Um novo modelo de gestão

Há dois anos, junto com diversos colegas, participamos do processo eleitoral do IFSC com o objetivo de fortalecer o debate de ideias sobre o futuro da instituição. Penso que vencemos no quesito “fair play“. Também aprendemos muito a partir do diálogo com os estudantes e colegas. Infelizmente, em alguns câmpus, nem tivemos a oportunidade de mostrar nossas propostas mesmo havendo agendamento para tanto. Os debates foram os únicos momentos em que houve igualdade de condições para discussão e esclarecimento das propostas.

A postagem a seguir é uma releitura de algumas questões trazidas naquele momento.

A partir das conversas que realizamos durante a pesquisa de doutorado ficou evidente que precisamos construir um novo “pacto institucional”.  As discussões para constituição do IFSC ocorreram há 10 anos. Mas muitas expectativas vem sendo frustadas ao longo do tempo. A principal delas está associada à ampliação da autonomia dos câmpus em relação à Reitoria. A comunidade acadêmica votou no plebiscito em um caminho diferente do que vem sendo trilhado.

VANTAGENS

Levamos para a campanha a experiência de diversos  ex-diretores de campus. No meu caso particular, levei o aprendizado como diretor, ex-pró reitor e ex-reitor pro tempore do IFSC, IF-Farroupilha e IF Paraná. Aprendemos o bastante para entender algo bem simples: que os estudantes, a razão de nossa existência, estão nos câmpus.

foto transformacao (8)

Por isso, os câmpus devem ser protagonistas do processo ensino-pesquisa-extensão, uma vez que estão próximos das necessidades de suas comunidades. A reitoria tem o papel de mediação. Seu papel é político estratégico e não operacional como vem acontecendo. Os docentes e TAEs dos câmpus precisam de autonomia para exercer bem suas funções, sem burocracia e sem o peso do controle.

É preciso confiar mais na criatividade das pessoas, deixando que os câmpus manifestem suas diferenças em sintonia com os aspectos culturais e socieconômicos locais. Quando não há prejuízo aos demais câmpus, toda inovação precisa ser bem vinda e compartilhada. Essa postura tem o poder de contribuir para a melhoria do clima organizacional. Na gestão democrática é importante respeitar as diferentes formas de  pensar a instituição.

É preciso mais HUMILDADE para ouvir com a atenção as necessidades das pessoas que constroem a instituição no dia a dia. O papel da reitoria é o de ajudar para que os servidores docentes e TAEs façam bem feito seu trabalho.

É fundamental colocar o êxito estudantil no centro das atenções. Porque isso dá um significado especial ao trabalho dos docentes e TAES.

O IFSC contava só com 3 campus em 2005. De 2005 a 2014 foram instalados mais 19 câmpus. Hoje contamos com 22 câmpus. O Instituto Federal Catarinense, com sede em Blumenau, tem hoje 15 câmpus. Alguns deles atuam na mesma área de abrangência territorial do IFSC. Esse é um dos desafios.

Como articular a oferta de cursos, promover a pesquisa e a extensão de forma coordenada na mesma região?  Como consolidar os câmpus localizados nos municípios menores e garantir a manutenção dos câmpus mais antigos?  Outro desafio da expansão é garantir que em todos os câmpus, o modelo de gestão democrático-participativa – que sempre foi uma marca registrada do câmpus São José – possa se tornar efetivo na solução dos problemas locais.

Tenho atuado há 24 anos no IFSC.  Ingressei na profissão de docente na antiga Escola Técnica Federal logo depois de formado aos 23 anos. Apesar da experiência como monitor de algumas disciplinas na Engenharia Mecânica da UFSC não possuía uma preparação formal para a docência.

Procurei ler muito sobre o assunto e me capacitar ao longo do tempo. Sempre que podia discutia didática com prof. Hyppolito, que já possuía quase 40 anos de docência. Aprendi com ele que se desejamos que nosso aluno aprenda é importante dar um significado especial para cada conteúdo. Não basta ensinar a resolver a equação. Tem que mostrar como ela foi descoberta ou desenvolvida. Tem que mostrar situações do cotidiano onde ela se aplica. Tem que primeiro encantar e conquistar a atenção e o respeito dos alunos.

