Reforma política do fim do mundo

Quando o governo quer deslocar a atenção do grande público de um ponto para outro são criados fatos políticos que funcionam como uma cortina de fumaça. Com isso há a distração da população com apoio da mídia que não é isenta de intencionalidades. A atual Reforma Política é mais um desses factóides perigosos.  Muda tudo para continuar como está.

Atualmente o país enfrenta uma grave crise econômica e política decorrente dos desdobramentos da Operação Lava Jato, que tornou transparente como funciona o “toma lá-dá-cá” eleitoral.

Meu amigo Joaquim sempre me provoca dizendo que se o barril de petróleo estivesse custando 160 dólares tudo estaria “tranquilo”. Ou seja, tudo estaria acontecendo como sempre foi e nem saberíamos de nada ou não daríamos muita atenção para o problema. Escândalos sempre ocorreram e muitas vezes foram abafados com uso de grandes somas de dinheiro público.

Haveria muito dinheiro para cooptar os dissidentes políticos e para pagar a cumplicidade e omissão da grande mídia. Provavelmente nem teríamos a crise atual na Venezuela. Com dinheiro entrando com facilidade nos cofres públicos os investimentos em programas sociais (Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Pronatec, Mais Médicos por exemplo), grandes eventos (Jogos Pan Americanos, Olimpíadas e Copa do Mundo por exemplo), e grandes obras (transposição do Rio São Francisco, portos, ferrovias, estradas, estádios, refinarias, metrôs etc) estariam garantidos, atenuando os efeitos da crise mundial e dando fôlego à economia.

No mês passado o governo liberou aproximadamente 3 bilhões de reais em emendas parlamentares para garantir que a denúncia de corrupção realizada pelo Ministério Público não fosse investigada pelo Supremo Tribunal Federal. Nada muito diferente do que aconteceu em 2016 antes da votação do impeachment. Como foi amplamente noticiado, o ex-presidente se hospedou em um hotel de Brasília para negociar pessoalmente a liberação de emendas eleitorais e indicações políticas antes da votação do processo de impeachment.

Nessa semana o Ministro da Fazenda veio a público pedir a aprovação do novo déficit público e o congelamento de gastos públicos e salário dos servidores. Ou seja, o governo libera emendas para garantia de sustentação política, pelo menos provisória, e ao mesmo tempo aponta que devemos apertar os cintos com o congelamento de salários e cortes nos investimentos.

Para quem não sabe, as emendas eleitorais são utilizadas para que muitos deputados viabilizem a construção de obras públicas superfaturadas em seus redutos como creches, postos de saúde, asfaltamento de ruas, construção de viadutos etc. Há alguns poucos deputados que não agem assim. Fica para vocês descobrirem quem são… As obras são negociadas com os prefeitos da base eleitoral dos deputados federais de tal forma que as licitações sejam direcionadas para as construtoras da região, que não raras vezes estão em nome de laranjas. Há diversos mecanismos conhecidos para se fraudar as leis de licitação como o fracionamento das obras. Há também a compra de fiscais que fazem a medição do andamento das obras para que façam vista grossa ou aceitem as obras sem atender os requisitos dos editais. A criatividade para roubar o dinheiro público é infinita. Obras mal feitas garantem que dois anos depois sejam publicados  novos editais para reforma. Esse é um dos mecanismos mais utilizados para desviar dinheiro público para contas secretas e fundos eleitorais. Esse esquema foi muito bem detalhado nos livros: Dr Corrupção e Nobre Deputado. São leituras obrigatórias para quem deseja compreender como funciona o sistema eleitoral brasileiro.

Voltando para a Reforma Política é preciso lembrar que o STF proibiu a doação pelas empresas para as campanhas do ano passado. O que vimos foi a ampliação do uso do Caixa 2, do poder econômico e das doações de “laranjas”.

Uma interessante análise pode ser visualizada no site. 

“Mesmo com a proibição das doações empresariais e a queda no número total de arrecadações, a influência das empresas nas campanhas continua. Segundo relatório da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV-Dapp), que cruzou CPFs de doadores de candidatos à prefeitura do Rio de Janeiro com CNPJs ativos, 58 dos 59 maiores doadores na cidade ocupam altos cargos em alguma empresa, como sócio, diretor, administrador ou presidente. A maior parte destas empresas atuam na área de construção e engenharia ou no setor imobiliário. De acordo com a análise da FGV-Dapp, as novas regras sobre financiamento não conseguiram acabar com a influência do poder econômico nas campanhas eleitorais, já que o lobby das empresas ainda pode operar por meio de pessoa física dos sócios, proprietários, principais acionistas, diretores e presidentes de empresas”.

Vejam a discussão sobre a reforma política trazida pelo site ConJur:

“Segundo o voto vencedor, do ministro Luiz Fux, “a doação por pessoas jurídicas a campanhas eleitorais, antes de refletir eventuais preferências políticas, denota um agir estratégico destes grandes doadores, no afã de estreitar suas relações com o poder público, em pactos, muitas vezes, desprovidos de espírito republicano”. O relator aponta que, no modelo então vigente, cerca de 20 mil pessoas jurídicas — menos de 0,5% do total de empresas brasileiras —financiavam campanhas políticas. Fux diz ainda que “uma mesma empresa contribui para a campanha dos principais candidatos em disputa e para mais de um partido político, razão pela qual a doação por pessoas jurídicas não pode ser concebida, ao menos em termos gerais, como um corolário da liberdade de expressão”.

O caso da JBS é emblemático. A empresa recebeu empréstimos da ordem de 31 bilhões de reais do BNDES entre 2005 e 2016. Ao mesmo tempo doou milhões de reais para campanhas eleitorais de uma ampla gama de partidos. Ou seja, o dinheiro público foi utilizado para financiar dezenas de candidatos, que acabaram por criar leis que a beneficiaram no Congresso. Um ciclo vicioso evidentemente.

As regras do jogo eleitoral são aprovados até um ano antes da próxima eleição. Então até o mês de outubro de 2017 as regras para as eleições de 2018 serão aprovadas pelo Congresso Nacional.

Diversas questões estão na pauta. Entre elas tem-se a volta das doações das empresas, a criação de um fundo eleitoral com dinheiro público (da ordem de 3 bilhões de reais), o sistema distrital  e a cláusula de barreira.

A maioria da população não tem a menor ideia do que significam esses termos.

Muita gente não entende por exemplo o que é o quociente eleitoral. É difícil querer mudar o país sem compreender como seu sistema eleitoral funciona. Como é possível o voto de um deputado eleger outros 3?

 

Com tantos partidos o presidente da república acaba tendo que praticar o “presidencialismo de cooptação” e não de coalizão.

É preciso entender por que poucos  candidatos são eleitos sem dinheiro e sem vender a alma para agiotas e empresários. Não existe almoço grátis. Toda doação eleitoral acaba sendo um empréstimo. Cada real doado significa mais de oito reais de contratos públicos. Esses dados são apontados no livro de Márlon Reis.

Temos que entender por que as campanhas são tão caras. Por que há tão poucas mulheres na política?  Por que é tão difícil um cidadão comum participar do processo político?  Por que há tanta falta de civismo. Por que ainda é tão fácil comprar votos por 50 reais ou um tanque de gasolina? Por que há tão poucos deputados negros e pobres? Por que o estado de Roraima, por exemplo, tem o mesmo número de senadores que a Bahia ou São Paulo? Por que um deputado precisa de 1 milhão de votos para ser eleito na região sudeste e menos de 20 mil na região norte? Vale entender como essas questões foram definidas ao longo do tempo pelo Congresso Nacional e na própria Constituição.

Nenhum vereador, prefeito, deputado ou presidente deveria ser reeleito. A atuação política não deveria ser uma profissão.

