Santa Catarina – passado e presente

O texto a seguir fazia parte de um capítulo da tese. Por sugestão da banca, acabei o suprimindo na versão final. Mas penso que ele pode ser útil para aqueles que desejam compreender mais sobre o passado e o presente de Santa Catarina.

+++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++

Segundo Lourenço (2016, p.26) os primeiros europeus a se estabelecerem e habitarem o litoral catarinense foram os espanhóis em 1516. “Tratava-se de uma das caravelas da expedição de Juan Dias de Solis, que depois de enfrentar forte tempestade, chegou a este litoral com o leme danificado”.  O navio acabou batendo nos rochedos e naufragando próximo à Ponta dos Naufragados. Segundo o autor, o litoral catarinense era o último porto seguro antes do Rio da Prata. Por isso foi utilizado por doze expedições espanholas entre os anos de 1500 e 1600. Apesar das incursões esporádicas de aventureiros portugueses em busca de metais preciosos na região do Rio da Prata, somente em 1680 as forças portuguesas iniciaram o estabelecimento da Colônia do Santíssimo Sacramento, na margem oposta de Buenos Aires. A região era estratégica por ser um ponto de passagem da produção colonial vinda do Peru, sobretudo ouro e prata.

Em meio a esse período de povoamento rarefeito a Companhia de Jesus, ligada à Igreja Católica, organizou e fundou mata adentro diversos aldeamentos administrados por padres e auxiliados por civis. Esses aldeamentos ficaram conhecidos pelo nome de Reduções ou Missões Jesuíticas. Os jesuítas espanhóis introduziram a criação de gado e cavalos nas missões, o que contribuiu para a fixação dos indígenas e para criação de um próspero comércio com outras regiões.

As Reduções haviam se estabelecido e se firmado como concorrentes comerciais dos mais fortes e atuantes. Além disso, estavam centralizando grandes contingentes de mão-de-obra indígena, que preferiam ficar sob a guarda dos padres do que sobre a chibata dos aventureiros-militares espanhóis. Estes, que se consideravam os verdadeiros súditos do Rei de Espanha, não se conformavam com essa situação e logo tomaram medidas drásticas a respeito. As Reduções Jesuíticas estavam, sem que os padres da Companhia de Jesus tivessem a menor desconfiança, com os anos contados. A ciumeira dos aventureiros espanhóis não foi nada, quando comparada com a avidez portuguesa por aquelas terras e por escravos  (PERIS, 2008, p.39).

No entanto, com a assinatura do Tratado de Madri entre Portugal e Espanha em 1750, Portugal exigiu a saída dos missioneiros espanhóis da região Sul em troca da Colônia de Sacramento. Os indígenas missioneiros resistiram quanto puderam, mas foram expulsos da região. Pippi e Muller (2007) ressaltaram que quando as quase duas dezenas de reduções fundadas a partir de 1626 foram destruídas, o gado introduzido nos campos nativos do planalto e do sul foram abandonados.  Os rebanhos se reproduziram selvagens, formando uma grande reserva de recursos que foi a base de construção da sociedade sul-rio-grandense nos seus primeiros anos de ocupação sistemática.

A região missioneira passou a estruturar se em torno do latifúndio baseado na pecuária por meio das estâncias, criando uma economia que se fez subsidiária às economias centrais do Brasil. Esse fato está associado ao surgimento do ciclo econômico denominado de Tropeirismo no início do século XVIII.

Para atender às necessidades de alimentação e transporte dos mineradores das Minas Gerais, ocorreu uma grande procura de vacas, cavalos e mulas. Os campos de Curitiba e do atual território do Rio Grande do Sul, onde o gado se espalhava em grande quantidade, eram áreas muito favoráveis à pecuária. Por volta de 1720, os paulistas começaram a buscar o gado do Rio Grande do Sul. Alguns anos depois, foi aberto o caminho Viamão-Sorocaba, por determinação do governo da Capitania de São Paulo, obra conduzida pelos Curitibanos sob a chefia de Cristovam Pereira. O caminho foi inaugurado em 1731. Foi um caminho que levava o gado das margens do rio da Prata e da Lagoa dos Patos, no Sul, à feira de Sorocaba, em São Paulo, passando por Curitiba e região (CROCETTI, 2012, p.66).

