornar a indústria mais competitiva tem sido decisivo na Alemanha. Braverman chama esse processo de revolução técnico-científica em seu livro Capital Monopolista. 

A Alemanha criou um sistema de educação profissional orientado para a solução dos problemas da sociedade. Como exemplo, conforme fala do presidente do CNPq, um estudante alemão candidato ao doutorado deve fazer antes uma incursão na indústria para elaborar projeto de tese que tenha objetivo de resolver um problema concreto. Esse fato faz com que o país tenha elevado índice de inovação. Uma rede de distribuição da produção eficiente, elevada densidade populacional, pequena distância dos países consumidores, elevado nível de mobilidade urbana, educação profissional integrada ao mundo produtivo, disciplina, inovação e eficiência fazem a diferença na elevada produtividade do país.

As primeiras universidades politécnicas surgiram na França no início do século XIX, mas foi a Alemanha o primeiro país do mundo a universalizar o ensino básico para todos as crianças ainda no final do século XIX. As escolas profissionalizantes tornaram se referência para todo mundo. 

Algumas universidades alemãs foram fundadas no século XIII, sendo resultado de um processo similar que ocorreu em diversos outros países na Europa (Sorbone, Oxford entre outras).

Como no Brasil, o sul da Alemanha tem algumas diferenças em relação ao norte. Do norte escoa boa parte da produção européia para o mundo pelo porto de Hamburgo. Ao sul é muito forte a integração com os outros países por meio dos eficientes sistemas ferroviários e auto-estradas. A religião protestante é mais forte no norte do país, mais distante de Roma.

A maioria das pessoas com quem falei tem o inglês como segunda língua e aprendem efetivamente o idioma na escola regular. 

Percebi também a forte preocupação com a “economia verde”. Em muitos lugares é possível visualizar telhados fotovoltaicos, geradores eólicos e carros elétricos. Pude visitar o Instituto Fraunhofer dedicado exclusivamente à pesquisa como energia solar na cidade de Freiburg. http://en.wikipedia.org/wiki/Fraunhofer_Institute_for_Solar_Energy_Systems_ISE

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Equipamento para teste de coletores solares no Instituto Fraunhofer – Freiburg – ISE

Especialmente a cidade de Karlsruhe chamou minha atenção principalmente pelo planejamento urbano que privilegia o transporte público e a bicicleta. Há respeito e conservação dos monumentos históricos e respeito aos idosos, que se movimentam com desenvoltura pela cidade. A universidade KIT é uma referência nacional, tendo sido frequentada por grandes alunos e professores.

É impressionante perceber a qualidade da biblioteca de 8 andares com centenas de bicicletas em frente.

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Pretendo complementar esse texto com mais detalhes sobre a educação profissional alemã, fazendo comparações com o modelo americano, canadense e brasileiro.

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