Para se ter uma ideia do problema, há mais de 30 partidos no Congresso. A maioria são pequenos partidos de aluguel que vivem do Fundo Partidário. Na entrevista a seguir é possível conhecer um pouco melhor as ideias do juiz Márlon Reis, que escreveu o livro “O nobre deputado”.  Márlon Reis foi um dos propositores da Lei da Ficha Limpa, uma importante contribuição, mas que ainda foi incapaz de livrar o país de criminosos de gravatas. Se o atual congresso é “ficha limpa” eu não consigo imaginar como seria se a Lei da Ficha Limpa não existisse.

Fica a dica para as leituras indicadas e para a reflexão.

A reforma política está acontecendo com o silêncio descrente das ruas. Penso que apesar das propostas totalmente surreais que estão sendo discutidas não haverá nenhuma mudança no sentido de fortalecer a democracia. Os deputados não vão aprovar nenhuma lei que os prejudiquem no futuro.

Posso estar sendo pessimista. Mas penso que vai demorar muito tempo para que ocorram mudanças efetivas no sistema político. Há 100 anos havia o voto de cabresto e as mulheres não votavam. .

Mesmo que o atual Congresso seja 100% renovado na próxima legislatura dificilmente haverá uma mudança significativa de comportamento dos deputados. As eleições são como pirâmides.

Para cada deputado que hoje está atuando em Brasília, há dezenas de políticos que estão na fila para ocupar sua cadeira e com práticas muito semelhantes nas câmaras estaduais e de vereadores. Os deputados não são alienígenas. Representam também um pouco de nossa sociedade.

Mas tenho fé. Os políticos têm medo quando a população ocupa as ruas. E isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde.

Atenciosamente,

Prof. Jesué Graciliano da Silva

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Material para leitura complementar:

http://www.uel.br/grupo-pesquisa/gepal/v1_caio_GIV.pdf

https://web.bndes.gov.br/bib/jspui/bitstream/1408/9634/1/O%20crescimento%20de%20grandes%20empresas%20nacionais%20e%20a%20contribui%C3%A7%C3%A3o%20do%20BNDES%20via%20renda%20vari%C3%A1vel%20os%20casos%20da%20JBS,%20TOTVS%20e%20Tupy._P.pdf

http://tede.fecap.br:8080/jspui/bitstream/tede/376/1/Leandro_Araujo.pdf

http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/2/2134/tde-28092010-113713/publico/Daniel_G_Falcao_P_Reis_Financiamento_da_politica_no_Brasil.pdf

http://www.transparencia.gov.br/

http://www.acileme.com.br/osbleme

http://osbrasil.org.br/

http://tede.pucrs.br/tde_arquivos/6/TDE-2012-01-25T131707Z-3589/Publico/436192.pdf

https://repositorio.bc.ufg.br/tede/bitstream/tede/5907/5/Disserta%C3%A7%C3%A3o%20-%20Alex%20Diniz%20Lopes%20-%202016.pdf

Curso Técnico Integrado

Recentemente temos realizado algumas discussões sobre o Curso Técnico Integrado.

São discussões que provavelmente estão acontecendo em diversos outros dos mais de 650 câmpus da Rede Federal EPCT. São problemas recorrentes e que vem sendo pesquisados por muitos autores. Há diversas teses e dissertações disponíveis na internet.

Entre os autores que desenvolvem pesquisas sobre esse assunto tem-se Acácia Zeneida Kuenzer e Marise Ramos.

Para Ramos (2016), é importante a superação da dualidade da formação para o trabalho manual e para o trabalho intelectual a partir da organização de uma educação para a politecnia, que possibilite aos educandos a compreensão dos fundamentos científicos, tecnológicos, culturais essenciais para a produção da vida.

Em sua origem a educação profissional brasileira foi considerada uma forma de ensino destinada aos pobres e excluídos. Basta ler com atenção o Decreto nº 7.566 do presidente Nilo Procópio Peçanha, que criou 19 Escolas de Aprendizes Artífices. Essas escolas surgiram duas décadas após a proclamação da República Brasileira e eram destinadas preferencialmente aos “desfavorecidos da fortuna”.  Esse foi um período de grandes transformações sociais, culturais e econômicas decorrentes do fim da escravatura, da consolidação do processo de imigração e da expansão da economia cafeeira, que possibilitou investimentos na infraestrutura das ferrovias, estradas e indústrias. Nesse período, a formação para o trabalho foi um expediente utilizado como meio de contenção daquilo que se chamava de “desordem social”.

Ao longo do tempo a educação profissional foi deixando de ter um caráter meramente assistencialista e passou a ser considerada importante para a promoção do desenvolvimento.

Mas poucas crianças, quando perguntadas sobre qual profissão querem ter no futuro, respondem “quero ser um técnico em eletrônica” !  Normalmente as crianças falam que vão exercer profissões mais prestigiadas no imaginário social. Recententemente há crianças querendo ser youtubers, criadores de jogos…

A explicação para isso é complexa. A tese do colega Gustavo Moraes explorou bem a origem dessa visão bacharelesca da sociedade brasileira. Vale a pena ler a tese completa.

“Neste país de analfabetos, marcado pelo horror da escravidão, a luta pela existência
ganhava contornos muito mais acentuados para as “almas” que não eram brancas. Qualquer
pequeno grau de instrução nestas condições significava uma vantagem imensa para a
mobilidade social. Mobilidade que seria ampliada ao seu máximo caso a instrução recebida
resultasse na obtenção de um grau de bacharel. O título de bacharel, neste estado de coisas,
funcionava como uma carta de branquidade (FREYRE, 2014b), capaz até mesmo de arianizar
os mulatos mais eugênicos que o portassem. A mitificação do bacharel e do doutor na sociedade brasileira começa, obviamente, pelo seu grau de raridade. Durante o período colonial, enquanto a Coroa Espanhola incentivava a criação de universidades pelo continente americano, acreditando que estas instituições serviriam como “ponta de lança” na difusão da cultura e da civilização europeia nas colônias americanas (ROSSATO, 2005), a coroa portuguesa obstaculizava a formação de nível superior em suas colônias, sugerindo a formação em suas Universidades portuguesas, em especial a de Coimbra. [..] A política, contudo, iria mudar sensivelmente a partir de 1808, com a transferência da Corte de Lisboa para o Rio de Janeiro. Três formações seriam priorizadas, ganhando elevado prestígio social: a Medicina, com a criação das Academias da Bahia e do Rio de Janeiro; a Engenharia, com a Academia Militar e da Marinha; e o Direito, com as faculdades de São Paulo e de Olinda. Delas, sairiam os novos bachareis, responsáveis pelas transformações nacionais, cujos diplomas seriam simbolicamente equiparados a títulos de nobreza, em especial no reinado de D. Pedro II. […] Dentre esta “nova nobreza”, contudo, ninguém gozava de maior status do que o bacharel em Direito. Formado para o tratamento das questões burocráticas do Estado, para a elaboração e a interpretação das leis, para a diplomacia e para a administração pública, este bacharel possuía, como defende José Murilo de Carvalho, o “bilhete de entrada” para o “clube” formado pela elite dirigente imperial (deputados, senadores, presidentes de província, ministros, etc) (CARVALHO, 1978). Moços que, ao se formarem, aprendendo ou não as suas ciências, passavam a pertencer a uma nova classe social, acima do povo. Tal como ilustra a narração do bacharel Brás Cubas, personagem de Machado de Assis, em 1899” (MORAES, 2016, p.121):

A “cultura do bacharel” ainda presente no imaginário social parece exercer uma forte influência nas atuais escolhas profissionais.

O fato concreto é que uma parte expressiva dos estudantes dos Cursos Técnicos Integrados da RFEPCT não tem interesse em exercer a profissão de Técnicos de nível médio, optando pela continuidade dos estudos em nível superior. Esse fato é corroborado por uma pesquisa recente realizada por Neri (2010). Aproximadamente 64% dos estudantes de 15 a 29 anos não têm interesse de frequentar cursos de educação profissional.

