José Bonifácio, uma grande liderança do Brasil

Há alguns anos estava preparando uma apresentação sobre liderança. Procurei informações sobre os líderes mais admirados pela juventude e pasmem: Entre eles estava Eike Batista e diversos políticos atualmente condenados por corrupção.

Nem todos se dão conta que um líder não precisa ocupar um cargo para exercer sua liderança de forma plena. Há lideranças formais e informais. No livro Liderança Ética e Servidora procurei ressaltar a importância de lideranças brasileiras como Zilda Arns e Betinho.

Dra. Zilda Arns dedicou sua vida ao combate da desnutrição infantil. Seu trabalho junto à Pastoral da Criança salvou a vida de milhares de crianças. Seu perfil de liderança se baseava na autoridade moral de sua causa, pela qual acabou morrendo de forma trágica no início de 2010 em um terremoto no Haiti.

Herbert de Souza, o Betinho liderou por muitos anos o projeto Natal sem Fome. Segundo Betinho, “o desenvolvimento humano só existirá se a sociedade civil afirmar cinco pontos fundamentais: igualdade, diversidade, participação, solidariedade e liberdade”.

O Brasil tem sentido falta da luz desses dois ilustres brasileiros, principalmente quando os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário encontram-se sobre suspeição.

Quando nossas organizações estão doentes a esperança é a primeira vítima. No Rio de Janeiro, por exemplo, já foram mortos 101 policiais desde o início do ano. Resultado da falta de uma visão de país.

Nesse momento de crise política, econômica e institucional é muito comum que nossa juventude passe a mitificar aventureiros que apresentam soluções fáceis para problemas complexos. Mas a experiência mostra não existem soluções simples para problemas complexos.

Nessa semana comemoramos 195 anos de independência. Um grande empreendimento pouco compreendido politicamente. A independência não foi nos dada de presente pelo filho de D. João VI, como muitos podem pensar. Ela foi conquistada e custou a vida de muitos brasileiros que sonharam com esse objetivo décadas antes. Um dos que sucumbiram nessa caminhada foi Tiradentes, que em 1789 liderou a Inconfidência Mineira. Exatamente 100 anos da proclamação da República.

Ouso dizer que o processo de Independência contou com dois grandes personagens. O primeiro foi D. Pedro I com seus 23 anos de idade. O segundo foi José Bonifácio de Andrada, que estava com 59 anos. D. Pedro I é muito conhecido pelos brasileiros. Em Portugal foi proclamado como D. Pedro IV. Na foto tem-se a estátua de D.Pedro na cidade do Porto.

No livro “1822” de Laurentino Gomes tem-se uma descrição mais detalhada desse momento. O grito do Ipiranga ficou conhecido no imaginário popular como o marco da independência.  Mas sabemos que não basta gritar “Independência ou Morte” para que uma nação seja livre. A independência é conquistada todos os dias desde então.

“D. Pedro I, o príncipe romântico e aventureiro, que fez a independência do Brasil com apenas 23 anos, aparece em algumas obras como um herói marcial, sem vacilações ou defeitos. Em outras, como um homem inculto, mulherengo, boêmio e arbitrário. Seria possível traçar um perfil mais equilibrado do primeiro imperador brasileiro? Tentar decifrar o ser humano por trás do mito é uma tarefa encantadora no trabalho jornalístico. Nas minhas viagens de pesquisa pelo Brasil também pude constatar que a história da Independência tem sido contada excessivamente pela perspectiva das margens do Ipiranga. É como se o restante do país não existisse ou todos os demais brasileiros fossem meros coadjuvantes de acontecimentos limitados à região compreendida pelas províncias de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. É uma visão desfocada. O processo de separação de Portugal envolveu todo o Brasil e custou muito sangue e sacrifício às regiões Norte e Nordeste, onde milhares de pessoas pegaram em armas e morreram na Guerra da Independência. O estudo das rebeliões e divergências regionais do período é fundamental para entender o Brasil nascido em 1822.”  (GOMES, 2010).

Se D. Pedro I tornou-se bem conhecido pelos brasileiros, a personalidade de José Bonifácio ainda é pouco explorada pela historiografia. Isso deve mudar muito em breve. Há um filme sobre sua vida sendo produzido nesse momento. No trailer tem-se:

“Em um país sem heróis, devastado por tempestades, vivendo nas sombras, cultuando vilões, é preciso mergulhar na personalidade de um gigante e no caminho de volta trazer a tona um povo e seu orgulho. É preciso devolver ao Brasil sua verdadeira alma”.

