Reflexões sobre as eleições 2014

Em primeiro lugar gostaria de dizer que sou um apaixonado por eleições. E o responsável por isso é meu pai, o saudoso Senhor Rufino falecido em 2006. Ele me levou aos primeiros comícios nas eleições de 1974. Tenho diversas lembranças daquele momento. Meu pai foi vereador eleito por dois mandatos na cidade de Júlio de Mesquita na década de 60. Naquela época vereador não recebia salário. Era um ato de cidadania. Tenho uma cópia de um livro de ata daquele período. Nela li uma nota de repúdio assinada por ele pelo cancelamento da rota do ônibus escolar dos sítios em que o prefeito não recebeu voto. Fui em todos os comícios a partir dessa eleição e comemorei com meu pai a vitória do MDB nas eleições de 1978 e de 1982. Franco Montoro venceu com o discurso “É preciso mudar!” em uma eleição em que Lula disputou pela primeira vez como candidato a governador do Estado. Naquela época havia um discurso em São Paulo de que “Fulano rouba, mas faz!” Esse era um discurso combatido que não aceitávamos desde criança. Acompanhei pela televisão as campanhas das Diretas Já em 1984 e chorei com a morte de Tancredo Neves em 21 de abril de 1985. Por ser de família humilde, comecei a trabalhar aos 13 anos , no dia 11 de agosto de 1983 como desenhista em escritório de Engenharia. Entregava todo salário ajudar em casa. Quase todos meus amigos da mesma idade faziam o mesmo. Acompanhei a aprovação da Constituição Cidadã em 1988. Com muito esforço e incentivo de meus professores e patrões, mesmo fazendo a maior parte do segundo grau em escola pública a noite e trabalhando durante todo o dia, passei entre os 50 primeiros alunos do curso de engenharia mecânica da UFSC. Escolhi o curso por causa de seu renome nacional. De família humilde compreendi que uma grande universidade mudaria minha vida. Durante todo o curso passei dificuldades financeiras, mas consegui me manter na cidade de Florianópolis. Trabalhei durante todas as férias para conseguir dinheiro para me manter. Tive bolsas de monitoria e de iniciação científica. Aprendi um pouco de didática durante a monitoria, sendo orientado pelo grande professor Alvaro Prata e prof. Sérgio Colle. Conclui a universidade em quatro anos e meio porque não tinha dinheiro para me manter na cidade de Florianópolis por muito tempo. Um mês depois de formado fui aprovado em concurso público para a então ETFSC, onde trabalho desde dezembro de 1993.
Nas eleições de 1989 participei de debates na UFSC e assisti os programas eleitorais. Assim o fiz nos últimos 25 anos. Gosto e assisto aos debates com muita atenção procurando compreender a fala de cada candidato e procurando interpretar sinais de mentira ou veracidade. A partir dos debates aprendi muito também sobre o país. A verdade quase sempre precisa ser decifrada.
Durante o período de Universidade sonhava em mudar o Brasil. Percebi que na UFSC poucos os estudantes vinham de famílias pobres. Percebi que se eu podia estar ali então tudo era possível.
Aos 20 anos comecei a ler um livro por semana das áreas de economia, educação e administração. Entendia que somente com educação era possível a mudança do país.
Mas esse processo me levou a conhecer os detalhes de como funciona efetivamente o sistema eleitoral brasileiro. Desanimei profundamente.
Decidi que aos 30 anos iria tomar a decisão de participar ou não da vida política. Aos 25 anos cursei a Escola de Governo, onde aprendi que tão importante quanto administrar é ter credibilidade para influenciar e assessorar quem está no comando. Aprendi que temos que atuar ativamente em nossas instituições, mudando o que está ao nosso alcance porque isso tem efeitos sobre o todo. Se não podemos mudar o mundo, podemos mudar o mundo a nossa volta.
Quando completei meus 30 anos, procurei a então deputada estadual Ideli na Assembleia de Santa Catarina para que ela me orientasse sobre como eu poderia contribuir para a melhoria do país por meio da política.
A recomendação que recebi era que procurasse o diretório da Palhoça e o ajudasse a se organizar. Filiei-me ao PT em 2001 e nele permaneci participando de reuniões, cursos e encontros até o ano de 2004.
Em 2002 fui eleito Diretor do câmpus São José, um mês após a vitória do presidente Lula para presidência da República. Esse foi um período de grandes expectativas para todos os brasileiros.
Afastei-me do PT após uma reunião ocorrida na câmara de vereadores para avaliação dos resultados da derrota para a eleição de prefeito em 2004. Ouvi ali discussões que jamais imaginaria ocorrer em um partido como o PT, que até aquele momento tinha como sua maior bandeira a ética. Minha decepção foi grande e desde essa época me afastei da vida partidária. Tenho minha carteirinha do PT ainda para recordação. Aprendi muito durante esse período. Fiz diversos cursos de formação, que me ajudam até hoje a fazer a análise de conjuntura da realidade.