Apesar da falta de interesse dos jovens pela educação profissional, uma pesquisa recente encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) ao Ibope mostrou que, na avaliação da população, os cursos técnicos e profissionalizantes são um caminho rápido para conseguir um emprego e ter um bom salário (CNI, 2014). Os brasileiros acreditam que a educação profissional oferece boas oportunidades para quem quer ingressar no mundo do trabalho. De acordo com a pesquisa, 90% dos entrevistados concordam que quem faz ensino técnico tem mais oportunidades no mercado de trabalho do que quem não faz nenhum curso. Sobre salários, a percepção também é positiva: 82% concordam que os profissionais com certificado de qualificação profissional têm salários maiores do que os que não têm.

Não custa lembrar que essas pesquisas parecem ter como referência a controvertida Teoria do Capital Humano.

É importante perceber que os Cursos Técnicos Integrados ao Ensino Médio oferecidos pelos Institutos Federais são organizados em diferentes formatos em todo o país. No próprio IFSC há cursos de quatro e de três anos. No câmpus São José, os atuais  Cursos Técnicos Integrados são muito diferentes daqueles oferecidos na década de 1990. Naquela época os conteúdos da área de Cultura Geral eram condensados em detrimento de conteúdos das áreas técnicas. Ou seja, os estudantes não aprendiam os mesmos conteúdos do Ensino Médio de um curso propedêutico. Como resultado os estudantes desenvolviam elevada competência técnica, mas pouca formação geral. A maioria deles se tornaram profissionais bem sucedidos e deram prosseguimento aos estudos em nível superior.

No Governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso, o Decreto 2.208/1997 reforçou a dualidade estrutural da educação profissional, criando matrizes curriculares  e  matrículas  distintas  para  o estudante  que  desejava  formar-se  técnico:  uma  no  Ensino  Médio  e outra  no  Ensino  Técnico,  podendo  ambos  ocorrerem  em  épocas  ou instituições  de  ensino  diferente.

Segundo  Tavares (2012), o  reforço  à  dualidade  estrutural ocorreu  para  atender  a  três  objetivos  básicos:  evitar  que  Escolas Técnicas  formassem  profissionais  que  fossem estudar no  Ensino  Superior  ao invés  de  ingressarem  no  mercado  de  trabalho;  tornar  os  cursos técnicos  mais  baratos,  tanto  para  a  rede  pública  quanto  para  o setor privado que poderiam ofertar cursos na modalidade subsequente de 1.200 horas a  preços  competitivos;   promover  mudanças  na estrutura  dos  cursos  técnicos,  de  modo  que  os  egressos  possam ingressar  mais  rapidamente  no  mercado  de  trabalho  e  que  as instituições de ensino possam flexibilizar os currículos adaptando-se mais facilmente às demandas imediatas do mercado. Uma estratégia foi a criação de certificações parciais, que davam ao estudante um Certificado de Qualificação a cada módulo concluído.

Oito anos  depois, com  a revogação desse Decreto, iniciou-se a construção de um novo Curso de Ensino Médio Integrado, que acabou se tornando muito diferente daquele antigo. O primeiro curso ofertado foi o PROEJA Integrado de três anos em 2007.

Posteriormente foram criados os atuais cursos técnicos integrados, em que os conteúdos profissionalizantes passaram a ter uma carga horária bem menor que os cursos antigos.

Segundo o MEC (2015), aproximadamente um terço das matrículas da RFEPCT são de Cursos Técnicos Integrados ao Ensino Médio.

E são cursos que apresentam uma qualidade reconhecida. A partir dos resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) é possível inferir que os estudantes da RFEPCT têm recebido uma formação comparável às melhores escolas do país. Nos exames de 2014 e 2015, nenhum dos 38 Institutos Federais apresentou nota média de seus estudantes abaixo da média nacional do ENEM. Em Santa Catarina, as melhores notas no Exame foram obtidas por estudantes de escolas privadas, com média geral de 566 pontos. Os estudantes da RFEPCT de Santa Catarina obtiveram média geral de 562 pontos. Entre as escolas públicas, os estudantes do IFSC e do IFC ocuparam as primeiras posições no Exame.

Mas muitos se perguntam se a preparação para o ENEM deveria ser a  finalidade dos Cursos Técnicos Integrados oferecidos pelos Institutos Federais.

Para Costa (2011), que estudou o caso da implantação do câmpus Volta Redonda  (Rio de Janeiro), as transformações que estão em curso com o processo de expansão da educação profissional não levaram à superação da dualidade histórica da educação brasileira, que continua presente não apenas na consciência coletiva de nossa sociedade, mas também nas práticas e políticas públicas que vão sendo desenvolvidas pelos governos e suas instituições de ensino.

“O ensino profissional dos CEFETs, e agora dos Institutos Federais, não é mais para os “pobres e desvalidos da sorte”: ao longo de três décadas, vem formando sujeitos preparados para desempenharem seus papéis integralmente na sociedade. Contudo, não raramente, isso acontece mais pelas práticas cotidianas construídas dentro das instituições de ensino do que pela normatização e objetivos da educação profissional […] A vertente classista e a submissão da educação ao mundo da produção, marcas históricas que forjam a educação profissional, continuam impressas mesmo nas mudanças em curso e não é privilégio ou exclusividade dos serviços educacionais, mas uma das formas de expressão de uma sociedade de capitalismo dependente, que persiste e atualiza as desigualdades como meio de organização econômico-social (COSTA, 2011, p.132)”.

Para Eliezer Pacheco (2011), o conhecimento de forma integrada exige outra postura:

“significa pensar um profissional da educação capaz de desenvolver um trabalho reflexivo e criativo e promover transposições didáticas contextualizadas que permitam a construção da autonomia dos educandos. […] Essa proposta, além de estabelecer o diálogo entre os conhecimentos científicos, tecnológicos, sociais e humanísticos e conhecimentos e habilidades relacionadas ao trabalho, além de superar o conceito da escola dual e fragmentada, pode representar, em essência, a quebra da hierarquização de saberes e colaborar, de forma efetiva, para a educação brasileira como um todo, no desafio de construir uma nova identidade para essa última etapa da educação básica” (PACHECO, 2011, p.27).

Ao que parece, a sociedade brasileira tem uma atitude contraditória em relação à educação profissional. Apesar de reconhecer que ela amplia as oportunidades de emprego, a maioria dos estudantes não tem interesse em realizar um curso técnico.

Basta perguntar para os estudantes quais são seus planos para o futuro. Provavelmente, uma grande parte dos estudantes dos Cursos Técnicos Integrados tem por objetivo o Ensino Superior. Desenvolver o interesse por conteúdos profissionalizantes é um desafio permanente, principalmente com a proximidade do ENEM.

Ao longo do tempo penso que houve um distanciamento das áreas técnicas e de cultura geral. Os objetivos de cada grupo de professores tornaram-se um pouco diferentes. Os professores mais antigos ainda têm como referência os cursos técnicos integrados do passado. Na Cultura Geral a renovação do quadro de professores ocorreu com maior intensidade e nem sempre conseguimos a integração das diferentes gerações. Antes de se falar na construção de um currículo integrado penso que os professores deveriam interagir mais. Temos profissionais altamente qualificados das áreas profissionalizantes e da Cultura Geral que nem sempre se comunicam com eficiência. A integração é um processo que também passa pela construção de objetivos comuns. É importante encontrar um ponto de convergência entre os anseios dos professores da área técnica e da Cultura Geral.