Segundo Caldeira et. al. (1997), o tropeiro acabava desempenhando outros serviços além de conduzir as tropas, pois também intermediava negócios entre comerciantes das vilas por onde passava, levava notícias de parentes, novidades do litoral ou da Europa, dinheiro remetido por um amigo, além das mercadorias necessárias. Por tudo isso o movimento do Tropeirismo contribuiu para a integração da região missioneira ao Brasil, pelo trânsito contínuo de gado e mulas enviadas principalmente para Sorocaba, conforme ilustrado na Figura 1.

Entre os povoados da região Sul, fundadas no caminho dos tropeiros, que mais tarde se tornariam municípios, tem-se São Borja, Cruz Alta, Passo Fundo, Vacaria, Lages, Ponta Grossa, Rio Negro, Lapa e Castro. Um dos caminhos ligava Passo Fundo até Vacaria, passando por Lages, Curitibanos e seguindo para Rio Negro, Lapa e Castro no Paraná. Outro caminho passava de Rio Grande, Pelotas, Viamão, Araranguá, Tubarão, Laguna e seguia pra Sorocaba passando por todo o litoral.

Figura 1- Rede de municípios de origem relacionada ao tropeirismo. Adaptado de CROCETTI (2012)

Os municípios de Lages, São Joaquim e Curitibanos acabaram por constituir a base social e econômica da atual mesorregião Serrana, que tem como característica a presença de grandes propriedades resultantes das fazendas para engorda dos animais.

O povoado da Ilha de Santa Catarina foi fundado por Francisco Dias Velho, consolidou-se como uma organização urbana a partir da construção de fortes e fortalezas, tornando-se a partir da criação da Capitania da Ilha de Santa Catarina, a primeira unidade política constituída no Sul do Brasil. Criada em 1738, teve o Brigadeiro José da Silva Pais como seu primeiro governador. O território compreendia os atuais estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul até a emancipação deste último como capitania do Rio Grande de São Pedro em 1760.

Além de beneficiar-se de sua função administrativa e da condição de praça comercial, a privilegiada localização da Ilha-Capital situada estrategicamente entre as duas mais importantes cidades sul-americanas da costa Atlântica – Rio de Janeiro e Buenos Aires –, favoreceu também o desenvolvimento das atividades portuárias (PEREIRA, 2003, p.106).

Para Pereira (2003), aos colonizadores vicentistas juntaram-se os fluxos migratórios de famílias provenientes do arquipélago dos Açores. Para sua subsistência, os açorianos passaram a dedicar-se à pesca artesanal e à policultura. O domínio da metrópole portuguesa, apesar de limitar as possibilidades de acumulação, não impediu o surgimento de certa diferenciação interna entre esses pequenos produtores.

Ainda no século XIX, com o advento do navio a vapor e da hélice, a navegação marítima tornou-se mais rápida e mais segura. Essa inovação tecnológica contribuiu para modificar o processo de imigração no mundo todo. Tornou-se possível o deslocamento de grande quantidade de pessoas em um curto espaço de tempo, o que era impossível até então.

As máquinas que, em parte, aumentaram os capitais e a burguesia, e, em parte desalojaram os operários de suas ocupações, garantiram a expansão em direção à América. A mesma expansão técnica que expulsava os homens garantiria seu transporte para outras terras, através dos navios a vapor. A Europa passou a exportar em larga escala produtos industrializados, religião, costumes, ideias, e, especialmente, europeus. (GIRON, 1980 apud FILLIPON, 2007, p.16).

A vinda de imigrantes ocorreu em pequeno número até a primeira metade do século XIX. O aumento do número de imigrantes alemães e italianos ao Brasil se intensificou a partir dos conflitos pela unificação da Alemanha e da Itália. A unificação não resolveu os problemas decorrentes da decadência do feudalismo e da transição para o capitalismo. Segundo Waibel (1979), até o ano de 1934 o Estado de Santa Catarina recebeu 235 mil imigrantes alemães, 100 mil imigrantes italianos e 28 mil imigrantes eslavos.

Na Figura 2, tem-se a ilustração dos primeiros núcleos formados pelos imigrantes em Santa Catarina.

Figura 2- Distribuição das colônias de imigrantes em Santa Catarina – Fonte: ATLAS SC 1958

Para Silveira (2003), a ocupação inicial do sul catarinense foi realizada inicialmente pelos vicentistas, no século XVII, e pelos açorianos e madeirenses, no século XVIII. Posteriormente, os imigrantes europeus distribuíram-se pelos vales dos rios Tubarão, Urussanga, médio Vale do Rio Araranguá, Vale do Rio Mambituba e médio Vale do Rio Mãe Luzia, formando as colônias de Urussanga (1878), de Criciúma (1880), de Cocal (1885), de Azambuja (1887).