Meu objetivo nunca foi ser candidato a cargo eletivo. Minha vontade era de contribuir tecnicamente na área de educação profissional em uma possível gestão municipal. Não tinha pretensão de participar do jogo eleitoral. Nunca entendi como um candidato a vereador pode gastar 500 mil em uma campanha. Ou um prefeito gastar um milhão ou mais. Esse fato afasta pessoas honestas das campanhas. Porque se um candidato gasta mais na campanha do que vai receber em seu mandato, alguma coisa está errada. Quem contribui, na maioria das vezes, espera algo em troca. Por isso, entendo que enquanto essa regra não for alterada o cardápio será sempre o “prato feito”. Muitos colegas estão votando no “menos pior”. Faltam políticos da estatura do Doutor Ulisses Guimarães. Por isso acredito em formação de novas lideranças e de dirigentes políticos. A Escola de Governo teve início em 1994. Fui da segunda turma no estado e aprendi com prof. Jacó Anderle que temos que formar uma nova classe política.
Toda essa introdução é porque tenho lido muitas avaliações passionais e motivadas por interesses diversos, sem uma reflexão maior. Muitos parecem que seguem uma religião, a favor ou contra. Alguns amigos votam no Aécio. Outros votam na Dilma. E os motivos de ambos são os mais diversos. E respeito todos eles. Princípios são individuais.
Sou uma pessoa de muita sorte. Desconhecia a ciência da estatística na minha juventude. Acreditava em Raul Seixas: “Basta ser sincero e desejar profundo, e você será capaz de sacudir o mundo…”. Se eu soubesse que a probabilidade de um estudante de escola pública do período noturno sem quotas estudar no melhor curso de engenharia mecânica do país tendia a zero, talvez nem tivesse tentado. Trabalho em uma das melhores instituições de educação profissional do país. Tudo é possível quando se acredita. E acredito muito no Brasil. Acredito muito na educação profissional como um caminho seguro para o desenvolvimento regional e para transformação da vida de milhões de brasileiros.
Por isso me preocupo muito com os desdobramentos das eleições deste domingo. Penso que o Brasil está muito dividido e isso não será corrigido somente com um discurso de vitória conciliador do vitorioso no domingo a noite. Será preciso um esforço muito grande para pacificar os ânimos. E o ano de 2015 será duro porque haverá desdobramentos da delação premiada. Teremos momentos de muita tensão no congresso.
Segundo dados do Tribunal Regional Eleitoral, no próximo domingo 143 milhões de brasileiros estarão aptos a votar e decidir os rumos da política nacional para os próximos 4 anos. Provavelmente teremos novamente uma abstenção da ordem de 30 milhões de votos. Geralmente a abstenção é maior no segundo turno. E ainda tem o dia do servidor na terça.
No primeiro turno 27,6 milhões não votaram. Foram também computados quase 11 milhões de votos nulos e brancos. Considerando a margem de erro e a diferença entre as pesquisas e o resultado das urnas no primeiro turno é possível que a eleição de domingo seja decidida por uma diferença de 3 a 5 milhões de votos. Na eleição de 2010, a presidente Dilma venceu o senador eleito José Serra por 5 milhões de votos se não estou enganado. Diversos especialistas políticos apontam que a eleição será definida pela taxa de rejeição dos dois candidatos a presidente.
O Congresso Nacional já está definido e o que se viu foi a renovação de 40% dos deputados, que estarão em seus primeiros mandatos. No senado a renovação foi de 20%.
Tenho a convicção de que não deveria existir o instrumento da reeleição para nenhum cargo. A emenda da reeleição foi aprovada e até hoje há suspeitas da compra de votos. Em meu entendimento a reeleição não contribuiu para o fortalecimento da democracia brasileira.
Os eleitores têm muitos motivos para votar na presidente Dilma novamente. Têm muitos motivos também para não votar. E também têm muitos motivos para votar e para não votar no candidato Aécio.
Entre os diversos motivos para votar na presidente Dilma vou apontar somente 3: a construção de quase 200 câmpus dos institutos federais, o Prouni, o programa ciência sem fronteiras e o programa minha casa minha vida. Meus amigos poderiam fazer uma lista gigante.