Com a transformação em Instituto Federal houve dispersão das áreas de atuação e de objetivos. Em alguns casos os professores acabam atuando em quatro modalidades diferentes em uma mesma semana. Os professores da Cultura Geral, que antes atuavam apenas no Curso Técnico Integrado, também participam do Curso de Engenharia, do CST, da Licenciatura, do PROEJA e da Especialização.

Gusmão (2016),  que realizou uma pesquisa recente sobre os cursos técnicos concluiu que:

“A experiência do ensino integrado do passado e a atual nos revela que a escassez de um ensino médio de qualidade no Brasil torna interessante ingressar nas Instituições Federais Profissionalizantes apenas para se ter um ensino propedêutico de qualidade para um melhor preparo na disputa das vagas no ensino superior, dificultando essas instituições de produzirem resultados na sua missão profissionalizante, pois não consegue atender a clientela que além do ensino propedêutico também deseja ou necessita da habilitação profissional” (GUSMÃO, 2016).

Não se pode esquecer que ainda existem as quotas para escolas públicas, o que tornam os Cursos Técnicos Integrados ainda mais atraentes.

Enfim, é importante discutir com muita serenidade o que realmente queremos e de que forma podemos ampliar a integração dos conteúdos profissionalizantes e de cultura geral.  Penso que devemos refletir se muitas vezes não reproduzimos inconscientemente a cultura do bacharel. 

A experiência de outros países mais desenvolvidos não deveria ser desconsiderada. Na Alemanha, por exemplo, um técnico tem salário da ordem de 60% de um médico. Todos os profissionais merecem viver com dignidade.

A falta de valorização da profissão de técnico no Brasil é uma questão cultural e complexa com raízes na tradição escravocrata. É muito comum pagarmos 200 reais por uma consulta de 15 minutos com um médico e reclamar quando nos é cobrado 60 reais para a troca de pastilha de freios. Há ainda a própria expressão: profissionais de nível superior – ou seja – todas as outras profissões são de nível inferior? Em alguns países a expressão utilizada é ensino terciário.

Cunha (2005) ressaltou que no Brasil-Colonial, a vigência de relações de produção escravistas não incentivava homens livres a trabalharem com a manufatura e artesanato. As atividades que exigiam força física e a utilização das mãos eram vistas como trabalho para escravos. Salvo raras exceções, a promoção da educação profissional no Brasil foi marcada desde os tempos mais remotos como uma forma de ensino destinada aos pobres e excluídos tais como índios e escravos.

Considerando essas questões culturais e históricas é importante não perdermos de vista como grupo de professores que, além da preparação para o ENEM, temos por dever preparar nossos estudantes para o mundo do trabalho. O conhecimento de uma profissão abre novas oportunidades. É mais uma opção em suas vidas. E a partir dessa base os estudantes podem construir suas carreiras profissionais com mais segurança. Foi o que fiz. Utilizei a profissão de desenhista de arquitetura para custear meus estudos em nível superior.

Dos aproximadamente oito milhões dos estudantes que se inscrevem anualmente no Exame Nacional do Ensino Médio, menos de um quarto ingressam no Ensino Terciário. Uma parte desse contingente acaba ingressando no mundo do trabalho sem preparação profissional, muitas vezes ocupando as funções menos remuneradas e contribuindo para ampliação do “exército de reserva”.

Muitos se esquecem que mesmo  que os estudantes optem por continuar  seus estudos em nível terciário, levarão consigo conhecimentos técnico-científicos essenciais para compreensão das complexidades inerentes à sociedade do conhecimento.

Atenciosamente,

Prof. Jesué Graciliano da Silva

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REFERÊNCIAS e Material sugerido para leitura complementar sobre o assunto:

Em construção:

RAMOS, Marise Nogueira. Ensino Médio Integrado: da conceituação à operacionalização. I Seminário Intercâmpus de Formação Pedagógica para docentes e gestores da Educação Profissional. Vitória. 2016

CASTELO BRANCO, Uyguaciara Velôso. A construção do mito do “Meu Filho Doutor”. Fundamentos Históricos do Acesso ao Ensino Superior no Brasil – Paraíba. Tese de Doutorado. UFPE. Recife. 2004.

Um novo modelo de gestão?

Há dois anos, junto com diversos colegas, participamos do processo eleitoral do IFSC com o objetivo de fortalecer o debate de ideias sobre o futuro da instituição. Penso que vencemos no quesito “fair play“. Também aprendemos muito a partir do diálogo com os estudantes e colegas. Infelizmente, em alguns câmpus, nem tivemos a oportunidade de mostrar nossas propostas mesmo havendo agendamento para tanto. Os debates foram os únicos momentos em que houve igualdade de condições para discussão e esclarecimento das propostas.

A postagem a seguir é uma releitura de algumas questões trazidas naquele momento.

A partir das conversas que realizamos durante a pesquisa de doutorado ficou evidente que precisamos construir um novo “pacto institucional”.  As discussões para constituição do IFSC ocorreram há 10 anos. Mas muitas expectativas vem sendo frustadas ao longo do tempo. A principal delas está associada à ampliação da autonomia dos câmpus em relação à Reitoria. A comunidade acadêmica votou no plebiscito em um caminho diferente do que vem sendo trilhado.

VANTAGENS

Levamos para a campanha a experiência de diversos  ex-diretores de campus. No meu caso particular, levei o aprendizado como diretor, ex-pró reitor e ex-reitor pro tempore do IFSC, IF-Farroupilha e IF Paraná. Aprendemos o bastante para entender algo bem simples: que os estudantes, a razão de nossa existência, estão nos câmpus.

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Por isso, os câmpus devem ser protagonistas do processo ensino-pesquisa-extensão, uma vez que estão próximos das necessidades de suas comunidades. A reitoria tem o papel de mediação. Seu papel é político estratégico e não operacional como vem acontecendo. Os docentes e TAEs dos câmpus precisam de autonomia para exercer bem suas funções, sem burocracia e sem o peso do controle.

É preciso confiar mais na criatividade das pessoas, deixando que os câmpus manifestem suas diferenças em sintonia com os aspectos culturais e socieconômicos locais. Quando não há prejuízo aos demais câmpus, toda inovação precisa ser bem vinda e compartilhada. Essa postura tem o poder de contribuir para a melhoria do clima organizacional. Na gestão democrática é importante respeitar as diferentes formas de  pensar a instituição.

É preciso mais HUMILDADE para ouvir com a atenção as necessidades das pessoas que constroem a instituição no dia a dia. O papel da reitoria é o de ajudar para que os servidores docentes e TAEs façam bem feito seu trabalho.

É fundamental colocar o êxito estudantil no centro das atenções. Porque isso dá um significado especial ao trabalho dos docentes e TAES.

O IFSC contava só com 3 campus em 2005. De 2005 a 2014 foram instalados mais 19 câmpus. Hoje contamos com 22 câmpus. O Instituto Federal Catarinense, com sede em Blumenau, tem hoje 15 câmpus. Alguns deles atuam na mesma área de abrangência territorial do IFSC. Esse é um dos desafios.

Como articular a oferta de cursos, promover a pesquisa e a extensão de forma coordenada na mesma região?  Como consolidar os câmpus localizados nos municípios menores e garantir a manutenção dos câmpus mais antigos?  Outro desafio da expansão é garantir que em todos os câmpus, o modelo de gestão democrático-participativa – que sempre foi uma marca registrada do câmpus São José – possa se tornar efetivo na solução dos problemas locais.

Tenho atuado há 24 anos no IFSC.  Ingressei na profissão de docente na antiga Escola Técnica Federal logo depois de formado aos 23 anos. Apesar da experiência como monitor de algumas disciplinas na Engenharia Mecânica da UFSC não possuía uma preparação formal para a docência.