Tendo superado a dependência em relação à extração do carvão, atualmente a região se destaca por concentrar um dos maiores parques industriais do país na área de cerâmica com marcas reconhecidas como Cecrisa, Eliane, Itagres e Portinari (AMANHÃ, 2015).

A primeira colônia alemã de Santa Catarina foi a de São Pedro de Alcântara, instalada em 1829.

Figura 3 – Portal de entrada de São Pedro de Alcântara

Duas décadas mais tarde, chegaram novos contingentes de imigrantes que se instalaram no Vale do Itajaí e no Norte do Estado. Eles trouxeram para o Brasil suas experiências na divisão social do trabalho, uma vez que já haviam passado pela Primeira Revolução Industrial e muitos viveram a gestação da Segunda Revolução Industrial na Alemanha. Eram artesãos, engenheiros, tecelões, pequenos industriais, carpinteiros, militares, comerciantes e advogados. Os imigrantes trouxeram para o Brasil o sistema de produção mercantil,  já conhecido nas suas colônias de origem.

Em 60% dos casos, as iniciativas industriais tiveram por origem uma mão-de-obra especializada, mestres, operários qualificados e artesãos. Mas as pessoas que não tinham experiência de direção comercial ou industrial ou somente muito espírito de iniciativa procuravam utilizar essa riqueza de mão-de-obra especializada (MAMIGONIAN, 1966, p.404).

Para Raud (1999), os imigrantes vindos da Alemanha da região industrial da Saxônia favoreceram a especialização do setor têxtil, com destaque para as indústrias Hering e Karsten, em Blumenau, e Buettner e Renaux, em Brusque, entre 1880 e 1884. Mas, segundo Goularti Filho (2007), também não se deve subestimar o papel que teve a economia do centro do sistema econômico nacional – São Paulo – em consolidar a indústria catarinense.

O bom desempenho da pequena produção, matriz da pequena burguesia industrial e comercial de origem europeia, só pode ser entendido dentro da expansão industrial catarinense e, sobretudo, nacional. As dinâmicas internas da economia catarinense devem ser entendidas dentro de um contexto nacional de crescimento articulado com o centro dinâmico e com os demais Estados periféricos, ou seja, a partir do movimento geral da industrialização brasileira (GOULARTI FILHO, 2007, p.48).

Os estudos de Mamigonian (1966) sobre Santa Catarina, especificamente sobre o dinamismo industrial das áreas de colonização europeia possibilitam a compreensão de como os imigrantes se inseriram na dinâmica econômica nacional. Com os imigrantes teve início a pequena produção mercantil, que se inseriu paralela à estrutura latifundiária que caracterizou a ocupação de algumas áreas do Brasil Meridional, entre as quais as manchas de campo do planalto catarinense.

O dinamismo econômico das colônias de imigrantes alemães mostrou-se muito superior ao alcançado, por exemplo, pela pequena produção dos colonos açorianos. E isso se explica também porque os imigrantes europeus do século XIX trouxeram consigo as bases do capitalismo industrial, propício ao surgimento e à consolidação da indústria catarinense. “Os pequenos agricultores independentes, artesãos, operários, pequenos comerciantes, que já praticavam uma significativa divisão social do trabalho” (MAMIGONIAN, 1966). Essa formação socioespacial foi responsável pelo surgimento das mesorregiões Norte Catarinense e Vale do Itajaí.

Apesar de receber grande contingente de imigrantes, somente no final do século XIX foram definidas as atuais fronteiras catarinenses e a questão dos limites com a Argentina. Prevaleceu a tese defendida pelo então Barão do Rio Branco[2] conhecida como “uti possidetis”. Um laudo publicado em de 5 de fevereiro de 1895 do arbitramento do Presidente norte-americano Stephen Grover Cleveland (1837 – 1908) favoreceu o Brasil ao estabelecer os limites pelos rios Peperi-Guaçu e Santo Antônio, conforme ilustrado na Figura 3.

Figura 4- Região de indefinição dos limites do Estado de Santa Catarina. Fonte: Adaptado de FERRARI (2003)

O Governo Imperial havia repassado em novembro de 1889 a concessão da Estrada de Ferro para a empresa Brazil Railway Company como parte do pagamento da ferrovia. Esse fato, associado à súbita liberação dos operários após a conclusão da ferrovia contribuíram para a Guerra do Contestado, que ocorreu entre 1912 e 1916.

