Salvando o capitalismo, mas para muitos

Nessa semana assisti um interessante documentário de nome curioso: Salvando o capitalismo.

Nele, o ex-Secretário do Trabalho do Governo Clinton, prof. Robert Reich, apresenta de forma muito competente a estratégia utilizada pelas grandes corporações para aumentar seu poder político e econômico. Ao longo do tempo o que tem ocorrido nos EUA é um processo lento e consistente de aumento da desigualdade social.  No vídeo a seguir tem-se detalhes de como isso vem acontecendo.

Quando prof. Robert fala em salvar o capitalismo ele diz que é preciso salvá-lo para muitos e não para uma minoria que está se dando muito bem.

O assunto me interessou porque entendo ser importante conhecer como funcionam as engrenagens do sistema em que vivemos. Talvez assim  consigamos pensar juntos em estratégias que permitam combinar desenvolvimento econômico com redução das desigualdades. A nação mais rica do planeta vem se tornando também uma das mais desiguais e isso é preocupante. Os empregos com bons salários e o sonho americano tem ficado nos livros de história.

Prof. Robert Reich começa o documentário explicando o básico:

“O capitalismo americano é fundamentado em trocas privadas e na livre circulação de bens e serviços.  A noção de que existe um livre mercado funcionando espontaneamente sem a regulação do governo é uma criação das grandes corporações. A noção de propriedade, de falência, e a validade dos contratos depende da legislação, interferência e aprovação dos governos. Até 150 anos atrás os afro-americanos eram considerados pela legislação uma propriedade particular.”

 

 

“A regra secreta do mercado é que o dinheiro flui para cima, saindo da classe média que é incentivada a consumir cada vez mais, para os bolsos de uma pequena elite econômica. Quando a riqueza vai para o topo,  o poder político também vai. As regras do jogo são controladas pelos grandes grupos econômicos, que controlam a classe política. É um círculo vicioso”.

Será que é coincidência que na semana passada foi aprovado o maior pacote de corte de impostos dos últimos 30 anos nos Estados Unidos?  Entender o que isso significa é importante porque a redução da arrecadação pode levar ao corte de programas sociais de auxílio aos mais pobres. Nem sempre a redução de impostos tem como resultado a geração de empregos e a melhoria da vida das pessoas comuns – que vendem sua força de trabalho.

Apesar das diferenças grandes entre a forma de organização da economia norte-americana com a brasileira, as discussões apresentadas no documentário podem ser aplicadas também em parte a nossa realidade. Ou desconhecemos o poder das grandes empresas nacionais e internacionais na defesa de seus interesses corporativos?  De que Getúlio Vargas falava quando se referiu ao mar de lama?

Em nome da eficiência e da geração de empregos muitos economistas chamados de liberais pregam o corte de impostos e a flexibilização da legislação trabalhista.  A mídia – controlada por grandes grupos econômicos anunciantes – repete diariamente que a flexibilização vai melhorar a vida das pessoas criando novos empregos. E os futuros prejudicados acabam apoiando essas ideias. Há pouco mais de um mês foi aprovada no Brasil a nova legislação trabalhista. Muitos parlamentares afirmaram que os atuais contratos de trabalho estariam protegidos porque haveria um período de carência. Ou seja, as empresas não poderiam demitir seus funcionários para recontratá-los sob o novo regime. O que aconteceu na prática é que as pessoas estão sendo demitidas em massa.

Nessa semana, por exemplo, uma grande universidade anunciou a demissão de 1,2 mil professores. A instituição alegou que contratará novos profissionais a partir de seu cadastro de reserva e seguindo as novas regras.

Muitos casos como esse serão notícias nos próximos meses. Possivelmente serão criados alguns milhares de empregos, pagando bem menos. Esse é um exemplo de como o dinheiro flui para cima ampliando a desigualdade social. As pessoas ganham menos vendendo o único bem que possuem – a força de trabalho.

O mesmo processo de manipulação da opinião pública está acontecendo em relação à reforma da previdência. Não tenho condições de dizer que a previdência é deficitária porque jamais saberemos os números reais. O que sei é que o Governo Federal pagou publicidade na televisão afirmando que a reforma acabaria com os privilégios dos servidores públicos – sempre os vilões da história. E essa versão começou a ganhar a simpatia das pessoas comuns que pouco compreendem o que está em jogo: a exploração de um mercado bilionário de previdência privada complementar. Quando não se tem perspectiva da aposentadoria pública surge um novo mercado muito rentável para os bancos.

A minoria dos parlamentares está preocupada com o país. O relator da reforma, por exemplo, recebeu recursos para sua campanha de seguradoras. Não há isenção e todos sabem disso. O Congresso é um grande balcão de negócios. “Quem opera o governo opera em interesse próprio – afirmou prof. Robert Reich”. Os poucos congressistas que não jogam conforme os interesses das grandes corporações não aparecem na mídia. E quando aparecem é de forma constrangedora.

A diminuição de impostos pode vir disfarçada de subsídios como é comum no Brasil. Há alguns anos o crescimento da economia brasileira foi ancorada no aumento do consumo das classes C, D e E.  A partir da redução de IPIs e da ampliação do crédito nunca se vendeu tantos automóveis e tantos eletrodomésticos. As indústrias, localizadas principalmente nas regiões Sul e Sudeste, ganharam muito dinheiro e geraram milhões de empregos. O setor de serviços também cresceu com o aumento da demanda. E, considerando que as lojas de eletrodomésticos vendem a prazo cobrando taxas elevadas no crediário, o sistema financeiro também viu seu faturamento crescer de forma espantosa. Os bancos foram as instituições que mais lucraram nas últimas décadas. E as construtoras se beneficiaram muito com os megaeventos como Jogos Panamericanos, Copa do Mundo e Olimpíadas do Rio. A construção civil empregou milhões de trabalhadores.  Com a descoberta do pré-sal a indústria petrolífera também viu seu faturamento e importância  política aumentar. Com os desdobramentos da Operação Lava Jato passamos a compreender melhor a relação promíscua entre a classe política e os grandes grupos econômicos.

Pois bem, esses grandes grupos econômicos manipulam as regras do jogo democrático a seu favor. Muitas leis e decretos são aprovados para favorecer determinadas famílias em detrimento dos interesses da maioria da população brasileira. É o que está vindo a tona nos últimos anos. O “Príncipe” ficou preso dois anos e já está voltando para sua mansão para cumprir prisão domiciliar.  Dificilmente o valor total desviado será recuperado.  No Brasil o crime parece que compensa quando o roubo é de milhões.

Enquanto brigamos, novos esquemas são arquitetados. Um deles é o perdão da dívida dos grandes bancos. Tudo muito conveniente.

Enfim, vale a pena utilizar duas horas de seu tempo para ouvir o que o professor Robert tem a dizer.

Atenciosamente,

Prof. Jesué Graciliano da Silva