Procurei ler muito sobre o assunto e me capacitar ao longo do tempo. Sempre que podia discutia didática com prof. Hyppolito, que já possuía quase 40 anos de docência. Aprendi com ele que se desejamos que nosso aluno aprenda é importante dar um significado especial para cada conteúdo. Não basta ensinar a resolver a equação. Tem que mostrar como ela foi descoberta ou desenvolvida. Tem que mostrar situações do cotidiano onde ela se aplica. Tem que primeiro encantar e conquistar a atenção e o respeito dos alunos.

Por isso é fundamental garantir que os professores estejam motivados e capacitados para a docência. E a capacitação dos docentes depende também de formação não só em nível de mestrado e doutorado. É importante se ampliar as oportunidades de estágios profissionais e de capacitação horizontal. No início da carreira fiz um estágio de um mês em uma empresa de climatização, o que me proporcionou uma maior compreensão sobre a área. Há diversas possibilidades como cursos de imersão de inglês, produção de material didático, uso de novas tecnologias entre outros.

Santa Catarina é um estado de grandes diversidades. Apesar de possuir os melhores indicadores sociais e econômicos do país, quando a gente olha mais de perto as suas mesorregiões vemos diferenças grandes. Por exemplo, o PIB per capita da mesorregião Norte é quase duas vezes o da mesorregião Serrana. Isso tem influência no Índice de Desenvolvimento Humano e no índice Gini de todas as regiões. Considerando que o IFSC é uma instituição de abrangência estadual, devemos ter clareza e conhecimento da formação socioespacial de cada região quando pensamos no ensino, na pesquisa e na extensão. Por isso defendemos que as ações de gestão devem respeitar as características de cada região. É preciso acolher a diversidade também no âmbito institucional.

Há diversos caminhos para promover mais regionalização. Como exemplo, é possível a criação dos Conselhos de Desenvolvimento Territorial composto pelos diretores dos câmpus do IFSC, do IFC, UFSC, Udesc do Sistema S, das secretarias da educação dos municípios, empregadores, egressos e representantes dos estudantes e servidores que fazem parte da mesorregião.

Aprendi no câmpus São José e com a professora Soni de Carvalho a importância da GESTÃO DEMOCRÁTICA E DA PARTICIPAÇÃO. Hoje tenho ouvido dos colegas que os espaços democráticos até existem, mas em algumas situações eles são conduzidos sem a preocupação de ouvir com cuidado a contribuição das pessoas. Então você pode ter fóruns democráticos e não ter o mais importante: a participação. Às vezes uma ideia não é bem acolhida porque não foi bem compreendida. Por isso temos que garantir que as pessoas possam expor suas ideias com tranquilidade sem risco de repressão.

A gestão participativa deve ser fomentada e construída em cada espaço. Lembro-me que em 2011, durante a gestão pro tempore, realizamos diversas reuniões para discutir as questões de interesse dos servidores da Reitoria. Foram discussões produtivas que contribuíram para o bom encaminhamento das ações. As pessoas querem participar de verdade, não de faz de conta.

Tive a oportunidade de coordenar mais de uma centena de reuniões em minha vida como gestor público. Aprendi que quando as pessoas participam mais, elas SE COMPROMETEM MAIS. Então, se a gente quer mais efetividade nas ações é preciso envolver as pessoas, chamar para que elas participem das decisões do dia a dia. Porque isso cria um ambiente de co-responsabilidade. Os recursos são limitados. Então nada melhor do que perguntar para as pessoas onde elas preferem investir o dinheiro disponível naquele ano. E pensar coletivamente alternativas para o aumento de recursos. No ano seguinte da mesma forma.

Os gestores dividem o peso da responsabilidade. E a participação e a democracia no ambiente escolar são direitos constitucionais previstos no artigo 206 da Constituição Federal. Então precisamos garantir que os Colegiados de cada câmpus sejam ativos na discussão dos problemas. Nesse contexto é fundamental empoderar e valorizar os representantes para que eles tenham tempo e condições de discutir com seus pares os problemas que serão colocados em apreciação nas reuniões. Para isso é preciso transparência para que todos possam acompanhar em tempo real o que está acontecendo.

Os Institutos devem realizar cada vez mais pesquisa e extensão. Penso que as atividades de pesquisa no IFSC devem, sempre que possível, auxiliar no desenvolvimento tecnológico, social e cultural das regiões onde os câmpus se inserem.  O IFSC conta atualmente com mais de uma centena de grupos de pesquisa cadastrados e certificados. Vários grupos possuem linhas de pesquisa similares, entretanto desenvolvem suas atividades de forma desarticulada.

Uma instituição educacional é antes de tudo um espaço de emancipação e preparação de cidadãos para a convivência social. Essa convivência respeitosa e democrática deve levar em consideração a pluralidade de ideias. Nela exercitamos o que esperamos ser o ideal de nossa sociedade. Nesse exercício democrático, os alunos se transformam e logo depois podem transformar suas comunidades com novas ideias e concepções. Por isso é preciso saber divergir com respeito e, preferencialmente, construir consensos a partir de um diálogo franco e respeitoso com aqueles que pensam diferente.

Atenciosamente,

Prof. Jesué Graciliano da Silva

Resultados do processo de expansão da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica

No início de 2013 havia a expectativa de consolidação e continuidade da expansão da RFEPCT (Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica). Ao longo dos últimos quatro anos o cenário mudou. Os cortes orçamentários determinados pelo Governo Federal a partir de 2015 têm provocado grande inquietação, uma vez que diversos câmpus ainda estão em fase de implantação.

A expansão da RFEPCT enfrentou diversas dificuldades desde seu início. Foi necessário modificar a legislação para garantir a legalidade da transferência de recursos para construção de novas escolas profissionalizantes. No início não foram utilizados critérios mais elaborados para escolha dos municípios contemplados. O atendimento de três estados e das mesorregiões não contempladas pela Rede Federal contribuiu para iniciar o processo de interiorização. Em 2007, houve a integração da política de expansão com outros programas federais, tais como o Plano de Desenvolvimento da Educação e a Política Nacional de Desenvolvimento Regional.

Na Fase 2, o Governo Federal afirmava que era necessária mão de obra qualificada para alavancar o desenvolvimento dos APLs. Na Fase 3, a ideia era que a oferta de educação profissional nos municípios menos desenvolvidos do G-100 e dos Territórios da Cidadania seria capaz de transformar as realidades locais. Nos dois casos, há uma forte influência da controvertida Teoria do Capital Humano na formulação dos critérios para espacialização dos novos câmpus.

Após os esforços de uma década, atualmente a RFEPCT é responsável por, aproximadamente, 16% das vagas na educação profissional brasileira. Com os investimentos realizados no período de 2005 a 2015, a RFEPCT vem ganhando importância cada vez maior, principalmente devido a sua capilaridade e capacidade de inclusão. A instalação de mais de 450 novos câmpus  em uma década é também uma importante política pública de transferência de recursos do Governo Federal para os municípios na forma de salários dos servidores e repasse de custeio para manutenção das atividades de ensino, pesquisa e extensão. Esses recursos se tornam importantes fontes de receitas, principalmente para os municípios com populações menores. O número de municípios com até 40 mil habitantes atendidos ampliou de 26 para 164, um crescimento da ordem de 530%. Os municípios atendidos com mais de 100 mil habitantes tiveram um aumento de 184% e os de 40 mil a 100 mil habitantes, um aumento de 436%. A expansão da RFEPCT representou também um número expressivo de novas vagas de trabalho para professores e TAES.

Nas Regiões Norte e Nordeste do Brasil, onde há o maior percentual de famílias vivendo com menos de um salário mínimo mensal per capita, tem-se as maiores taxas de crescimento das matrículas. Na Região Nordeste é também onde se concentram o maior número de matrículas e de câmpus. O IDHM médio dos municípios atendidos pela expansão é inferior ao IDHM médio dos municípios atendidos pela pré-expansão em todas as cinco macrorregiões brasileiras.

