Um novo modelo de Gestão para o IFSC

Caros colegas, ainda hoje me perguntam por que concorri ao cargo de Reitor do IFSC, com praticamente nenhuma chance de vitória e durante a realização do doutorado. O objetivo principal foi apresentar um novo modelo de gestão para o IFSC.

Minha principal motivação foi contribuir para o debate de ideias sobre o futuro de nossa instituição. O modelo de gestão implantado atualmente tornou-se burocrático e centralizador e não é capaz de atender as necessidades de uma instituição que passou de 3 campus para 22 em uma década. Sabemos que dá para fazer diferente. Que é possível mudar e inovar na gestão. Para isso trazemos a experiência de ex-diretor de campus, de ex- pro reitor e ex-reitor pro tempore de 3 institutos nos 3 estados do sul do Brasil. Aprendemos muito com essas experiências. O bastante para entender algo bem simples – que os nossos estudantes, a razão de nossa existência estão nos câmpus. Por isso os câmpus tem que ser protagonistas do processo ensino-pesquisa-extensão. Os câmpus estão próximos das necessidades de sua comunidade e por isso têm a capacidade de exercer sua autonomia sem intermediários. A reitoria tem o papel de mediação e de integração dos câmpus. Seu papel é político estratégico e não operacional. Os docentes e TAEs dos câmpus precisam de autonomia para exercer bem suas funções, sem burocracia e sem o peso do controle da Reitoria.

O IFSC contava só com 3 campus em 2005. De 2005 a 2014 foram instalados mais 19 câmpus. Hoje contamos com 22 câmpus. O Instituto Federal Catarinense é nossa instituição irmã, com sede em Blumenau. Eles têm hoje 15 câmpus. Alguns deles atuam na mesma área de abrangência territorial do IFSC. Esse é um dos desafios. Como articular a oferta de cursos, promover a pesquisa e a extensão de forma coordenada na mesma região. Outro desafio é a conclusão das obras dos novos câmpus, a restruturação dos câmpus mais antigos e a aquisição dos laboratórios que ainda estão faltando. Temos que continuar contratando novos professores e novos TAEs, para que cada câmpus possa atender na plenitude suas comunidades. Um outro desafio da expansão é garantir que em todos os câmpus, o modelo de gestão democrático-participativa que é uma marca registrada do câmpus São José possa se tornar efetivo na solução dos problemas locais. Temos o desafio de construir juntos programa de formação continuada de professores e TAEs. A expansão foi muito rápida e nem sempre foi possível garantir que o câmpus tivesse todos seus processos pedagógicos e administrativos consolidados. Por isso precisamos parar de expandir agora para organizar a casa. A expansão ampliou nossa capacidade de ação. Hoje já atendemos mais de 30 mil estudantes. Esse número era de pouco menos de 5 mil há 6 anos. Hoje estamos presentes em todas as mesorregiões do estado, nos maiores e nos menores municípios. Precisamos ampliar a autonomia de todos os câmpus, respeitando as limitações de pessoal de cada um para que todos possam exercer a maioridade que lhes é de direito em todas as mesorregiões.

De forma bem direta. Tem que acabar de vez com a atual centralização e com a burocracia que está emperrando a iniciativa e a capacidade criativa dos estudantes, TAEs e docentes. E apesar de tanta informação ainda não temos acesso a informações importantes de forma ativa. É preciso abrir mais os gastos públicos para pessoas comuns. Os relatórios devem ser esclarecedores. A transparência é a informação chegar de forma simples para os usuários. E precisamos garantir a AUTONOMIA que os câmpus têm direito. Os câmpus não podem ter que pedir autorização para a Reitoria para encaminhar questões que envolvem o processo de ensino-pesquisa e extensão. Temos um regimento geral, um estatuto e os regimentos dos câmpus que precisam ser avaliados periodicamente. As regras mais importantes já estão estabelecidas. A gente precisa confiar mais nas pessoas e reduzir a burocracia, o controle e a centralização para que cada câmpus tenha autoridade em seus processos. Se algo não prejudica os demais câmpus do IFSC então toda iniciativa inovadora é bem vinda. E as boas práticas depois devem ser compartilhadas e reproduzidas sempre que possível. E para terminar é preciso melhorar o clima organizacional. Na gestão democrática é importante existir o contraditório e o respeito às diferentes formas de se pensar a instituição. E quando falamos que precisa melhorar muita coisa não quer dizer que a gente não reconheça os avanços da atual gestão. Ela teve o mérito de concluir as obras da expansão. Mas já cumpriu sua missão e não vejo que ela tenha condições de fazer as mudanças que precisamos. Em 2011 seu slogan para a eleição foi INOVAÇÃO, FORTALECIMENTO E AUTONOMIA. Mas o que vimos foi o fim da autonomia dos câmpus, o fortalecimento da reitoria.