Figura 5– Caminho da estrada de ferro Santa Maria – São Paulo e conflito do Contestado. Fonte: Adaptado de PERTILE (2008)

Segundo Espíndola (1999), a construção da estrada de ferro ligando Santa Maria até São Paulo contribuiu para integração da região Sul do Brasil à região Sudeste e também para a ocupação do oeste catarinense porque as terras baratas atraíram muitos descendentes de imigrantes. Um deles foi Atílio Fontana, o fundador da Sadia em Concórdia, que migrou de Santa Maria (RS) para o oeste catarinense na década de 1920 e construiu seu sucesso empresarial aproveitando-se das facilidades de transporte de cargas advindas da ferrovia que ligava São Paulo à Santa Maria. A ferrovia, ao mesmo em tempo em que facilitava o escoamento da produção agrícola da região, também trazia produtos manufaturados de São Paulo para serem comercializados na região. Ao longo do século XX, a mesorregião Oeste Catarinense tornou-se destaque nacional no setor agroindustrial, com empresas como Sadia, Perdigão, Seara e Aurora.

Recentemente, as empresas Sadia e Perdigão passaram por um processo de fusão comercial, dando origem à Brasil Foods, uma das maiores companhias do mundo no setor de alimentos (AMANHÃ, 2015).

Segundo IBGE (2015), Santa Catarina têm 6,8 milhões de habitantes, que corresponde a 3,3% da população total do Brasil, estimada em 204 milhões de habitantes. Em relação à região Sul, o Estado tem 23,2% da população, estimado em 29,2 milhões de habitantes. Com apenas 1,1% do território nacional, Santa Catarina tem respondido por aproximadamente 4% do PIB nacional distribuídos na indústria (34,1%), em comércio e serviços (59,2%) e na agropecuária (6,7%). Segundo IBGE (2012), o PIB do Paraná foi de R$ 255,9 bilhões, do Rio Grande do Sul R$ 277,6 bilhões e de Santa Catarina R$ 177,2 bilhões. A taxa de urbanização passou de 43% em 1970 para 84% em 2010.

O Estado tem também o menor índice de analfabetismo do Brasil e a quarta melhor nota do Exame da área de educação conhecido como PISA[3] entre os 26 estados da federação brasileira. Também ocupa o terceiro lugar no ranking nacional do IDHM. Com o indicador em 0,774, em uma escala que vai de 0 a 1, Santa Catarina ficou atrás apenas do Distrito Federal (0,824) e de São Paulo (0,783) na avaliação do Desenvolvimento Humano. O PIB do Estado de Santa Catarina é de 4% do PIB do Brasil.

O Setor da Indústria, que representava 35,9% do PIB em 2004 atualmente é responsável por 32,7% do PIB de Santa Catarina. O Setor da Agropecuária teve sua participação reduzida de 9,7% para 4,3% no mesmo período. O Setor de Comércio e Serviços teve sua participação aumentada de 54,4% para 62,1%.

Figura 6- Evolução do PIB de Santa Catarina

Em 2012, Santa Catarina ocupou a sexta posição entre todos os Estados brasileiros em relação ao PIB, ficando atrás dos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná.  Já em relação ao volume de  vínculos empregatícios formais, o Estado representa um percentual aproximado de 4,5% do total do de empregos formais do país (sétima posição). Na Tabela 1 é possível observar a evolução do número de empregos formais do Estado de Santa Catarina em comparação com o número total de empregos no país entre os anos de 2006 a 2015.

Tabela 1- Evolução do volume de empregos formais: SC e Brasil  (2006 a 2015)

Anos Número de vínculos empregatícios formais (2006 a 2015)
Brasil Santa Catarina % empregos

SC/BR

2006 35.155.249 1.598.454 4,55
2008 39.441.566 1.777.604 4,51
2010 44.068.355 1.969.654 4,47
2012 47.458.712 2.103.002 4,43
2014 49.571.510 2.273.933 4,59
2015 48.060.807 2.214.292 4,60
Crescimento percentual  (%) 36,7 % 38,5% 4,52 %

Fonte: Elaboração própria a partir da RAIS (2006 a 2015)

O Estado de Santa Catarina teve um crescimento de 38% do volume de empregos formais no período considerado, quase 2% superior ao crescimento do volume de empregos formais do Brasil.

As atividades econômicas de Santa Catarina estão distribuídas por todas suas mesorregiões. Essa pode ser considerada uma vantagem competitiva, uma vez que o Estado não depende de apenas uma atividade produtiva preponderante, o que garante maior estabilidade econômica.