O interessante é que nessa semana o colega professor Joaquim me enviou uma foto de uma estátua de José Bonifácio de Andrada que está em um parque de Nova Iorque  – Bryant Park on 6th Avenue between 40th and 42nd Streets. Nada mau para um brasileiro pouco reconhecido em seu próprio país.

José Bonifácio ingressou como aluno na Universidade de Coimbra no ano de 1783, aos 20 anos de idade. Cursou Direito Canônico e Filosofia Natural.

Com uma bolsa do governo português, empreendeu a partir de 1888 uma viagem científica junto com outros estudiosos. Nesse processo se tornou um mineralogista de renome internacional. Durante dez anos, percorreu vários países da Europa. Permaneceu em Paris entre os anos mais críticos da Revolução Francesa – 1790 e 1791. Lá tomou contato com ideais revolucionários e interagiu com cientistas do porte de Lavosier – o pai da química moderna. Na Alemanha conheceu o jovem Humboldt, que em 1800 se aventurou pelo continente americano.

Na Figura tem-se os países onde José Bonifácio morou durante sua formação.

José Bonifácio retornou para Portugal em 1800, aos 37 anos de idade. Ocupou a cátedra de Metalurgia, especialmente criada para ele, na Universidade de Coimbra, por Carta Régia de 15 de abril de 1801. Seu sonho era a construção de uma usina siderúrgica em Portugal, em um momento crucial de intensificação da Revolução Industrial.

Assumiu posteriormente alguns cargos administrativos no Estado Português. A Europa vivia um momento tumultuado politicamente por causa das Guerras Napoleônicas. José Bonifácio participou ativamente da resistência à ocupação francesa.

Retornando ao Brasil em 1819, aos 56 anos de idade, José Bonifácio se destacou na vida pública brasileira. Trouxe consigo uma biblioteca particular com 6.000 volumes e uma grande coleção de minerais.

Como líder dos monarquistas constitucionais, José Bonifácio sustentava que, na hipótese de república, o Brasil mergulharia numa guerra civil e se fragmentaria em pequenas repúblicas rivais — exatamente como vinha ocorrendo na América espanhola.

Para Gomes (2010), José Bonifácio desempenhou um papel equivalente ao de Thomas Jefferson na
Independência dos Estados Unidos. O interessante é que ambos estavam presentes na França no início de 1790.

“José Bonifácio percebeu que a energia das massas, sem controle e não canalizada para instituições como o parlamento, poderia ser tão ou mais nociva quanto a tirania de um soberano absoluto. […]  Por isso, esforçou-se para impedir que o processo de Independência fugisse ao controle das instituições monárquicas e desaguasse na república, regime para o qual acreditava que o Brasil ainda não estivesse preparado em virtude da enorme proporção de escravos, analfabetos e miseráveis que compunham a população brasileira” (GOMES, 2010).

Após o Dia do Fico, D. Pedro organizou seu primeiro governo sob a liderança de José Bonifácio. Considerando diversos decretos portugueses com o objetivo de reduzir o poder de D. Pedro foi necessário restaurar o comando sobre as províncias.

José Bonifácio determinou que qualquer ordem das Cortes seria ilegal sem o prévio consentimento do príncipe regente.

“Por fim, convocou um “Conselho de Procuradores das Províncias”, logo substituído por uma assembleia constituinte encarregada de elaborar as primeiras leis do Brasil independente. Eram todas decisões típicas de um país já autônomo, que desautorizava qualquer interferência de Portugal nos seus destinos” (GOMES, 2010).

Segundo Gomes (2010), no dia 28 de agosto o navio Três Corações atracou no Rio de Janeiro trazendo diversos decretos portugueses que reduziam o poder de D. Pedro I. Sua autoridade ficava limitada ao Rio de Janeiro e regiões vizinhas.