Por isso é fundamental garantir que os professores estejam motivados e capacitados para a docência. E a capacitação dos docentes depende também de formação não só em nível de mestrado e doutorado. É importante se ampliar as oportunidades de estágios profissionais e de capacitação horizontal. No início da carreira fiz um estágio de um mês em uma empresa de climatização, o que me proporcionou uma maior compreensão sobre a área. Há diversas possibilidades como cursos de imersão de inglês, produção de material didático, uso de novas tecnologias entre outros.

Santa Catarina é um estado de grandes diversidades. Apesar de possuir os melhores indicadores sociais e econômicos do país, quando a gente olha mais de perto as suas mesorregiões vemos diferenças grandes. Por exemplo, o PIB per capita da mesorregião Norte é quase duas vezes o da mesorregião Serrana. Isso tem influência no Índice de Desenvolvimento Humano e no índice Gini de todas as regiões. Considerando que o IFSC é uma instituição de abrangência estadual, devemos ter clareza e conhecimento da formação socioespacial de cada região quando pensamos no ensino, na pesquisa e na extensão. Por isso defendemos que as ações de gestão devem respeitar as características de cada região. É preciso acolher a diversidade também no âmbito institucional.

Há diversos caminhos para promover mais regionalização. Como exemplo, é possível a criação dos Conselhos de Desenvolvimento Territorial composto pelos diretores dos câmpus do IFSC, do IFC, UFSC, Udesc do Sistema S, das secretarias da educação dos municípios, empregadores, egressos e representantes dos estudantes e servidores que fazem parte da mesorregião.

Aprendi no câmpus São José e com a professora Soni de Carvalho a importância da GESTÃO DEMOCRÁTICA E DA PARTICIPAÇÃO. Hoje tenho ouvido dos colegas que os espaços democráticos até existem, mas em algumas situações eles são conduzidos sem a preocupação de ouvir com cuidado a contribuição das pessoas. Então você pode ter fóruns democráticos e não ter o mais importante: a participação. Às vezes uma ideia não é bem acolhida porque não foi bem compreendida. Por isso temos que garantir que as pessoas possam expor suas ideias com tranquilidade sem risco de repressão.

A gestão participativa deve ser fomentada e construída em cada espaço. Lembro-me que em 2011, durante a gestão pro tempore, realizamos diversas reuniões para discutir as questões de interesse dos servidores da Reitoria. Foram discussões produtivas que contribuíram para o bom encaminhamento das ações. As pessoas querem participar de verdade, não de faz de conta.

Tive a oportunidade de coordenar mais de uma centena de reuniões em minha vida como gestor público. Aprendi que quando as pessoas participam mais, elas SE COMPROMETEM MAIS. Então, se a gente quer mais efetividade nas ações é preciso envolver as pessoas, chamar para que elas participem das decisões do dia a dia. Porque isso cria um ambiente de co-responsabilidade. Os recursos são limitados. Então nada melhor do que perguntar para as pessoas onde elas preferem investir o dinheiro disponível naquele ano. E pensar coletivamente alternativas para o aumento de recursos. No ano seguinte da mesma forma.

Os gestores dividem o peso da responsabilidade. E a participação e a democracia no ambiente escolar são direitos constitucionais previstos no artigo 206 da Constituição Federal. Então precisamos garantir que os Colegiados de cada câmpus sejam ativos na discussão dos problemas. Nesse contexto é fundamental empoderar e valorizar os representantes para que eles tenham tempo e condições de discutir com seus pares os problemas que serão colocados em apreciação nas reuniões. Para isso é preciso transparência para que todos possam acompanhar em tempo real o que está acontecendo.

Os Institutos devem realizar cada vez mais pesquisa e extensão. Penso que as atividades de pesquisa no IFSC devem, sempre que possível, auxiliar no desenvolvimento tecnológico, social e cultural das regiões onde os câmpus se inserem.  O IFSC conta atualmente com mais de uma centena de grupos de pesquisa cadastrados e certificados. Vários grupos possuem linhas de pesquisa similares, entretanto desenvolvem suas atividades de forma desarticulada.

Uma instituição educacional é antes de tudo um espaço de emancipação e preparação de cidadãos para a convivência social. Essa convivência respeitosa e democrática deve levar em consideração a pluralidade de ideias. Nela exercitamos o que esperamos ser o ideal de nossa sociedade. Nesse exercício democrático, os alunos se transformam e logo depois podem transformar suas comunidades com novas ideias e concepções. Por isso é preciso saber divergir com respeito e, preferencialmente, construir consensos a partir de um diálogo franco e respeitoso com aqueles que pensam diferente.

Atenciosamente,

Prof. Jesué Graciliano da Silva