Boas práticas em gestão educacional

Há algumas semanas recebi o convite para conversar com profissionais da rede pública do município de Canoinhas sobre gestão educacional.
Entre os assuntos de interesse tem-se a participação dos pais na educação dos filhos, a melhoria do clima organizacional, a formação permanente dos servidores,  a necessidade de avaliação institucional, técnicas de motivação, valorização dos profissionais da educação, organização do tempo e trabalho em equipe.
São preocupações muito pertinentes. Parte delas foram tratadas no livro: Do Discurso à Ação, escrito em 2007 em parceria com as colegas Nilva Schroeder e Silvana Ferreira Pinheiro e Silva.
No livro contamos um pouco da experiência que vivenciamos durante quatro anos na Direção do câmpus São José do então CEFET-SC. São outros tempos, mas a busca dos atuais dirigentes ainda é a mesma: tornar o espaço escolar um ambiente de permanente desenvolvimento, tanto dos estudantes quanto dos seus servidores docentes e administrativos.
Sabemos também que não é possível transplantar uma experiência que deu certo em um lugar para outro.
Mas boas práticas devem ser sempre compartilhadas para promover a reflexão.  O dirigente escolar, por conhecer seu ambiente de trabalho como ninguém, é quem deve avaliar se determinada prática exitosa pode ou não ser replicada com sucesso.
Resumidamente, aprendi algumas ideias simples como Diretor de câmpus:

1- A comunicação e transparência são a base da confiança e da participação. Os estudantes, pais e servidores acabam se envolvendo mais e confiando mais na gestão quando há transparência.

2- A participação no processo decisório contribui para a efetividade do processo pedagógico e administrativo. Quando uma pessoa participa do planejamento e ajuda a tomar as decisões, ela se compromete com a execução. Um planejamento participativo dá mais trabalho, mas tem mais chances de ser exitoso em sua implantação.

3- Planejamento e Avaliação permanente são estratégicos para promover a melhoria contínua da instituição. Quem não planeja não tem perspectiva do futuro. Quem não consegue medir, não pode melhorar nenhum processo. Muitos não gostam de avaliação pois entendem que é uma forma de controle. No entanto, a avaliação pode ser planejada em conjunto com os envolvidos para evitar que se transforme em caça às bruxas. A avaliação deve ser um instrumento de reflexão para a melhoria. Nossa perspectiva não é completa. Precisamos sempre do feedback e do olhar externo para perceber como nosso trabalho vem impactando no coletivo.

4- Ética da reciprocidade – Se tratamos os colegas como gostaríamos de ser tratados temos mais chances de estabelecer uma relação de respeito e um clima organizacional saudável. Em alguns estados os Diretores são nomeados ou concursados. Nesse caso precisam conquistar o respeito dos servidores e estudantes promovendo o diálogo permanente. O Diretor é um elemento estranho à instituição e deve ter a humildade de aprender mais sobre a cultura organizacional antes de propor mudanças. Em alguns casos os Diretores são eleitos. Nesse caso surgem tensões decorrentes das divergências de ideias do período eleitoral. É preciso ter a grandeza de compreender que uma vez passadas as eleições os estudantes merecem que exista um diálogo respeitoso entre aqueles que venceram e aqueles que foram derrotados.

O exercício da atividade de Direção com humildade e senso de justiça ético também é importante. Não basta falar, é preciso dar o exemplo no dia a dia.

Como Diretor de câmpus procuramos realizar ao final de cada ano uma avaliação da gestão. De todas as ações empreendidas a que mais foi valorizada pela comunidade foi a TRANSPARÊNCIA.

Com a expansão do CEFET-SC fui convidado a ocupar a função de Diretor de Gestão do Conhecimento. Uma das atribuições que recebi foi a de acompanhar e compartilhar a experiência do câmpus São José com os novos Diretores. Escrevemos o projeto de transformação do CEFET-SC em IFSC e ajudamos a construir a nova estrutura do IFSC. Como Pró-Reitor de Desenvolvimento Institucional coordenamos a elaboração do novo Estatuto, do novo Regimento e a implantação do novo Conselho Superior. Uma ação que realizamos foi o PROJETO GESTÃO INTERATIVA, onde os Diretores dos diversos campi compartilhavam suas experiências profissionais. O compartilhamento de boas práticas tornou-se um objetivo permanente.

Durante essa experiência junto à Reitoria do IFSC procuramos contribuir para que a instituição pudesse consolidar suas instâncias participativas e ampliar o nível de transparência. Também atuamos no sentido de promover a normatização e uniformização dos processos entre os campi, organizar o banco de servidores, desenvolver os novos servidores, planejar as ações, apoiar a expansão e estruturar a área de Tecnologia da Informação.

