Valorização da atividade docente

Há alguns anos assisti um filme chamado “Taare Zameen Par”, que em indiano significa “Como estrelas na Terra”. No youtube o nome do filme está traduzido como: “Somos Todos Diferentes”. Uma lição de vida.

Ele chama a atenção para alguns dilemas da docência. Mostra o óbvio, mas que é esquecido por muitos: cada ser humano evolui em seu tempo e por isso a educação deveria ser cada vez mais individualizada. Conheci diversos professores que preferiam dar aulas somente para os estudantes com melhores notas. Mas são principalmente os estudantes com mais dificuldades de aprendizagem que precisam dos melhores professores.

Já presenciei discussões onde colegas falavam mal dos estudantes de determinadas turmas acusando-os de mal saberem ler e escrever. Já ouvi colegas dizendo que não fizeram doutorado para dar aulas no PROEJA. Em uma instituição pública que defende a inclusão nunca entendi essa abordagem como sendo ética.

Penso que devemos ter o ensino como carro-chefe e toda pesquisa e extensão realizada nos Institutos Federais deve envolver os estudantes.  Quando estes colocam em prática o que aprenderam em sala de aula compreendem o verdadeiro significado do conhecimento científico e tecnológico.

Todos são capazes de se desenvolver, cada um em seu próprio ritmo.  Mas em uma turma com 30 ou 40 estudantes fica difícil ao docente dar uma atenção mais individualizada. Mas podemos pensar em alternativas de tornar mais eficazes os horários de atendimento paralelo, de monitoria, de tutoria e de apoio pedagógico. Nas séries iniciais já existem experiências exitosas em que 2 docentes atuam em conjunto na mesma sala de aula. O desafio do desenvolvimento dos jovens com mais dificuldades precisa ser assumido também pelas famílias. No filme fica evidente que os pais não sabem como ajudar. Mas podem se tornar parceiros dos docentes.

Já observei alguns colegas usando o mesmo plano de ensino da turma da manhã para os alunos do noturno. Mas é evidente que estudantes do noturno têm características diferentes que precisam ser compreendidas.

Penso que devemos conhecer as características de cada estudante de uma nova turma antes mesmo de escrever o plano de ensino. Cada estudante deveria ter um prontuário, o que tornaria possível a adoção de uma abordagem customizada. Cada pessoa tem uma forma de aprender que é diferente.

Na área de liderança David Kolb publicou um interessante estudo sobre esse assunto. A ENAP fez uso dessa metodologia para capacitar os diretores dos campi dos institutos federais. Temos que conhecer nossas equipes para poder influenciar e inspirar. Cada ser humano apresenta necessidades diferentes. O que motiva uma pessoa não motiva outra. Por isso entendo que os mesmos princípios de gestão e de desenvolvimento de lideranças se aplicam nas salas de aulas.

Se sabemos que um estudante aprende de forma mais abstrata ele precisa receber estímulos nesse sentido. Há estudantes que aprendem melhor nas aulas práticas dos laboratórios. Precisam de experiências concretas. Todos conhecem aquela máxima de que aprendemos melhor quando ouvimos, vemos e fazemos.

Nas salas de aula estão as lideranças do futuro. A próxima geração de professores, empreendedores, médicos, engenheiros, dentistas, geógrafos, historiadores, políticos,  psicólogos, filósofos…

Entendo que as mesmas regras de feedback que se aplicam aos líderes se aplicam também aos estudantes: “nunca devemos dar um feedback negativo em público”.  E vejam que na prática temos dificuldades em dar um feedback em particular quando estamos ministrando as aulas. Muitas vezes dizemos para um estudante que a abordagem dele está equivocada. Mesmo que sejamos cuidadosos em dizer isso, precisamos lembrar que o estudante está diante de seus colegas. Dependendo como é realizado, nosso feedback negativo pode ter efeitos danosos na autoestima desses jovens e pode ter como resultado a retração e a falta de participação. Alguns estudantes vão escondendo suas dúvidas com medo da opinião dos colegas.

O filme trata dessas questões. Da forma como a criança se sente quando não consegue responder às expectativas de seus professores.