Jamais podemos deixar que nossos cargos nos tirem a HUMILDADE para ouvir com a atenção às necessidades das pessoas que constroem o IFSC no dia a dia. Não é o Reitor que está nos câmpus dando aulas, organizando as licitações, atendendo na secretaria, dando apoio pedagógico. Então temos que ter a humildade de saber que nosso papel é o de ajudar para que os servidores docentes e TAEs façam bem feito seu trabalho. E não podemos perder de vista a ÉTICA DA RECIPROCIDADE: Devemos tratar nosso semelhante como gostaríamos de ser tratados. É fundamental colocar o êxito estudantil no centro das atenções – se o que se faz na Reitoria não estiver contribuindo para que o aluno aprenda mais e melhor então está se fazendo a coisa errada. Todos devem perceber de que forma seu trabalho implica no estudante. Porque isso dá um significado especial ao trabalho dos docentes e administrativos. Temos que valorizar nossos colegas TAEs e DOCENTES porque sabemos que pessoas valorizadas e motivadas fazem melhor seu trabalho. Nossos câmpus precisam ter autonomia pedagógica e administrativa, com descentralização e regionalização das ações. O ensino, a pesquisa e a extensão devem ser realizados de forma articulada e sempre pensando nas necessidades das regiões onde os câmpus estão instalados.

Tenho atuado há 22 anos no IFSC. E ingressei na profissão de docente logo depois de formado aos 23 anos. Como é de se esperar sem formação didática ou sem preparação alguma para a docência. Mas eu procurei ler muito sobre o assunto e sempre que podia discutia didática com o mestre prof. Hyppolito, que já possuía quase 40 anos de profissão. Aprendi com ele que se desejamos que nosso aluno aprenda é importante dar um significado especial para cada conteúdo. Não basta ensinar a resolver a equação. Tem que mostrar como ela foi descoberta ou desenvolvida. Tem que mostrar situações do cotidiano onde ela se aplica. Tem que primeiro encantar e conquistar a atenção e o respeito dos alunos. Também fui buscar inspiração nos melhores professores da engenharia mecânica: prof. Prata e Rogério Ferreira. Pois bem, o que quero dizer com toda essa história que o aprendizado dos alunos passa muito pela preparação, motivação e compromisso dos professores. Então vamos trabalhar para que os professores estejam motivados, capacitados para a docência. E a capacitação dos docentes depende também de formação não só em nível de mestrado e doutorado. Vamos regulamentar os estágios profissionais para os docentes. Dois anos depois de iniciar no IFSC eu tive uma experiência importante. Eu fiz um estágio de um mês em uma empresa de projetos e de instalação de climatização. Minhas aulas foram totalmente reformuladas porque eu consegui ver na prática o que meu aluno estava fazendo como profissional. E isso fez diferença porque minhas aulas passaram a ter mais significado.

Santa Catarina é um estado de grandes diversidades. Apesar de o estado possuir os melhores indicadores sociais e econômicos do país, quando a gente olha mais de perto as suas mesorregiões vemos diferenças grandes. Por exemplo, o PIB per capita da região norte é quase duas vezes o da mesorregião serrana. Isso tem influência no Índice de desenvolvimento humano e no índice gini de todas as regiões. No nosso site você encontra um relatório completo sobre os principais indicadores do estado. Considerando que o IFSC é uma instituição de abrangência estadual, devemos ter clareza e conhecimento da formação socioespacial de cada região quando pensamos no ensino, na pesquisa e na extensão. Por isso defendemos que as ações devem ser regionalizadas. Devem respeitar as características de cada região. Isso não significa que o IFSC não deve ter uma identidade. Devemos ter diretrizes comuns. Mas em cada mesorregião deve existir uma articulação para discussão dos problemas comuns. Isso é o que estamos chamando de regionalização de gestão. Como vamos fazer isso? De forma bem simples: É importante implantar em cada mesorregião os conselhos de desenvolvimento territorial composto pelos diretores de todos os câmpus do IFSC, do IFC, UFSC, Udesc do Sistema S, das secretarias da educação dos municípios, empregadores, egressos, estudantes e servidores que fazem parte da mesorregião. Esse conselho deverá discutir as necessidades regionais e avaliar se os cursos ofertados, se a pesquisa e a extensão desenvolvidas podem contribuir para o desenvolvimento regional. Esse conselho também poderá propor sugestões para que os diretores, pro-reitores e reitores. Considerando que o IFSC atua nas seis mesorregiões, vamos determinar que cada pró-reitor e que o Diretor executivo realize o acompanhamento semanal das dificuldades enfrentadas pelos câmpus de uma mesorregião específica. Ás vezes a dificuldade de uma mesorregião já foi superada por outra. Então é preciso compartilhar as experiências exitosas. Também é importante a realização de  eventos de integração regional a exemplo do SICT que acontece com êxito na região Sul. Incentivar que os câmpus se integram a partir de eventos realizados nas cidades em sistema de rodízio. Dessa forma os docentes e TAEs do oeste estarão mais integrados para solução dos problemas comuns. Precisamos superar a centralização e garantir que a solução para os problemas de cada mesorregião sejam superados com diálogo e transparência. Mas precisamos também garantir a identidade institucional e a articulação eficiente entre os câmpus. Regionalização sim, autonomia sim, mas com articulação estratégica da Reitoria.