De acordo com suas finalidades legais, os novos câmpus devem atuar em sintonia com as necessidades regionais. No entanto, o discurso oficial tem superestimado o papel a ser desempenhado pela RFEPCT, como se a presença de um câmpus em um determinado município fosse uma condição suficiente para a promoção do desenvolvimento local. Durante os eventos de inauguração dos novos câmpus do IFSC era comum se ouvir que a história dos municípios contemplados seria dividida em “antes e depois do IFSC”. Há muitas expectativas, o que pode trazer frustrações.

As mudanças recentes decorrentes da expansão e da implantação dos Institutos Federais têm levado a um processo de redefinição da identidade dessas instituições. Houve verticalização da oferta e uma mesma área pode oferecer desde cursos FIC até mestrado profissional.  Nesse período, também ocorreu uma rápida ampliação do número de servidores sem que, na maioria das vezes, houvesse tempo para compartilhamento da cultura pedagógica e administrativa construída por diversas gerações ao longo de mais de um século de história. Os servidores recém-contratados, que são maioria, trazem novos olhares para a RFEPCT. Nessa interação está se construindo uma nova identidade institucional. Na Lei de criação dos Institutos Federais há a obrigatoriedade de oferta de no mínimo 50% de vagas em cursos de nível técnico. Mas, o novo plano de carreira dos servidores docentes, que foi implantado junto com a instalação dos Institutos Federais, tem diversas semelhanças com o plano de carreira dos docentes das Universidades Federais. Há grande valorização da titulação e da produção acadêmica em detrimento da experiência profissional na área de atuação.

Esses fatos podem estar relacionados com o interesse crescente na oferta de cursos de graduação e de pós-graduação pelos Institutos Federais. No IFSC, por exemplo, o percentual de matrículas nos cursos superiores entre os anos de 2008 e 2015 passou de 19% para 30%. Os novos câmpus vêm criando cursos superiores e de pós-graduação nos seus primeiros anos de existência. Como exemplo, tem-se o caso do câmpus São Carlos do IFSC, onde será oferecido um curso de Engenharia Civil a partir de 2018. O Sistema de Seleção Unificada pode contribuir para o ingresso de estudantes de outras regiões do país, o que pode implicar em uma fonte de renda adicional para o comércio e para o mercado imobiliário do município de, aproximadamente, 11 mil habitantes. Um dos argumentos utilizados para justificar a criação desse curso é que ele será capaz de atrair estudantes de municípios vizinhos. Mas, será que os egressos vão permanecer na região? Será que a oferta de um curso superior pode contribuir mais para o desenvolvimento local que a oferta de um curso técnico? Ou estamos reforçando a “cultura do bacharel” tão presente no imaginário brasileiro? São questionamentos pertinentes e que demandam um tempo maior de observação para obtenção de respostas mais precisas.

A hipótese formulada no início da pesquisa de que os novos câmpus são capazes de contribuir para o desenvolvimento dos municípios onde estão instalados, promovendo ensino, pesquisa e extensão articulados com as atividades econômicas locais mostrou se parcialmente verdadeira. A atuação dos docentes, TAEs e discentes em atividades de pesquisa e extensão ainda não se tornou efetiva, principalmente nos novos câmpus. A descontinuidade dos editais específicos do CNPq vem agravando esse problema, uma vez que a contribuição dos novos câmpus tende a ser maior ou menor de acordo com as relações que cada instituição estabelece com os agentes públicos e privados em seu locus de atuação. A atuação dos servidores docentes, TAEs e estudantes em prol da solução dos problemas de interesse dos municípios em que os novos câmpus estão inseridos parece ser a melhor proteção para que a rede mantenha-se pública, gratuita e de qualidade.

Considerando-se os objetivos traçados no início da pesquisa, realizou-se uma detalhada avaliação quantitativa e qualitativa dos resultados do processo de expansão da RFEPCT nas escalas nacional, estadual e local. Pode-se afirmar que tem havido um relativo êxito nas políticas públicas recentes para a educação profissional. Apesar do pouco tempo decorrido desde o início do processo de expansão, já é possível observar alguns resultados positivos. A partir da análise estatística dos dados nacionais da RFEPCT, dos relatórios dos egressos e da pesquisa de campo pode-se afirmar que os novos câmpus têm ampliado as oportunidades de elevação da escolaridade e profissionalização dos estudantes, principalmente daqueles de menor renda e que vivem nos municípios com menores PIB per capita. No entanto, a eventual perda da identidade institucional, a grande diversidade de áreas de atuação e a pouca articulação com o meio externo são desafios que colocam em risco as finalidades legais dos Institutos Federais.

Para trabalhos futuros, sugere-se que sejam pesquisados os impactos efetivos dos novos câmpus nos municípios com menos de 40 mil habitantes para verificar como os egressos estão se inserindo no mundo do trabalho. Também seria importante pesquisar a evolução da oferta e das taxas de evasão dos cursos técnicos e superiores oferecidos pelos Institutos Federais, comparando com os dados de outras redes de educação profissional e de universidades.

Espera-se que a pesquisa desenvolvida contribua para a reflexão sobre a identidade e o papel da RFEPCT, bem como que sua leitura possa inspirar outros trabalhos correlatos  e ações concretas para aproximação dos câmpus de seus territórios ainda não inteiramente apropriados.

Atenciosamente,

Prof. Jesué Graciliano da Silva

Esse texto tem como referência as conclusões da tese desenvolvida sobre a expansão dos Institutos Federais.

A economia presente no dia a dia de nossas vidas

O aprendizado dos princípios de economia pelos mais jovens não é apenas possível, mas fundamental. É preciso formar adultos responsáveis financeiramente. Entender como a economia está presente em nossas vidas é o primeiro passo.

https://jesuegraciliano.wordpress.com/2017/02/01/educacao-financeira-vem-de-casa/

Na sociedade de consumo, onde muitas vezes se valoriza mais o TER e não o SER, é importante aprender desde cedo o que pode e o que não pode ser comprado. Gosto de uma frase: “Tudo aquilo que pode ser comprado na verdade não tem valor”. O dinheiro tem o valor que atribuímos a ele. Há pessoas que são felizes com muito pouco. Enquanto outros passam a vida correndo atrás dele e não são felizes.

Dalai Lama, quando perguntado sobre o que mais lhe surpreendia na humanidade respondeu:

“Os homens … Porque perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem do presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente nem o futuro.
E vivem como se nunca fossem morrer… … e morrem como se nunca tivessem vivido”.

Desde que acordamos somos bombardeados por propagandas, elaboradas por profissionais da área de publicidade e propaganda. Ele sabem como ninguém explorar nossos medos, ansiedades e desejos mais escondidos. E usam a psicologia para manipular nossos desejos, criando necessidades que muitas vezes não temos. Para sair dessa armadilha é preciso que sejamos capazes de pensar criticamente.

Sócrates dizia há mais de 2 mil anos: “Conhece te a ti mesmo”. Quem não se conhece  de verdade acaba virando uma caricatura manipulada pelos profissionais de propaganda.

Para se conhecer é primeiro saber de onde viemos:

Meus pais migraram na década de 1950 de Serrinha – Bahia para Júlio de Mesquita – interior de São Paulo. A viagem durou 8 dias de caminhão.

Nasci em Marília em dezembro de 1969 e morei até os 6 anos em uma pequena cidade próxima – Júlio de Mesquita.  Ao todo somos em oito irmãos. Em 1976 minha família se mudou para Marília. Em Júlio de Mesquita morávamos em uma casa de madeira simples com piso de “barro batido”. Nosso colchão era de palha de milho. Minha família trabalhava como boias frias. Íamos junto com minha mãe e irmãs para a colheita de café. Saíamos bem cedinho e voltávamos no final da tarde.