Com a renúncia da Reitora em 2011, assumimos o cargo de Reitor pro tempore durante cinco meses. Foi um período intenso, onde implantamos a flexibilização da jornada de trabalho, lançamos o II Fórum Mundial da Educação Profissional, organizamos o Fundo de Tecnologia da Informação, contribuímos para a discussão do Programa Ciência Sem Fronteiras e realizamos as eleições gerais para Diretores e Reitor. Criamos o blog Diário do Reitor que se tornou um canal de comunicação direta com os servidores  docentes / TAEs e estudantes.

Com isso foi possível amenizar os conflitos decorrentes da saída simultânea de 4 componentes da equipe da gestão da Reitoria, que foram atuar em Brasília. A TRANSPARÊNCIA mais uma vez foi a característica mais bem avaliada durante a gestão de transição. Os erros cometidos durante as primeiras semanas de gestão também serviram de aprendizado. Aconteça o que acontecer é preciso sempre manter aberto o diálogo respeitoso com aqueles que pensam diferente.

Uma vez concluída essa experiência, passei a atuar por 4 meses como Ouvidor-Geral do IFSC, quando ajudei a implantar o SERVIÇO DE INFORMAÇÃO AO CIDADÃO (SIC).

Em junho de 2012, fui chamado para ocupar a função de Reitor pro tempore do IF-Farroupilha. Havia um conflito instalado decorrente da não homologação dos resultados da eleição para Reitoria. Procuramos ouvir todas as partes envolvidas e mediamos um acordo que resultou na solução do problema no Conselho Superior depois de 20 dias de trabalho. Criamos mais uma vez o blog Diário do Reitor e mantivemos um canal de comunicação direta com a comunidade. Por estar atuando como um interventor do MEC, um cargo que não é bem recebido, foi importante mostrar que o objetivo era contribuir para a mediação do conflito e ajudar a instituição superar esse episódio da melhor maneira possível. Por existir muitas semelhanças entre os Institutos Federais foi possível compartilhar algumas ações que já havíamos desenvolvido no IFSC. Implantamos a Comissão de Ética,  a Pró-Reitoria de Desenvolvimento Institucional, a Ouvidoria, propomos a transmissão ao vivo do Conselho Superior, realizamos eleições para os novos campi e realizamos uma pesquisa de clima organizacional. Com isso foi possível perceber a importância de capacitar as novas lideranças para que estas assumam as funções da instituição. Criamos o Programa de Desenvolvimento dos Servidores e organizamos o livro Liderança Ética e Servidora, que foi compartilhado para a rede federal durante o REDITEC 2012.

Retornei para a Ouvidoria-Geral do IFSC com o objetivo complementar de realizar Oficinas de Gestão e Liderança nos campi.

Em 9 agosto de 2013 fui nomeado para ocupar a função de Reitor pro tempore do IFPR, um dia após da Operação Sinapse, que descobriu desvio de recursos da EAD. Mais uma vez criamos o Blog Diário do Reitor, e realizamos uma pesquisa de clima organizacional. Também implantamos o Programa de Desenvolvimento dos Servidores, apoiamos a Comissão de Ética, realizamos o SEPIN, os Jogos dos Institutos Federais e determinamos a implantação dos Colegiados dos campi. Também coordenamos a reestruturação da EAD do IFPR e estabelecemos um canal permanente de interlocução com o Sindicato para combater ações autoritárias e assédio moral.

Foram experiências distintas, em cenários distintos e momentos diferentes de minha carreira profissional. Mas em todas elas procuramos adotar alguns princípios básicos de liderança como a transparência, a ética, o fomento à participação e o desenvolvimento das pessoas. Nas quatro experiências (1 Direção e 3 gestões interinas) foram alcançados todos os objetivos programados.

Parte do que aprendemos nesse processo foi compartilhado no livro Liderança Ética e Servidora, publicado pela Editora do IFSC em 2014.

A liderança de um gestor público da educação deve ser capaz de INSPIRAR e engajar para a AÇÃO PARTICIPATIVA. Ninguém precisa ser Presidente, Prefeito, Diretor de câmpus ou coordenador para ser um líder. A verdadeira liderança vem da atitude, do caráter e da capacidade de influenciar e inspirar outras pessoas. Na história há vários exemplos de homens e mulheres que fizeram a diferença e que exerceram influência independente de ocuparem cargos. Entre eles, temos Jesus, Gandhi, Luther King, Dalai Lama, Nelson Mandela, Dra. Zilda Arns, Irmã Dulce e Betinho. Como vimos, essas pessoas têm algo em comum: a liderança ética e servidora.

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Como dizia o mestre Paulo Freire,
“Escola é…
Importante na escola não é só estudar,
É também criar laços de amizade,
É criar ambiente de camaradagem,
É conviver.
É se amarrar nela.
Ora, é lógico…
Numa escola assim vai ser fácil
Estudar,
Crescer, fazer amigos, educar-se,
Ser feliz”.
Atenciosamente,
Prof. Jesué Graciliano da Silva
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