Aprendi no câmpus São José a importância da GESTÃO DEMOCRÁTICA E DA PARTICIPAÇÃO. Hoje eu tenho ouvido dos colegas que os espaços democráticos até existem, mas em algumas situações eles são conduzidos sem a preocupação de ouvir com cuidado a contribuição das pessoas. Então você pode ter fóruns democráticos e não ter o mais importante: a participação. Às vezes uma ideia não é bem acolhida porque não foi bem compreendida. Por isso temos que garantir que as pessoas possam contribuir com suas ideias. Às vezes pode ser uma ideia inovadora que se perdeu porque não se abriu os ouvidos para ela. A gestão participativa deve ser fomentada e construída em cada espaço no IFSC. Lembro-me que em 2011, durante a gestão pro tempore de 5 meses realizamos 3 reuniões para discutir as questões de interesse dos servidores da Reitoria. Foram discussões produtivas que contribuíram para o bom encaminhamento das ações. As pessoas querem participar de verdade, não de faz de conta. Agora gostaria de contar um segredo para vocês. Tive a oportunidade de coordenar mais de uma centena de reuniões em minha vida e percebi que quando as pessoas participam mais, elas SE COMPROMETEM MAIS. Então, se a gente quer mais efetividade na gestão é preciso envolver as pessoas, chamar para que elas participem das decisões do dia a dia. Porque isso cria um ambiente de co-responsabilidade. Os recursos as vezes são limitados, então nada melhor perguntar para as pessoas onde elas preferem investir o dinheiro naquele ano. No ano seguinte da mesma forma. Os gestores dividem o peso da responsabilidade e todo mundo se sente um pouco mais responsável pela gestão. É simples, mas na prática não tem funcionado bem assim. E a participação, a democracia são direitos constitucionais previstos no artigo 206 da Constituição Federal. Então precisamos garantir que os Colegiados de cada câmpus sejam ativos na discussão dos problemas. Precisamos capacitar os representantes destes foruns para que saibam fazer análise de cenários e compreendam a importância da participação coletiva. Precisamos valorizar esses representantes para que eles tenham tempo e condições de discutir com seus pares os problemas que serão colocados em apreciação. E precisamos ter transparência para que todos possam acompanhar em tempo real o que está acontecendo. Lá no IF-Farroupilha propusemos que as reuniões do CONSUP fossem transmitidas pela internet e conseguimos. Porque tudo o que se discute nesses espaços são assuntos públicos e de interesse da sociedade.

Os institutos federais devem sim realizar atividades de pesquisa! Porém, entendemos que a nossa vocação para pesquisa é diferente. Acreditamos que as atividades de pesquisa no IFSC devem, sempre que possível, auxiliar no desenvolvimento tecnológico, social e cultural das regiões onde os câmpus se inserem.  O IFSC conta atualmente com mais de uma centena de grupos de pesquisa cadastrados e certificados pela instituição. Vários grupos possuem linhas de pesquisa similares, entretanto desenvolvem suas atividades de forma desarticulada. Precisamos fomentar à criação de núcleos de pesquisa articulados e alinhados a nossa atuação institucional. (ii) Criação de novos programas de pós-graduação: A Lei nº 11.892 define os objetivos dos Institutos Federais e dentre eles nos possibilita a oferta de cursos de pós-graduação lato sensu e stricto sensu. Atualmente cerca de um  quarto dos docentes do IFSC possuem o título de doutor, porém o IFSC possui apenas um único programa de pós-graduação stricto sensu (Mestrado Profissional em Mecatrônica – Campus Florianópolis). Acreditamos que os pesquisadores do IFSC poderiam contribuir de forma mais efetiva, desenvolvendo suas atividades de pesquisa atuando em programas de pós-graduação. Sabemos que a criação de novos programas de pós-graduação envolve muito esforço e trabalho coletivo, sendo assim precisamos criar condições de trabalho que viabilizem o desenvolvimento de atividades de pesquisa em nossa instituição. (iii) Incentivo à criação de empresas júnior e hotel de projetos: falar que posteriormente pode-se estimular as empresas criadas (incubadoras de empresa) Entendemos que o processo de consolidação da pesquisa em uma instituição de ensino é um processo gradual. Precisamos inserir a cultura da pesquisa e inovação em nossa instituição, dando condições para que os servidores que possuem esse perfil possam desenvolver suas atividades de pesquisa de forma adequada e contribuir para que o IFSC se torne uma referência quando o assunto for pesquisa e inovação.

Uma instituição de ensino é um espaço onde devemos dar exemplo de conduta e de ética. Uma instituição educacional é antes de tudo um espaço de emancipação e preparação de cidadãos para a convivência social. Essa convivência respeitosa e democrática deve levar em consideração a pluralidade de ideias. Em uma instituição educacional, exercitamos o que esperamos ser o ideal de nossa sociedade. Nesse exercício democrático, os alunos se transformam e logo depois podem transformar suas comunidades com novas ideias e concepções.

Atenciosamente,

Prof. Jesué Graciliano da Silva