Como motivos para não votar os brasileiros tem a não destituição (pela presidente Dilma) imediata e preventiva do conselheiro de Itaipú e tesoureiro do Partido dos Trabalhadores, denunciado de participação do esquema de desvio na Petrobrás. Houve desvio de dinheiro público. Não há dúvidas disso. O duro é ouvir de pessoas sérias que isso é normal e que todo partido faz isso senão não governa. Sonho então com o impossível e vou educar meus filhos dentro desse princípio. Nunca aceitei o slogan “rouba, mas faz”. Na economia entendo que o modelo de desenvolvimento baseado principalmente no consumo interno não é o mais adequado. Posso não ser um especialista em economia, mas parece ser claro que os investimentos em infraestrutura não foram realizados na velocidade necessária para que o país se tornasse mais competitivo. Se o país não sair logo da recessão técnica e voltar a crescer, não haverá como manter o atual nível de arrecadação e de investimentos. Espero que ao final da eleição uma corrente de otimismo na nossa economia aconteça. Mas isso não vai acontecer apenas com discurso otimista do (da) candidato (a) eleito (a). O bem sucedido trabalho de desconstrução da candidata Marina foi executado com extrema falta de respeito à inteligência dos eleitores. Mas funcionou. Achei isso injusto. A candidata não estava preparada para passar por isso e penso que deve estar sofrendo muito como pessoa.
Para quem trabalha na educação profissional parece ser evidente que o voto na presidente Dilma é o mais seguro para continuidade dos investimentos nos Institutos Federais. Do outro lado tem-se uma incógnita porque passamos pela gestão de 8 anos do presidente Fernando Henrique.
E para não votar no candidato Aécio os brasileiros têm também diversos motivos: não apresentou um projeto para a educação que seja viável. Tem dificuldades para explicar a construção do aeroporto. Não apresentou um plano claro para retomada do crescimento. Se o objetivo do PT foi ataca-lo para que ele ficasse na defensiva e não apresentasse propostas claras, deu certo, porque não consegui me lembrar de nenhuma proposta dele. Reduzir a maioridade penal não vai resolver o problema da criminalidade e não vai trazer mais segurança. Esse é um problema mais complexo e não tem solução simples. E nem há vagas no sistema penitenciário. Nenhum candidato apresentou um projeto concreto de valorização do salário do docente, principalmente daquele que trabalha no ensino fundamental. Todo mundo sabe que sem melhorar o nível da educação não vamos nos desenvolver efetivamente. E o PT teve 12 anos para fazer isso. Governador entrar na justiça para não pagar o piso é deprimente para um país que é a sexta economia do mundo. Minha proposta é que no mínimo o governo federal complemente o salário dos professores do ensino fundamental e que se invista em mais capacitação e em dois professores por sala nos primeiros dois anos do ensino fundamental. E que se continuem as políticas de ampliação de vagas na EPT e no ensino superior.
Para votar no Aécio milhões de brasileiros têm um argumento forte: é necessária a alternância de poder. Essa é a essência da democracia. São mais de 20 mil cargos de confiança em jogo. E muitos interesses em jogo. A alternância fortalece o processo democrático.
Independente do vencedor, o que eu sei é que na semana que vem vamos continuar trabalhando firme para o bem do nosso país, onde vamos criar nossos filhos.
Então espero que cada um faça a melhor escolha possível dentro de sua convicção de vida e que respeitem a escolha dos colegas.
É muita arrogância achar que quem vota no candidato diferente do nosso é menos instruído ou ignorante. O voto é livre e tem que ser exercito na sua plenitude, sem medos.
Mesmo as pessoas mais humildes possuem a capacidade de discernimento e sabem o que é certo e o que é errado. Meu pai era semi-analfabeto, nordestino e pobre. E é meu ídolo porque me ensinou a fazer as escolhas mais certas.
A escolha nessa eleição me parece com a metáfora da garrafa meio cheia e meio vazia. Cada um enxerga de um jeito o mundo. E ninguém está certo. E ninguém está errado.
Mas eu escolhi enxergar que a garrafa está sempre meio cheia.

Na internet há diversos vídeos que podem ser usados para reflexão.

https://www.youtube.com/watch?v=R-2W3isaNH0
http://zh.clicrbs.com.br/…/disputa-acirrada-eleva-importanc…
http://epoca.globo.com/…/por-que-bpesquisas-eleitoraisb-se-…
http://www.conjur.com.br/…/rejeicao-definira-eleicao-cienti…
http://www.youtube.com/watch?v=UNrUzNGxIVA&sns=em
https://www.youtube.com/watch?v=HeJfULLWnxk
https://www.youtube.com/watch?v=fdDCBC4DwDg
https://www.youtube.com/watch?v=P5xdD0quHE4
https://www.youtube.com/watch?v=7zjwbNQ7ls0
https://www.youtube.com/watch?v=4VZwLHDioS8
https://www.youtube.com/watch?v=pjqKnNW08I8
https://www.youtube.com/watch?v=wKDswwoHxSc
https://www.youtube.com/watch?v=M9UNDcD5H3c
https://www.youtube.com/watch?v=5pOLexoYl_A
https://www.youtube.com/watch?v=Et9OrjTelc8
https://www.youtube.com/watch?v=8lPlO9j8J9Y
https://www.youtube.com/watch?v=vfXvKGgx2pI
https://www.youtube.com/watch?v=vgRlNAXVfoQ

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