A colheita do café foi responsável pela expansão da linha de ferro para o oeste paulista e criação de diversas cidades bem como distritos menores. A data de instalação de Marília é 4 de abril de 1929 – exatamente o ano da quebra da bolsa de Nova Iorque e quando o principal produto de exportação do país sofreu um grande golpe. Já Júlio de Mesquita foi emancipada em 1948. Atualmente o município, onde passei parte de minha infância, não tem mais de 4 mil habitantes.

Em 1975 houve uma grande geada na região, o que destruiu muitas plantações de café. Uma grande crise se abateu nas fazendas.  Meu irmão mais velho mudou-se então para a capital São Paulo para trabalhar na indústria. Ele voltava mensalmente nos visitar e contribuía com parte de seu salário com as contas da família. Um ano depois nos mudamos para a periferia de Marília.

Desde pequeno ouvia meu pai dizer que as crianças que economizavam conseguiriam comprar até uma casa quando cresciam. E essa foi minha maior lição de economia… É preciso poupar para realizar nossos sonhos.

Também lia muitas estórias em quadrinhos. Achava interessantes as histórias de como o Tio Patinhas ficou rico explorando ouro no velho oeste americano. A moedinha número 1, que levou a seu milhão mostrou me que até mesmo uma grande fortuna começa com 1 centavo. A conquista do oeste americano no final do século XIX fez grandes milionários.

Com 9 anos tive a experiência de receber meu primeiro salário produzindo balainhos de café para uma cooperativa que ficava do lado de casa. Sim, não havia restrição ao trabalho infantil e nem Estatuto da Criança e Adolescente.  Nessa época também me lembro de sair vendendo manga, laranja e limão que meu pai ocasionalmente trazia do sítio de seus amigos.

Aos 10 anos comecei a trabalhar no bar da família, criado pelo meu irmão mais velho, que retornou de São Paulo no ano de 1980.  Com seu FGTS e ajuda de meu pai foi possível começar um empreendimento familiar na frente da casa onde morávamos.

Passava a tarde toda e início da noite atrás de um balcão ajudando no atendimento, dando troco e fazendo minhas tarefas escolares. Foram 3 anos aprendendo economia na prática. Aprendi fazer contas rapidamente de cabeça. Havia outros bares nas outras esquinas, o que levava a concorrência. E a redução de preços era uma alternativa. Também ganhava alguns refrigerantes por desenhar a caricatura dos clientes. Acabava sendo divertido e educativo também. Aos domingos, as vezes acompanhava meu irmão que ia vender galos e galinhas na feira. Lá se comercializava de tudo. Conheci uma banca de sebo e quase sempre comprava um gibi do Batman ou Superman. Lia e revendia para outro amigo que também trabalhava no bar de seu pai na outra esquina. Sempre com uma pequena margem de lucro. E assim passei a ler cada vez mais porque era lucrativo.

E graças a um desenho do Batman, que fui descoberto como desenhista pelo gerente do Itaú – Moacir. Ele me indicou para um escritório de engenharia. Trabalhava inicialmente à tarde até que passei a estudar à noite e trabalhar o dia todo. Meu salário era de 5 mil cruzeiros. O salário mínimo era de 35 mil cruzeiros em 1983.  Meu apelido era Tostão, em referência ao meu pequeno salário. Aprendi a desenhar, a cuidar do escritório, a usar o computador TK 85 no almoço, quando não estava assistindo He Man. Levava uma marmita térmica para o trabalho. Todo salário era repassado para minha mãe, como era costume para ajudar nas despesas da casa.

Depois de ter aprendido algumas técnicas de desenho de perspectiva conheci um dos melhores desenhistas da cidade: Emílio Nagai.  A partir da indicação dele, em 1985 fui contratado com carteira assinada pela Construtora Yamashita e pela Arc Plus Arquitetura com um salário de 434 mil cruzeiros.  Entre os donos do escritório havia um casal de arquitetos formados em Zurique na Suíça que também possuíam uma fazenda de café. Tive oportunidade de visitar a fazenda deles e lá pude relembrar a minha infância.

Abri uma caderneta de poupança no Bradesco e depositava uma parte de meu salário. A outra parte repassava para minha mãe. O Bradesco foi um dos primeiros bancos a automatizar o atendimento com os caixas eletrônicos.  Trabalhava o dia todo e estudava a noite. E em muitos finais de semana fazia projetos de arquitetura para ampliar a renda. Nesse ritmo acabava não gastando muito.  Em 28 de fevereiro de 1986 veio o plano Cruzado e o congelamento de preços. A desvalorização da moeda aconteceria novamente quando o presidente Collor mudou a moeda para Cruzado Novo. Com a inflação alta, a poupança era corrigida. Minha conta no Bradesco era administrada com cuidado. E aos poucos fui tendo a perspectiva de poder pensar em fazer uma universidade, de preferência pública. Tinha algum dinheiro na poupança, havia ganho o prêmio de Aluno Padrão de minha escola. Tinha uma profissão que gostava. A escolha por um curso de engenharia não foi difícil.

Por indicação de alguns colegas e dos professores, decidi cursar a melhor engenharia mecânica do Brasil, na UFSC, segundo o Guia do Estudante. Nunca havia deixado o estado de São Paulo até então.

No segundo ano de engenharia, o então presidente  Collor confiscou os recursos depositados na poupança dos brasileiros. Esse fato prejudicou meu planejamento, obrigando-me a trabalhar durante todas as férias seguintes para me sustentar.

Arrumei um emprego em uma fábrica de móveis inicialmente. Depois comecei a fazer desenhos de arquitetura, que enviava pelos Correios para Marília.  Também fui bolsista de iniciação científica na área de energia solar e monitor de Geometria Descritiva, Termodinâmica e Transferência de Calor. Concluí o curso de Engenharia Mecânica após em 4 anos e meio. A falta de dinheiro obrigou-me a utilizar bem o meu tempo. Ao me formar um semestre antes do prazo normal pude participar do concurso público para professor da Escola Técnica Federal de Santa Catarina, que abriu um mês depois.

Passei de auxiliar de desenhista a professor de desenho de climatização em uma década (1983 – 1993). Ao longo de mais de duas décadas pude ajudar muitos estudantes a realizarem seus sonhos, inspirando-os a ultrapassarem seus limites. Limites da pobreza muitas vezes. Indiquei muitos alunos para seus primeiros empregos. Aprendi com prof. Alvaro Prata que somos limitados por nossa imaginação.

Ao seguir o conselho de meu pai, nunca gastei mais do que ganhei. Hoje cada vez mais compreendo que nossas escolhas são motivadas pelos custo de oportunidade. Quando escolhemos fazer algo, deixamos de fazer outra coisa. E quando decidimos poupar também escolhemos consumir menos no presente para usufruir de um futuro mais seguro. Mas temos que saber dosar e aproveitar a vida. Poupar demais também é um problema.

Atualmente vejo a necessidade de ensinar meus filhos e contribuir para que outros jovens aprendam a lidar com a educação financeira.

A migração de minha família de Serrinha para o interior de São Paulo em busca de trabalho na lavoura, a mudança de meu irmão para São Paulo, nossa migração de Julio de Mesquita para Marília em 1976 foram eventos motivados pela economia.

A figura mostra algumas cidades importantes em minha vida. São Gabriel é a cidade onde nasceu minha esposa. Serrinha meus pais e Florianópolis meus filhos. A Bahia foi capital do Brasil e liderou o ciclo econômico da cana de açúcar. A criação de Marília se deve à expansão cafeeira. São Gabriel, que foi capital da República do Rio Grande do Sul, era caminho dos tropeiros – que forneciam gado para viabilizar a logística necessária para o ciclo econômico do Ouro no Sudeste.