Para Kieckbusch (2004), é possível avaliar a concentração das principais atividades econômicas de uma mesorregião por meio do cálculo do Quociente Locacional (QL), que qualifica a diferença entre a concentração de uma determinada atividade em uma dada mesorregião em relação à distribuição da mesma atividade no Estado. Tem sido convencional interpretá-lo como um índice significativo da especialização regional quando supera o valor de 1,2. O Quociente locacional do setor “i” na mesorregião “j” é dado pela seguinte equação:

QLij = (Eij/Ei.) / (E.j/E..)

Onde: “Eij” é a variável-base do setor i da mesorregião j; “Ei” é somatório da variável-base dos setores da mesorregião “j”; “E.j” é o somatório da variável-base dos setores “i” da economia estatual e  “E..” é o somatório da variável-base dos setores da economia estadual. Como exemplo, calculou-se que para a mesorregião Oeste Catarinense o Quociente Locacional (QL) do Grupo “abate” (CNAE 2.0) é de 4,95.  Para tanto, observou-se que o número de empregos formais no grupo “abate” na mesorregião Oeste em 2014 foi de 41.232. Já o número de empregos formais no grupo “abate” todas as mesorregiões catarinenses foi de 49.877. Ou seja, a maioria dos empregos nessa atividade concentra-se na mesorregião Oeste. O número de empregos formais em todos os grupos na mesorregião Oeste é de 379.546. Já o número de empregos em todos os grupos e em todas as mesorregiões catarinenses no ano de 2014 foi de 2.273.933.

QL = (41.232/49.877) / (379.546/2.273.933) = 4,95

Kieckbusch (2004) desenvolveu esse cálculo para os principais grupos de atividades de Santa Catarina. Na Figura 7 tem-se a identificação das regiões geoeconômicas mostradas do Estado, obtidas por meio dessa metodologia.

Figura 7-  Principais atividades econômicas distribuídas nas mesorregiões catarinenses. Fonte: Adaptado de FIESC (2014)

Os principais complexos industriais do Estado estão descritos no Quadro 1.

Quadro 1– Principais complexos industriais catarinenses.

Complexos Principais

Concentrações

Eletro-metal-mecânico Joinville e Jaraguá do Sul
Têxtil e vestuário Blumenau e Brusque
Agroindustrial Chapecó, Concórdia e Videira
Florestal Lages, Mafra e São Bento do Sul
Mineral e Cerâmico Criciúma, Tubarão e Urussanga
Tecnológico Florianópolis, Blumenau e Joinville

Fonte: FIESC (2014)

Em 2015, segundo a Revista Amanhã[4], as dez maiores empresas exportadoras de Santa Catarina eram: Brazil Foods, Seara Alimentos, WEG Equipamentos Elétricos S/A, Cooperativa Central Oeste Catarinense –  Aurora, Tupy S/A, Whirlpoll S/A,  Souza Cruz S/A, Coamo, Bunge Alimentos e JBS Aves. Os Estados Unidos da América tem permanecido como principal destino das exportações catarinenses.

As características das mesorregiões catarinenses são ilustradas na Tabela 2. O PIB per capita médio varia de R$ 16.087,00, na mesorregião Serrana a R$ 22.613,00  na mesorregião Norte do estado (IBGE, 2010). O IDHM varia de 0,745 na mesorregião do Vale do Itajaí a 0,684 na  mesorregião Serrana.

Tabela 2- Características gerais das mesorregiões catarinenses.

Mesorregião Número de municípios Área (km2) População

(2010)

IDHM

(2010)

PIB

per capita médio (R$)  (2010)

Gini

(2010)

Norte Catarinense 26 15928 1212843 0,734 22.613,00 0,485
Vale do Itajaí 54 13098 1508980 0,745 20.131,00 0,467
Grande Florianópolis 21 7355 994095 0,735 16.470,00 0,484
Serrana 30 22324 406741 0,684 16.087,00 0,473
Oeste Catarinense 118 27310 1200712 0,731 18.142,00 0,473
Sul Catarinense 44 9718 925065 0,744 17.821,00 0,465
Dados estaduais 293[5] 95733 6.248.436 0,729 18.544,00 0,475

Fonte: IBGE (2010)

Na Tabela 3 tem-se a distribuição dos empregos formais no ano de 2014 nos Grandes Setores Econômicos definidos pelo IBGE (Indústria, Construção Civil, Comércio, Serviços e Agropecuária). Como é possível visualizar, o setor de Serviços é o que mais se destaca em volume de empregos nas mesorregiões Oeste, Serrana e Grande Florianópolis. Na mesorregião Norte Catarinense é onde há a maior concentração percentual de empregos no Setor Industrial (40,3%), seguida da mesorregião do Vale do Itajaí (36,1%).  A mesorregião Serrana é onde se tem o maior percentual de empregos no Setor de Agropecuária (9,1%).  No Setor de Serviços o destaque fica para a mesorregião da Grande Florianópolis, com 65,9% dos empregos formais.

