Para que devem ser formados os novos engenheiros

De tempos em tempos fala-se muito no Brasil na falta de engenheiros. Avaliar com precisão a carência desses profissionais não é tão simples. O que se tem certeza é que no Brasil apenas 6% dos estudantes de graduação escolhem cursar engenharia (INEP, 2015). Nos países da OCDE esse número é da ordem de 25% e na China  38%. Provavelmente 30% dos graduandos concluem o curso de engenharia.

E se formamos poucos engenheiros em comparação com outras áreas do conhecimento também não produzimos um volume significativo de pesquisas capaz de ampliar o nível de inovação de nossa cadeia produtiva. Como consequência podemos afirmar correndo o risco de ser simplista que exportamos muito minério de ferro a baixo custo e importamos produtos tecnológicos de alto custo.

Segundo dados do Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovação, no ranking de produção científica e de inovação, em 2012 o Brasil ocupava a 13ª posição em número de publicações, mas ocupava apenas a 47ª posição no ranking de inovação. A relação entre o número de pedidos de patentes do Brasil e da Coréia do Sul no Escritório de Patentes dos Estados Unidos da América foi de 568 para  26.040. O Japão concentrava um percentual aproximado de 3% de sua exportação em produtos primários contra 12% dos Estados Unidos da América. A composição das exportações desses países em produtos de alta intensidade tecnológica era de 31% no Japão e 37% nos EUA.

Os países mais desenvolvidos investem um percentual médio de 2% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, com predomínio do investimento do setor privado em relação ao investimento público. No Brasil, esse investimento é da ordem de 1,2% do PIB.  O Governo Brasileiro investe 0,57% e o setor privado 0,54%.

Em uma entrevista recente, prof. Alvaro Prata – ex-Reitor da UFSC – relatou a importância de se formar mais engenheiros pensando na solução dos problemas da sociedade.

“Os engenheiros são formados para resolver problemas. Têm formação sólida em Matemática
e em Física. São pragmáticos e essa visão analítica do engenheiro e essa capacidade em pensar nas limitações e a partir delas antecipar a solução para um problema é bem-vinda em qualquer setor da sociedade… Mas o curso de engenharia é um curso difícil, que exige uma iniciação em Física e em Matemática e essa motivação tem que vir da escola fundamental”.

Leia a entrevista completa no link a seguir:

Engenharia e desenvolvimento no Brasil: desafios e perspectivas 

Nessa mesma linha de discussão reproduzo a seguir o  extrato de um artigo escrito pelo prof. Roberto Leal Lobo e Silva Filho – ex-reitor da USP.  O texto completo foi publicado no Jornal O ESTADÃO.

“A Engenharia é um fator determinante para o desenvolvimento econômico das nações. Cada vez mais a criação e a produção de bens de grande valor agregado fazem a diferença na balança comercial do mundo globalizado. A capacidade de inovação depende de vários fatores, entre eles a existência, quantidade e qualidade de profissionais de Engenharia. Com a rápida evolução da tecnologia e a consequente obsolescência das existentes, a formação do engenheiro deve privilegiar os conteúdos essenciais, ensinando-o a se adaptar rapidamente aos novos conhecimentos e técnicas. Por essa razão, a pulverização de especialidades estanques não é uma política profissional desejável. Além da necessidade de revisão dos currículos e das formas de integrar os conhecimentos científicos, tecnológicos, econômicos e mercadológicos, é preciso estabelecer uma nova política para o corpo docente das faculdades de Engenharia, associando a formação acadêmica avançada à experiência prática dos melhores profissionais do mercado, criando condições para uma coexistência altamente produtiva. […] A inovação é um processo complexo que exige grande interação social, estoque de conhecimento acumulado, gestão específica e injeção de capital. Segundo W. Brian Arthur, em “The Nature of Technology”, as novas tecnologias aparecem pela combinação de tecnologias já existentes e, portanto, pode-se dizer que as tecnologias existentes geram as novas tecnologias. As novas tecnologias, depois de algum tempo, se tornam possíveis componentes – como se fossem tijolos – para a construção de tecnologias ainda mais novas. As tecnologias se criam por si mesmas e de si mesmas. É um modelo de evolução combinatória. A evolução da tecnologia depende, também, e fundamentalmente, dos novos conhecimentos a respeito dos fenômenos naturais. É o conhecimento científico (que está ligado às ciências naturais) que embasa parte do desenvolvimento tecnológico, sendo o principal responsável pelas novas invenções. A inovação tecnológica depende, portanto, das tecnologias existentes, das demandas sociais (uma vez que a tecnologia se caracteriza por atender a um mercado demandante e à cultura de um povo que exige maior qualidade e inovação dos produtos ofertados) e do estoque de conhecimentos científicos disponível”.

Uma grande preocupação do prof. Roberto Leal é que a maioria das exportações brasileiras são de commodities primárias. Aproximadamente 40%.  O artigo é bem interessante e merece ser lido na íntegra.

“Para que o Brasil se insira no contexto das nações inovadoras será necessário ampliar o número de Engenheiros com formação pós-graduada principalmente junto às empresas. O baixo número de engenheiros com formação pós-graduada nas empresas não reduz somente o poder de inovação do setor produtivo nacional, mas prejudica também a formação dos novos engenheiros, uma vez os alunos de Engenharia têm, em geral, pouca convivência com docentes que aliem a ampla formação acadêmica com grande experiência no mercado de trabalho, já que grande parte do corpo docente das Escolas de Engenharia seguiu da graduação para a pós-graduação sem viver a experiência do exercício profissional fora dos muros da universidade. Além disso, será preciso reformular os bacharelados de Engenharia atendendo aos estudos internacionais ligados ao ensino em geral, e à Engenharia em particular, que apontam para a prevalência de uma formação científica mais forte, uma visão integradora das diferentes áreas de atuação do engenheiro, sem a excessiva e precoce especialização que se verifica hoje no Brasil, bem como a capacidade de conciliar as necessidades da sociedade com a sustentabilidade e a preservação do meio ambiente.”

Evidentemente que o assunto é complexo e não se esgota aqui. Precisamos sempre questionar como são organizados nossos cursos de engenharia. Formar mais engenheiros não significa necessariamente mais inovação. De cada 100 engenheiros formados quantos efetivamente se dedicarão à pesquisa científica e tecnológica? Difícil saber. Mas penso que são poucos, uma vez que grande parte da pesquisa realizada no Brasil está dentro das universidades e não nas empresas.

A criação de um ambiente propício para a inovação passa por investimentos consistentes e contínuos na formação e na pesquisa nas mais diversas áreas da engenharia. Não só pelo governo, mas também pelas empresas – que se beneficiam de incentivos fiscais para importar tecnologia que poderia ser desenvolvida no Brasil.

Atenciosamente,

Prof. Jesué Graciliano da Silva