Muitas vezes o estudante se retrai por medo de errar e ser motivo de piada entre os amigos. Em muitas escolas tem sido utilizados VOTADORES ELETRÔNICOS durante as aulas para reduzir esse medo.

Uma determinada questão é apresentada e são mostradas possíveis respostas. Os alunos votam na resposta que entendem ser correta e o docente tem em tempo real a estatística em gráficos. Ele pode saber quais os estudantes tiveram mais dificuldades no assunto.

E pensar a educação de forma individualizada também vale para incentivar aqueles estudantes que apresentam altas habilidades. Em alguns países eles recebem atenção especial em horários extras. Em todas as populações há um percentual aproximado de 3% de alunos nessa condição. Isso significa que em um município de 20 mil pessoas é possível a existência de 600 delas com altas habilidades, muitas vezes em assuntos específicos. Poucos docentes são preparados para lidar com esses jovens, que as vezes são classificados como hiperativos ou portadores de transtorno de déficit de atenção.

Talvez estejamos perdendo a chance de desenvolvermos novos grandes pesquisadores do porte do Einstein, Newton, Tesla, Lattes, Oswaldo Cruz, Carlos Chagas, Vital Brasil, Paulo Freire, Rubem Alves e Alvaro Prata.

Em uma mesma turma há dezenas de histórias de vida. Alguns alunos vêm de família muito humilde. Alguns foram criados sem o apoio do pai ou da mãe, outros passaram fome. Outros vêm de famílias com melhor estrutura familiar. Outros têm que começar a trabalhar muito cedo para ajudar no sustento da família. Por isso é preciso refletir sobre a padronização excessiva. Por isso é tão importante a valorização e a formação de bons professores.

Há um estudo que afirma que na região Sul do Brasil apenas 2% dos estudantes desejam seguir a carreira docente.  É difícil mensurar com precisão essa expectativa, mas não há dúvidas que o desinteresse pela profissão de professor é um desafio para o futuro do Brasil.

Penso que a carreira docente deveria ser seguida pelos estudantes melhor preparados. Não estou dizendo que apenas os que tiram melhores notas deveriam ser os docentes. É preciso vocação para ensinar.  Essa vocação está associada à capacidade de simplificar assuntos complexos, à capacidade de lidar bem com conflitos diários, de trabalhar em grupo, de se apresentar em público com desenvoltura entre tantas outras habilidades complexas.

Basta analisar os resultados do ENEM para perceber que os estudantes que tiram as melhores notas, na maioria das vezes, procuram os cursos mais concorridos como medicina, odontologia, arquitetura, publicidade, etc. Gostaria que os cursos de licenciatura fossem procurados como a primeira opção desses estudantes.

Mas para isso seria preciso talvez que os docentes fossem os profissionais mais bem pagos. Isso acontece em diversos países mais desenvolvidos. Essa não é nossa realidade e precisamos refletir sobre isso. A atual crise política e econômica do país só tem feito agravar a precarização da atividade docente nos Estados e Municípios.

E não se esqueçam de assistir ao filme:

“O filme conta a história de uma criança que sofre com dislexia e custa a ser compreendida. Ishaan Awasthi, de 9 anos, já repetiu uma vez o terceiro período (no sistema educacional indiano) e corre o risco de repetir de novo. As letras dançam em sua frente, como diz, e não consegue acompanhar as aulas nem focar a atenção. Seu pai acredita apenas na hipótese de falta de disciplina e trata Ishaan de forma bastante rígida. Após serem chamados na escola para falar com a diretora, o pai do garoto decide levá-lo a um internato, sem que a mãe possa dar opinião alguma. Tal atitude só faz regredir em Ishaan a vontade de aprender e de ser uma criança. Ele, visivelmente entra em depressão, sentindo falta da mãe, do irmão mais velho, da vida… Inesperadamente, um professor substituto de artes entra em cena e logo percebe que algo de errado estava pairando sobre Ishaan. Não demorou para que o diagnóstico de dislexia ficasse claro, o que o leva a colocar em prática um ambicioso plano de resgatar aquele garoto que havia perdido sua vontade de viver”

Atenciosamente,

Professor Jesue Graciliano da Silva