Tabela 3 – Distribuição dos empregos formais em Santa Catarina.

Mesorregião Grandes Setores da Economia

 

Indústria Construção Civil Comércio Serviços Agropecuária Total
Oeste Catarinense 130.066 15.497 73.568 136.785 17.694 373.610
Norte Catarinense 168.021 13.663 76.846 152.170 6.375 417.075
Serrana 25.350 3.825 22.037 39.452 9.113 99.777
Vale do Itajaí 205.650 26.764 121.300 210.514 5.197 569.425
Grande Florianópolis 49.492 24.162 87.128 316.769 2.822 480.373
Sul Catarinense 97.437 11.836 63.819 98.257 2.683 274.032
Total 676.016 95.747 444.698 953.947 43.884 2.214.292

Fonte: Elaboração própria a partir da RAIS (2015).

Apesar de concentrar o maior volume de empregos formais no Estado, a evolução percentual do número de empregos entre os anos 2005 e 2015 da Região Norte Catarinense só é maior que a da Região Serrana. N

Em 2010, o setor de serviços foi responsável por 59,2% do Valor Adicionado Bruto (VAB[6]) Catarinense, seguido pela indústria, 34,1% e agropecuária, 6,7%. No mesmo ano, o Brasil apresentou uma participação dos serviços de 66,6%, seguido pela indústria, 28,1% e agropecuária, 5,3%.

A mesorregião mais populosa de Santa Catarina é a do Vale do Itajaí, com mais de um milhão e quinhentos mil habitantes. Essa mesorregião se destaca por possuir grande densidade populacional contando com 54 municípios que ocupam uma área de pouco mais de 13.000 km2. A distribuição da densidade populacional dos municípios catarinenses e a taxa de crescimento populacional são mostradas nas Figuras 8 e 9.

Figura 8- Densidade populacional das microrregiões catarinenses

Figura 9 – Taxa de crescimento populacional das microrregiões catarinenses.

Nos dez municípios mais populosos[7] vivem 39% da população total do Estado de Santa Catarina, conforme mostrado na Tabela 4.

Tabela 4 – Características dos 10 municípios mais populosos de Santa Catarina.

Município População

(2010)

IDH-M

(2010)

PIB a preços correntes (2010)

(x R$ 1.000,00)

PIB per capita a preços correntes (2010)  (R$)
Palhoça 137.334 0,757 2.018.747 14.714,01
Jaraguá do Sul 143.123 0,803 5.259.384 36.726,01
Lages 156.727 0,77 2.694.965 17.194,18
Itajaí 183.373 0,795 15.235.108 83.075,82
Chapecó 183.530 0,79 4.149.295 22.604,45
Criciúma 192.308 0,788 3.566.411 18.552,25
São José 209.804 0,809 4.784.758 22.729,04
Blumenau 309.011 0,806 8.950.141 28.944,81
Florianópolis 421.240 0,847 9.806.534 23.282,2
Joinville 515.288 0,809 18.473.990 35.854,42
Dados resumidos: Total:

2.451.738

Média

0,7974

Total:

74.939.333,00

Média:

R$ 30.367,72

Fonte: Elaboração própria a partir de IBGE (2010)

Conforme Tabela 5, os 10 maiores municípios são responsáveis por 49% do pessoal total ocupado em empregos formais do Estado de Santa Catarina. Em relação ao número de empresas esses municípios são responsáveis por 40% do total do Estado.

Tabela 5- Número de estabelecimentos de acordo com o número de trabalhadores formais.

