O meu doutor…

A mensagem a seguir foi publicada hoje no Jornal O DIA na coluna semanal escrita pelo amigo Eng. Civil Roberto Monteiro, de Marília-SP. Trabalhei para Roberto como desenhista entre os anos de 1990 a 1993 – no mesmo período em que cursei Engenharia Mecânica na UFSC.  Com os recursos arrecadados com os desenhos de perspectivas desenhadas à nanquim paguei meus gastos em Florianópolis. Roberto sempre participou ativamente da vida pública de Marília, ocupando funções de destaque.  Sua liderança me ensinou muito. Sempre gosto de lembrar em minhas falas sobre gestão que ele fazia uma lista de ações diárias. E sua alegria era riscar as ações realizadas. Levei esse hábito para todas as funções públicas que ocupei (Direção de câmpus, pró-reitoria e reitoria pro tempore). O plano de gestão que apresentamos ao câmpus São José durante a campanha em 2002 para Direção me acompanhou na parede durante os 4 anos. E diariamente atualizava minha lista de pendências. E durante o doutorado concluído nesse ano esse hábito foi fundamental para dar conta das leituras e pesquisas realizadas. Sem palavras para agradecer essa homenagem principalmente ao meu pai e à minha mãe Emiliana. Quando eu trabalhava no bar da família dos 10 aos 13 anos ouvia meu pai me chamar de engenheiro e de doutor. Seu exemplo e  incentivo me acompanham até hoje quanto tomo minhas decisões pessoais e profissionais.

Atenciosamente,

Prof. Jesué Graciliano da Silva

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ESCRITO PELO ENG. ROBERTO MONTEIRO – JORNAL O DIA – MARÍLIA – SP

“O MEU DOUTOR!”
Dias destes, ao passar pela Avenida República, fui recordando de que nas proximidades da Secretaria Municipal de Obras, um pouco para frente, havia um comércio que era administrado por uma família, os Graciliano da Silva. Dona Emiliana, hoje com 84 anos, e seu Rufino (in memoriam) nasceram na Bahia. Quando seu Rufino tinha 23 anos e dona Emiliana 18 resolveram se casar e, como muitos brasileiros daquela região, decidiram por migrar para as terras do Sul. Optaram não pelos grandes centros urbanos, que concentram as principais migrações do Nordeste, como São Paulo e Rio de Janeiro, mas sim pelas terras do Interior paulista e do Estado do Paraná. Por coincidência, dois Estados produtores de café e, como os imigrantes italianos, que no final do Século 19, assumiram a lida nos cafezais paulistas e paranaenses, os então jovens Rufino e Emiliana encontraram nas fileiras de café do Sul e Sudeste brasileiros, campo fértil para o trabalho e, naturalmente, o caminho para o florescimento da família.
Trabalharam nas lavouras do Paraná, mas foi nos cafezais paulistas, mais propriamente aqui em Marília, que estabeleceram morada. Aqui nasceram seus oito filhos. Seu Rufino e dona Emiliana nunca frequentaram a escola. Rufino sabia da importância da leitura, da escrita e dos cálculos. Por isso, pediu ajuda a um primo e, com seu esforço natural, conheceu todas as letras do alfabeto, juntou as palavras e conseguia ler as embalagens, os rótulos dos produtos na mercearia e o que saía nos jornais da época. Descobriu ser rápido nos cálculos de matemática. Tinha consciência do poder do estudo. Na medida em que os filhos cresciam, cresciam também as recomendações de seu Rufino quanto aos estudos. Incentivava-os continuamente. No começo de dezembro do ano de 1969 nascia seu filho caçula, o garoto Jesué Graciliano da Silva. O menino tinha muita habilidade mental e demonstrava gosto pelas disciplinas, pelas aulas nas escolas da cidade. Foi alfabetizado na escola estadual Antônio de Baptista, onde concluiu a 4ª série do Ensino Fundamental. Passou para a escola Antônio Reginato, onde concluiu o Ensino Médio – chamado de 2º Grau na época. Sempre se destacava pela excelência nas notas, pelo comportamento exemplar e pela boa carga de leitura. Realmente gostava de ler este Jesué – talvez por influência de seu nome do meio, Graciliano, que remete ao grande escritor Graciliano Ramos, autor dos romances ‘Vidas Secas’ e ‘Angústia’. Desempenho excepcional em disciplinas complicadas, como redação, matemática e até mesmo em desenhos, onde apreciava fazer HQs. Professores incentivavam o estudo de Jesué, como Agenor Perinetti, Joacir e Tereza, que lecionava Língua Portuguesa. Ajudava em casa, este menino.
Seu Rufino e dona Emiliana tinham outros 7 filhos e o jovem Jesué, muito habilidoso e caprichoso, encontrou no desenho uma fonte de renda para auxiliar o sustento da família, que nesta época contava com um pequeno estabelecimento comercial, onde também ajudava no balcão. Foi quando conheci este talento em pessoa. Jesué prestava serviços na área de desenho de plantas  aos colegas engenheiros Zezé Crulhas e Guelder Muller, que o recomendaram. Pronto, nascia aí a amizade e admiração. Convivi um bom tempo com Jesué que sempre ressaltava a importância dele continuar os estudos, cursar uma universidade, se especializar na área.
Jesué prestou vestibular, passou em Engenharia Mecânica na Universidade Federal de Santa Catarina, considerado o melhor curso de mecânica do Brasil e um dos mais concorridos. Concluiu o curso em 1993 e, logo em seguida, foi aprovado no concurso público para professor do Centro Federal de Educação Tecnológica de Santa Catarina, o CEFET-SC. Seguiu os estudos. Especializou-se em Engenharia de Segurança do Trabalho e em Elaboração de Políticas Públicas. Continuou se aperfeiçoando. Encarou o mestrado. Concluiu sua tese na área de Ciências Térmicas, ramo dentro da Engenharia Mecânica. Publicou os livros ‘Introdução à Tecnologia da Refrigeração e da Climatização’, depois ‘Do discurso à ação: uma experiência de gestão participativa na escola pública’. Sua competência e dedicação frutificaram no convite para ocupar o cargo de reitor pró-tempore, auxiliando no processo de transição de gestão escolar. Lá na infância e adolescência, seu Rufino, ao se dirigir ao caçula sempre dedicado aos estudos, bradava: ‘O MEU DOUTOR!’. Pois, num é que a sabedoria de Rufino se confirmou: Jesué Graciliano da Silva, o desenhista talentoso que prestou serviços para vários engenheiros de Marília, o menino simples e estudioso que cursou rede pública de ensino, concluiu seu doutorado, sagrando-se doutor de direito e de fato, cumprindo a profecia sábia do pai. Exemplos assim nos enchem de entusiasmo e esperança, pois comprova que todo esforço é recompensado, ainda mais quando este esforço vem acompanhado de muito estudo e aprendizado.
Fica o exemplo  de que :

“A EDUCAÇÃO É O ALIMENTO QUE NÃO PODE FALTAR NA MESA DO BRASILEIRO”.

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