A disponibilidade de empregos em determinadas profissões ou em determinadas regiões, leva ao movimento migratório dentro do país.  No meu caso, a busca por um curso de graduação de primeira linha levou-me a migrar para Florianópolis. E por que havia um curso de engenharia mecânica desse nível em Santa Catarina e não em São Paulo, onde se tem o maior número de indústrias do país?  Para entender isso é preciso compreender a formação socioespacial catarinense. Santa Catarina é proporcionalmente um dos estados mais industrializados do país.

https://jesuegraciliano.wordpress.com/reflexoes/santa-catarina-passado-e-presente/

A economia tem um papel fundamental nas transformações pelas quais o país vem passando nas últimas décadas, inclusive na atual crise política e econômica. Tratei dessa questão em uma postagem anterior.

https://jesuegraciliano.wordpress.com/2016/08/31/aeconomiaexplica/

Saber fazer essa leitura é importante para saber que a história de vida de cada pessoa está ligada a história econômica do país, mesmo que ela não perceba isso.

Penso que ao compreendermos nossas origens e conhecer como a economia influencia nossas vidas é possível ser mais racional em nossas escolhas. Podemos planejar economicamente nosso futuro.

Quer saber mais? Então segue algumas dicas para estudo individual. Ao final tem algumas perguntinhas para estimular seu raciocínio econômico.

https://jesuegraciliano.wordpress.com/reflexoes/dicas-de-educacao-financeira/

Atenciosamente,

Prof. Jesué Graciliano da Silva

A expansão da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica

Há duas semanas defendi perante banca examinadora tese sobre a expansão da Rede Federal EPCT no PPGEO da UFSC.

A decisão de escrever sobre esse assunto ocorreu em 2011, quando estava atuando como Reitor pro tempore do IFSC. Percebi que uma boa parte dos novos servidores desconhecia as verdadeiras motivações da expansão e quais eram as finalidades dos Institutos Federais. A pergunta recorrente era: “Em que os Institutos Federais se diferenciam das Universidades?”

Em 2012 e 2013, vivenciei ricas experiências de gestão no Instituto Federal Farroupilha e no Instituto Federal do Paraná, quando compreendi com mais clareza as características da RFEPCT a partir das comparações entre as estruturas de gestão decorrentes de uma mesma legislação aplicadas em diferentes territorialidades . Pude acompanhar de mais perto o processo de expansão  junto ao MEC e conhecer melhor suas concepções, conquistas, deficiências e diretrizes.

Estou também construindo um blog com o objetivo de tornar mais acessível o acesso às pesquisas realizadas e em andamento sobre a educação profissional. Nele há depoimentos, vídeos, documentos, discursos, reportagens de jornais e dados estatísticos.

Para quem tiver interesse em ler a tese, segue o link:

Jesué Graciliano da Silva Tese Expansão da RFEPCT 2017 UFSC

A EXPANSÃO DA REDE FEDERAL DE EDUCAÇÃO PROFISSIONAL, CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA ENTRE OS ANOS 2005 E 2015 E SUAS IMPLICAÇÕES SOCIOESPACIAIS NO ESTADO DE SANTA CATARINA

Desejo que a leitura seja agradável e contribua para a reflexão sobre esse período de grandes transformações.

Com a conclusão dessa etapa estarei voltando minhas reflexões para a área de refrigeração, conservação de alimentos e novas tecnologias educacionais.

Atenciosamente,

Prof. Jesué Graciliano da Silva

Onde foram parar nossos líderes?

Olá colegas, tenho refletido muito sobre o que me parece ser um “apagão da liderança” no Brasil. Esse assunto foi tratado há alguns anos pelo escritor e palestrante César Souza.

Vejam que o assunto é muito pertinente em um momento em que as maiores lideranças políticas brasileiras encontram-se envolvidos em escândalos de corrupção.  A falta de consenso sobre uma nova liderança inspiradora tem angustiado os brasileiros. E nesse momento há o risco de se apostar em aventureiros que nem sempre estão preparados para o tamanho do desafio de liderar um país tão complexo como o Brasil.

Mas não é apenas na política que vemos esse fenômeno. Assumir o papel de liderança dentro das organizações envolve assumir grandes responsabilidades.  Em 2014 vimos isso ocorrer na seleção brasileira, com o choro do capitão Tiago Silva antes da cobrança dos penâltis. O  primeiro gol da Alemanha na semifinal foi decorrente de um erro de marcação do  capitão substituto David Luiz. Sua atuação se tornou apagada a partir de então. Ele perdeu a capacidade de liderar o grupo para a necessária reação diante do placar adverso.  A ausência do líder informal Neymar Jr também contribuiu para o resultado negativo.  Se analisarmos o perfil dos capitães das seleções vitoriosas de 1958,1962, 1970, 1994 e 2002 podemos ver que que eles possuíam algumas características em comum.

Segundo Peter Drucker “Liderança é a capacidade ou habilidade de influenciar e inspirar pessoas”.

No livro “Liderança Ética e Servidora“, publicado pela Editora do IFSC em 2014 trazemos algumas reflexões sobre a importância de um novo tipo de liderança para os Institutos Federais. Nele mostramos que há muitos mitos sobre liderança que precisam ser combatidos. Líderes não nascem prontos. É possível desenvolver habilidades de liderança ao longo da vida. Podemos desenvolver nossos estudantes desde cedo para o exercício da liderança servidora.  Na Alamo Colleges (EUA) há um programa de Leadership desenvolvido para empoderar estudantes com dificuldades de aprendizagem.

https://www.alamo.edu/district/sli/leadership-program/

O livro Liderança Ética e Servidora começou a ser escrito em 2012, quando atuei como Reitor pro tempore do IF-Farroupilha. Diversos servidores me solicitaram que a Reitoria desenvolvesse programas de capacitação dos Diretores sobre boas práticas de gestão escolar e liderança. Nesse momento, entendi que tinha por obrigação escrever mais sobre o assunto já que os Institutos Federais se constituem em uma experiência recente e inovadora na educação brasileira. Sua característica multicâmpus é um desafio adicional porque é preciso equilibrar a centralização de ações sistêmicas na Reitoria com a necessária autonomia dos câmpus sem perder de vista a necessária identidade institucional.

Em 2013, ao ocupar a função de Reitor pro tempore do IFPR, levei comigo a experiência de ter atuado como Reitor interino do IFSC (em 2011) e do IF-Farroupilha em 2012. Sabia que deveria promover a ideia da liderança ética e servidora para superar a crise de confiança que se instalou após a Operação Sinapse desencadeada pela Polícia Federal.

Por isso também criamos no IFPR o Programa de Desenvolvimento dos Servidores.

Depois de 4 anos pesquisando sobre a expansão da educação profissional e tecnológica durante o doutorado e de ter lido dezenas de livros na área de desenvolvimento, história da educação, inovação e políticas públicas percebo com muito mais clareza o papel que deve ser exercido pelos novos câmpus, por meio de seus servidores e estudantes, na articulação dos agentes públicos e privados de cada município com vistas ao desenvolvimento regional. Ou seja, os novos câmpus também devem e podem assumir um papel de liderança institucional.

A seguir apresento alguns artigos que tratam sobre o assunto.

É tudo por dinheiro e poder nas empresas

https://periodicos.ufsc.br/index.php/gual/search?subject=Gest%C3%A3o%20universit%C3%A1ria

http://www1.folha.uol.com.br/livrariadafolha/1250345-livros-sobre-lideranca-omitem-os-detalhes-sordidos.shtml

http://epocanegocios.globo.com/Inteligencia/noticia/2014/07/onde-estao-os-bons-lideres.html

http://epocanegocios.globo.com/Informacao/Visao/noticia/2013/03/quem-precisa-de-lider.html

https://repositorio.ufsc.br/xmlui/bitstream/handle/123456789/135917/101_00068.pdf?sequence=1&isAllowed=y

Atenciosamente,

Prof. Jesué Graciliano da Silva