Município

 

Número de estabelecimentos de acordo com o número de trabalhadores formais.
De

0 a 4

De 5 a 9 De 10 a 19 De 20 a 49 De 50 a 99 De 100 a 249 De 250 a 499 Mais de 500 Total de empresas Número de trabalhadores formais
Palhoça 3.076 705 411 234 51 27 9 3 4.516 38.105
Lages 3.401 739 451 203 63 27 9 7 4.900 43.053
Criciúma 4.918 1.163 589 287 84 49 25 14 7.129 67.642
Jaraguá do Sul 3.266 827 478 268 76 47 11 17 4.990 69.186
Chapecó 5.314 1.252 684 405 107 54 16 11 7.843 77.813
Itajaí 5.194 1.319 781 429 123 69 20 12 7.947 85.122
São José 4.984 1.425 756 439 116 58 25 20 7.823 106.715
Blumenau 7.281 2.015 1.232 638 181 90 47 27 11.511 132.925
Joinville 9.727 2.631 1.573 869 244 135 58 34 15.271 198.991
Florianópolis 11.876 3.118 1.603 933 242 132 43 61 18.008 277.290
Total 59.037 15.194 8.558 4.705 1.287 688 263 206 89.938 1.096.842

Fonte: Elaboração própria a partir de dados da RAIS (2015).

Há duas áreas no Estado de Santa Catarina classificadas como Territórios da Cidadania: Planalto Norte e Meio Oeste Contestado. O Programa foi criado por meio de um Decreto no ano de 2008 com os objetivos de promover o desenvolvimento econômico e universalizar programas básicos de cidadania por meio de uma estratégia de desenvolvimento territorial sustentável. Para fazer parte dos Territórios foram escolhidos os municípios de menor IDH; maior concentração de agricultores familiares e assentados da Reforma Agrária; maior concentração de populações quilombolas e indígenas; maior número de beneficiários do Programa Bolsa Família; maior número de municípios com baixo dinamismo econômico e maior organização social.

 

Figura 10- Territórios da cidadania em Santa Catarina

O Território da Cidadania Planalto Norte abrange uma área de 10.466,70 km² e é composto por 14 municípios: Campo Alegre, Canoinhas, Irineópolis, Itaiópolis, Mafra, Major Vieira, Matos Costa, Monte Castelo, Papanduva, Três Barras, Bela Vista do Toldo, Porto União, Rio Negrinho e São Bento do Sul. A população total do território é de 357.082 habitantes, dos quais 84.430 vivem na área rural.

O Território Meio Oeste Contestado abrange uma área de 8.288,10 km² e é composto por 29 municípios: Água Doce, Catanduvas, Coronel Martins, Entre Rios, Ipuaçu, Lajeado Grande, Luzerna, Ouro Verde, Passos Maia, Ponte Serrada, Vargem Bonita, Xaxim, Abelardo Luz, Bom Jesus, Capinzal, Erval Velho, Faxinal dos Guedes, Galvão, Herval d´Oeste, Ibicaré, Joaçaba, Jupiá, Lacerdópolis, Marema, Ouro, São Domingos, Treze Tílias, Vargeão e Xanxerê. A população total do território é de 271.996 habitantes, dos quais 72.666 vivem na área rural.

Em maio de 2016, o Governo do Estado de Santa Catarina instituiu por meio do Decreto no. 729/2016 o Programa Estadual de Desenvolvimento e Redução das Desigualdades Regionais. Por meio da Secretaria de Estado do Planejamento foi elaborado um mapa de elegibilidade que classificou as regiões de Santa Catarina em mais desenvolvidas, em transição e menos desenvolvidas. Essa classificação é resultado da associação de duas variáveis: renda domiciliar per capita média da população residente na região e Produto Interno Bruto per capita. Além disso, foram considerados dois indicadores complementares: evasão da população e a dinâmica do emprego formal. Utilizando esses parâmetros, o programa identificou 12 regiões com baixos índices de desenvolvimento em Santa Catarina: Caçador, Campos Novos, Canoinhas, Curitibanos, Dionísio Cerqueira, Ituporanga, Lages, Laguna, Quilombo, São Joaquim, São Lourenço do Oeste e Taió.

Figura 11 – Mapa da elegibilidade de Santa Catarina – adaptado de SANTA CATARINA (2016).

Apesar do uso de critérios diferentes pelo Governo Federal e Estadual, há coincidência de algumas regiões menos desenvolvidas com as áreas definidas pelo Programa Territórios da Cidadania como o Planalto Norte e o Noroeste do estado. A região Serrana tem os piores indicadores socioeconômicos do Estado e faz parte do mapa da elegibilidade como menos desenvolvida.

[1]  A Vossko do Brasil Alimentos Congelados Ltda., empresa de origem alemã, foi fundada em Lages no ano de 2003; a Klabin é a maior fábrica de produção e exportação de celulose e papéis para embalagens; a AMBEV surgiu em 1999 após a fusão das cervejarias Brahma e Companhia Antarctica.