“As demais províncias passariam a se reportar diretamente a Lisboa. As cortes também determinavam a abertura de processo contra todos os brasileiros que houvessem contrariado as ordens do governo português. O alvo principal era o ministro José Bonifácio, defensor da Independência e grande aliado de D. Pedro. Convocadas à revelia de D. João VI, as cortes vinham tomando decisões contrárias aos interesses do Brasil desde o ano anterior. No final de 1821, tinham ordenado a volta de D. Pedro a Portugal, de onde passaria a viajar incógnito pela Europa com o objetivo de se educar. O príncipe decidira ficar no Rio de Janeiro, mas desde então o seu poder vinha sendo reduzido. Tribunais e repartições em funcionamento no Brasil durante a permanência da corte haviam sido extintos ou transferidos para a antiga metrópole. As províncias receberam instruções para eleger cada uma sua própria junta de governo, que se reportaria diretamente a Lisboa e não ao príncipe no Rio de Janeiro. Em outra tentativa de isolar D. Pedro, as cortes tinham nomeado governadores das armas, ou seja, interventores militares, encarregados de manter a ordem em cada província e que só obedeciam à metrópole” (GOMES, 2010).

Diante das informações do embarque de 7.100 soldados vindos de Lisboa com o objetivo de esmagar os partidários da Independência José Bonifácio aconselhou o jovem Príncipe Regente:

“Senhor, o dado está lançado e de Portugal não temos a esperar senão escravidão e horrores. Venha Vossa Alteza Real o quanto antes, e decida-se, porque irresolução e medidas de água morna (…) para nada servem, e um momento perdido é uma desgraça” (ANDRADA, 1822).

Nos meses que se sucederam à proclamação da independência, foi responsável pela criação da Marinha de Guerra.

“Até 1822, o Brasil não tinha Exército nem Marinha de Guerra. O próprio governo, que acabara de se constituir com José Bonifácio à frente do ministério, funcionava de forma desorganizada e improvisada. As ordens do Rio de Janeiro não eram acatadas pela maioria das províncias, ainda fiéis a Portugal. Sem reconhecimento internacional, as perspectivas de apoio diplomático eram nulas. Empréstimos, só a juros escorchantes. O novo governo sabia que, em um território com mais de 8.000 quilômetros de litoral e separado da metrópole pelo oceano Atlântico, o domínio dos mares seria absolutamente crucial para assegurar a independência” (GOMES, 2010).

Para diversos historiadores os acontecimentos de 1822 tinham tudo para dar errado. A maioria da população era composta de escravos e havia o medo permanente de revoltas. As lideranças tiveram que envolver o jovem Príncipe Regente de apenas 23 anos em seus planos com o objetivo de manter o país unido. Havia ainda o risco da fragmentação do território nacional como ocorreu na América Espanhola. Os primeiros anos do século XIX foram intensos em toda América Latina. A Argentina se tornara independente em 1816. O Peru em 1821. A Colômbia conquistou a independência em 1819. O Paraguai em 1811.

Aliás, não se pode deixar de lembrar do papel da Universidade de Coimbra no processo de integração nacional. Ela teve entre seus alunos José Bonifácio, Tomás Antônio Gonzaga e Gregório de Matos.

Universidade de Coimbra é uma referência histórica para o Brasil desde a época colonial. A instituição, uma das mais antigas da Europa (século 13), acolhe brasileiros desde o século 16. Segundo o vice-reitor, Joaquim Ramos de Carvalho, 78% dos ministros brasileiros, entre 1822 e 1940, foram estudantes em Coimbra.

Para lá eram enviados os jovens mais abastados das diversas províncias brasileiras. As distâncias continentais impediam a integração dentro do Brasil, mas em Coimbra essas lideranças criavam laços duradouros que se conservavam por meio de correspondências após a volta ao  Brasil.

Os primeiros anos do Brasil independente não foram fáceis. José Bonifácio acabou sendo expulso do país após o fechamento da Assembléia Constituinte de 1823.

Durante os anos de exílio, morou em Bordeaux, Caudéran e Mussidan na França. Seu retorno ao Brasil se deu somente em 1829 quando já estava com 66 anos.

No retorno ao Brasil instalou-e em Paquetá, onde mantinha correspondência com cientistas de renome na Europa.

Seu retorno à vida pública ocorreu a partir de um pedido de D. Pedro I para que cuidasse de seus filhos que ficaram no Brasil após sua renúncia em 1831. Um reconhecimento  ao homem público e intelectual brasileiro.  José Bonifácio foi tutor do menino D. Pedro II, mas não o viu ser coroado.

Em 1833 foi afastado da tutoria por adversários políticos que o acusavam de tentar trazer D. Pedro de volta ao Brasil. Julgado à revelia e absolvido depois de dois anos, José Bonifácio de Andrade e Silva morreu no dia 6 de abril de 1838

Para conhecer mais:

José Bonifácio – o primeiro Chanceler do Brasil 

Atenciosamente,

Prof. Jesué Graciliano da Silva