[2] José Maria da Silva Paranhos Júnior estudou no Colégio Pedro II. Foi um advogado, diplomata, geógrafo e historiador brasileiro que viveu entre os anos de 1845 a 1912. Foi responsável pela negociação de diversas questões relativas às fronteiras brasileiras: Santa Catarina, Acre e Amapá.

[3]O Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) é uma avaliação internacional que mede o nível educacional de jovens de 15 anos por meio de provas de Leitura, Matemática e Ciências. O exame é realizado a cada três anos pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

[4] http://www.amanha.com.br/posts/view/1686

[5]  Atualmente o Estado de Santa Catarina conta com 295 municípios. Os dois mais recentes são: Pescaria Brava, que se emancipou de Laguna e Balneário Rincão, que se emancipou de Içara.

[6]     Segundo o IBGE (2013) entende-se como Valor Adicionado Bruto a contribuição ao produto interno bruto pelas diversas atividades econômicas, obtida pela diferença entre o valor bruto de produção e o consumo intermediário absorvido por essas atividades. O Valor Adicionado Bruto – VAB a preços básicos corresponde ao valor que a atividade econômica acrescenta aos bens e serviços consumidos no seu processo produtivo. Já o Valor da Transformação Industrial –  VTI  é a diferença entre o valor bruto da produção e os custos das operações industriais, exibindo o quanto de valor foi incorporado no produto fabricado no setor.

[7]  Joinville, Florianópolis, Blumenau, São José, Criciúma, Chapecó, Itajaí, Lages, Jaraguá do Sul e Palhoça.

REFERÊNCIAS:

CROCETTI, Zeno Soares. Evolução Sócio-Espacial do Paraná – Estudos de Geografia Econômica do Paraná. Dissertação de Mestrado. UFSC. Florianópolis. 2007

_________. Formação Sócio-espacial do Paraná. Tese de doutorado. UFSC. Florianópolis. 2012.

FERRARI, Maristela. Conflitos e Povoamento na Zona de Fronteira Internacional Brasil-Argentina: Dionísio Cerqueira (SC), Barracão (PR) e Bernardo de Irigoyen (MNES., ARG.). In: Dissertação de Mestrado. UFSC. Florianópolis 2003.

RAUD, Cécile. Indústria, território e meio ambiente no Brasil: perspectiva da industrialização descentralizada a partir da análise da experiência catarinense. Florianópolis: Ed. da UFSC; Blumenau: Ed. da FURB.1999

KIECKBUSCH, Rafael Ernesto. Metodologia de identificação de atividades econômicas potenciais. Florianópolis: Dissertação de Mestrado. UFSC.  Florianópolis. 2004.

GOULARTI FILHO, Alcides. Formação econômica de Santa Catarina. 2ª edição. Editora da UFSC. Florianópolis. 2007.

FILIPPON, Maria Isabel. A Casa do Imigrante Italiano, a Linguagem do Espaço de Habitar. Dissertação de Mestrado. Universidade de Caxias do Sul. Caxias do Sul. 2007.

PEREIRA, Raquel Maria Fontes do Amaral. Formação sócio-espacial do litoral de Santa Catarina (Brasil): gênese e transformações recentes. In: Revista GEOSUL, Florianópolis. v 18.n.35, 2003

LOURENÇO, Roberto. 1516: 500 anos da chegada dos espanhóis a Santa Catarina: expedições espanholas pelo litoral catarinense entre 1500 e 1600. Ed. Rastros. Jaraguá do Sul.  2016.

PERIS, Alfredo Foncesa. Estratégias de Desenvolvimento Regional Região Oeste do Paraná. Unoeste. Cascavel. 2008.

PIPPI, Gladis Maria; MÜLLER, Nelci.  300 anos da Redução Jesuítica de Santo Ângelo Custódio. Santo Ângelo: EDIURI, 2007.

CALDEIRA, Jorge et al. História do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

WAIBEL, Leo. Capítulos sobre Geografia Tropical. Editora IBGE. 1979.

SILVEIRA, Márcio Rogério. A Importância Geoeconômica das Estradas de Ferro no Brasil. Tese de Doutorado. Unesp. Presidente Prudente. 2003.

MAMIGONIAN, Armen. Estudo geográfico das indústrias de Blumenau. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 1966.

AMANHÃ. 500 maiores do Sul. 2015. Disponível em: <http://www.amanha.com.br/500maiores/>  Acesso em 10 nov.2016.